Com Divide and Conquer, um terceiro episódio levemente melhor que seus antecessores, Inumanos mostra que seu maior problema é não saber lidar com as adversidades.

Nem toda série começa com um piloto forte. Na verdade se você está alinhado com o mundo das séries e é um série maníaco de carteirinha, a regra de que todo piloto é, obrigatoriamente, um episódio complicado, já está marcada em sua cabeça. Existem várias produções que vão além e só conseguem demonstrar seu potencial depois de um arco inteiro. Existem exemplos dentro da própria Marvel. Mas o que fazer com uma produção, parte de um mundo interligado, com personagens famosos a disposição e que continua genérica e superficial?

Bom, não ter nenhum rosto familiar não é um erro, ao contrário, o essencial aqui é compreender a história da família real primeiro, para depois podermos ver como eles se comportam com outros personagens. Claro que ter alguém de Agentes da S.H.I.E.L.D. aparecendo para fazer uma rápida participação especial seria gratificante, mas estamos em uma espécie de introdução (muito longa) de Raio Negro, Medusa e a família real. Contudo, a própria proposta é destruída quando a série deixa de lado a interação entre estes, para colocar novos personagens que possivelmente não irão durar muito tempo.

Tome como exemplo o companheiro de cela de Raio Negro, o inumano que foi preso por ter incendiado a própria casa após sua transformação. Sua passagem é rápida e oferece uma visão melhor de como Raio Negro pensa e funciona, mas o mérito desta percepção está nos flashbacks de quando aquele homem ainda era um menino, com voz e sem nenhum desejo de se tornar rei. É uma história bem parecida com a de Thor e Loki, com a diferença de que um destes irmãos termina mudo e o outro com seu direito ao trono negado por sua genética. Ou seja, tudo poderia ter ocorrido lá, na Lua, sem a necessidade de um rompimento. Ora, a história poderia estar se desenvolvendo ao redor do desejo de Maximus de tomar a coroa para si e não após o expurgo de seus familiares. Existem falhas graves em Inumanos e a maior delas e o planejamento questionável. Obrigado, Scott.

Só que o erro mais grave é a falta de consistência em cima da própria mitologia destes personagens. Existem vários inumanos e nuhumans (descendentes de humanos e inumanos, que nunca foram para a lua) favoritos dos leitores da Marvel, mas tirando a família real, apenas Auran foi introduzida na série, de uma maneira bem diferente daquela usada nas páginas das histórias em quadrinhos. Sem uma base firme e algo que chame a atenção, a ideia de dividir todo mundo em pequenos grupos, com apenas um membro do elenco fixo, transformou a experiência de acompanhar estes personagens em algo nada interessante.

No primeiro e segundo capítulo ver a interação entre Karnak e Górgon foi extremamente válido. Vê-los dividindo um aspecto mais leve, cômico e desafiador fez daqueles episódios algo mais agradável e palatável. O mesmo vale para Medusa e Raio Negro. Como casal estávamos começando a perceber a química, quando o roteiro e o time criativo decidiu que seria melhor separá-los. É uma decisão complicada de aceitar. Quer seja por termos orçamentários, para justificar o corte de cabelo da Medusa ou qualquer outra loucura que Scott Buck conte a si mesmo antes de dormir, esta escolha prejudicou e muito a série Inumanos. Onde está a promessa de uma Game of Thrones com inumanos? Acertaram na separação dos personagens, mas erraram ao fazê-lo muito cedo. Até lá, na diáspora dos Starks, tivemos um tempo para vê-los juntos e uma temporada inteira até que eles tomassem rumos diferentes.

Inhumans 1x03: Divide and Conquer
Inhumans 1×03: Divide and Conquer

O mesmo vale para Górgon e o grupo de guerrilheiros surfistas do Havaí. De onde surgiu um grupo armado, até os dentes, disposto a lutar por um homem desconhecido e com falas horrorosas a respeito de reis e conquistas? Tirando a óbvia justificativa, colocá-los ali para termos a ação em Divide and Conquer, nenhuma outra justificativa faz sentido.

E as inconsistências não param por aí. O que o Raio Negro estava fazendo na prisão, antes de um julgamento adequado? Ele não deveria estar na delegacia? Por que Karnak não consegue usar seus poderes, desde antes da sua queda? Você, como bom leitor de quadrinhos, pode me questionar, afinal lá na nona arte o inumano nunca passou pela terrigenese, mas aqui, após tanto desenvolvimento em cima da humanidade de Maximus, é de senso comum compreender que um dos membros da família real não é um “simples” mortal, afinal esta revelação terminaria por derrubar a motivação do vilão da temporada. Ken Leung está com um ótimo personagem nas mãos, mas ideia de vê-lo sem conseguir fazer algo simples como lidar com um grupo de traficantes de quintal, é irritante – para dizer pouco.

E eu não consigo ficar bravo com o elenco, afinal cada cena ruim, composta por falas ruins, apenas ilustra como showrunner e roteiristas não estão preparados para lidar com estes personagens. Crystal está, pelo terceiro episódio seguido, fazendo o papel da irmãzinha chata. Sua “rebeldia” contra Maximus pode ser, brevemente, lida como o ataque de uma garotinha mimada. O mesmo vale para o final, com Dentinho sendo atingido por um quadriciclo, abrindo potencial para uma história de romance proibido entre humano e inumana. Você riu com a rainha Medusa pedindo por favor para o caixa rápido? Eu fiquei envergonhado.

Apesar de não parecer, Divide and Conquer me capturou mais do que os dois episódios exibidos anteriormente. Aqui não existe a pretensão de apresentar um filme para o telespectador e tudo parece um pouco mais agradável. Entretanto Inumanos ainda não conseguiu se encontrar e não existe muito tempo. De oito episódios três já foram exibidos, o que significa que a próxima semana marca a metade da temporada inaugural da série, talvez a última. É preciso ser mais objetivo. Precisamos unir de uma vez por todas os membros da família inumana, que pouco estão agregando separados. Um pouco melhor ainda é melhor do que totalmente ruim, mas é definitivamente longe de um padrão de qualidade que a Disney e a Marvel queriam atrelados a seus nomes. Mesmo que Agent Carter tenha sido cancelada, ninguém nunca poderá dizer que ela não tinha identidade. Já Inumanos…

Easter eggs e outras informações

– Divide and Conquer, o título do episódio, é uma homenagem ao arco dos Inumanos exibido nas revistas do Quarteto Fantástico, de Fantastic Four Annual Vol 1 #5.

– Durante a conversa entre Maximus e Auran, a inumana diz que Mordis trazia consigo apenas morte. Assim que Maximus e Bronaja o libertam, ambos olham para o outro lado. No arco de Jenkins e Lee existe um inumano chamado Dinu, que tem todo o rosto coberto, porque apenas olhar em sua face representa a morte.

– Entre o time enviado por Maximums para enfrentar Górgon estão: Flora, Pulsus e Sakas. Nenhum deles possui uma versão nos quadrinhos. Pelo menos não com esses nomes.

– Raio Negro se encontrou com um inumano criado pelo evento de contaminação do final da segunda temporada de Agentes da S.H.I.E.L.D. Diferente dos inumanos descendentes dos experimentos dos Kree e que foram para a lua, os da Terra entram em casulos quando expostos a terrigenese.

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– Em Divide and Conquer tivemos a participação da WHiH World News, rede de televisão que já esteve em Agents of S.H.I.E.L.D., Daredevil, Jessica Jones, Luke Cage e Iron Fist, além dos filmes The Incredible Hulk, Iron Man 2 e Spider-Man: Homecoming.

REVISÃO GERAL
Nota:
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