
A megalomania da verdade.
Spoilers Abaixo:
Quando Hunted começou, aposto que muita gente aí não deu muito por ela. De fato, a natureza tão intensa da personalidade da série pode ter afastado o público que gosta de tramas mais mastigadinhas. Esse, definitivamente, não é o caso da criação de Frank Spotnitz. Hunted tem uma atmosfera muito bem organizada e pensada, conduzida com extrema competência técnica e um roteiro que se preparou gradativamente. Não existe coisa melhor do que ver uma história que sobe os degraus do clímax, sem nos enrolar tirando intervalos nos patamares.
Então ficou claro que chegando ao final da temporada, veríamos o topo. E esse penúltimo episódio foi certeiro nesse sentido, fazendo com que a subida fosse quase incontrolável. Vamos precisar nos obrigar a parar, respirar fundo, para conseguir viver plenamente o provavelmente espetacular season finale.
Podemos começar falando de Steve, um assunto que abordei frequentemente nas reviews anteriores. Gosto dele não só porque acredito na paixão por Sam, mas porque ele é o elo frágil de uma série baseada em pessoas extremamente fortes. Por isso, o pobre moço é tão valioso… Quando o vimos entrando no jogo sujo de compra de informações, nos animamos. Agora sabemos, entretanto, que ele não conseguiu grande coisa por seus próprios meios.
Me aborreci com ele em Khyber. Ao mesmo passo em que continuou tentando brincar de ser forte e determinado, mostrando uma clara e bem vinda evolução do personagem, Steve também protagonizou um momento confuso, que ainda assim, faz parte da galeria de cenas ótimas da série: a cena com Turner na delegacia. Até o momento em que Sam não é mencionada, tudo transcorre bem, mas quando Jack revela o disfarce dela – do qual Steve, naquele momento, não tem provas –, o filho tem uma reação de aceitação tão imediata… Ele cai na conversinha do pai tão rápido, que eu comecei a achar que talvez seja tudo truque. Tem que ser, ou Steve será, lamentavelmente, um babaca completo.
A estrela do episódio, porém, não foi Steve e nem Sam, mas a conspiração. Finalmente revelada, não parece surpreendente do ponto de vista criminoso (aqueles homens sempre foram capazes de tudo), mas a megalomania ganha destaque. A verdade sobre a Polyhedrus é tão aterradora que impressiona. Ainda que não faça o menor sentido pensarmos em Sam envolvido naquilo tudo diretamente, a ponto de fazer parte da lista negra de Hector (que agora sabemos, é o mentor do atentado).
Nathalie reapareceu no episódio com grande importância, não só percebendo as mentiras e engodos, como também reservando para Sam e para nós, alguma coisa sobre Aidan. Como torço por Steve, quero mais que ele tenha alguma culpa no cartório mesmo. Culpa essa que Keel parece não ter, enfim.
Fowkes também deu seu recado. A seqüência da busca pela maleta foi ótima, mesmo que não por ela (que estava cheia de pedras), mas pela vingança contra Tyrone, que felizmente, não morreu. Vilão pra fazer andar várias temporadas, ainda que Hunted esteja ameaçada de não tê-las. Por quê? É só o que me pergunto…
Se não pelo enredo totalmente interessante e bem conduzido, ao menos pelo que essa série representa para a televisão. Quantas produções por aí podem se gabar de terem tantos titãs na sua grade de personagens, a ponto de seu único elo fraco ser, de fato, o que a diferencia das outras. Eu acharei uma pena se Steve ceder ao jogo psicológico do pai novamente… Seria um encerramento genial se no meio de tanta gente brigando para serem reconhecidos como implacáveis, o grande deturpador fosse um loser clássico.
Não nos decepcione no season finale, Steve. Não nos decepcione.
Hunted – 01X08: Snow Maiden [Season Finale]
O ciclo da morte.
O último episódio começa com uma sensível animação, que acompanha o pequeno Eddie pela leitura de um livro infantil. A história da mulher com o coração de gelo é a metáfora perfeita para o último capítulo da história da família Turner. Não se enganem amigos, esse finale não foi sobre Sam. Esse finale foi sobre a mulher com o coração de gelo, que perdeu tudo, e atravessou a floresta escura para entregar o pobre menino, ileso, às mãos do pai, e assim “morrer” logo após ver pela primeira vez a luz do sol.
Quando digo que esse não foi um final sobre Sam, estou sendo categórico. Não soubemos praticamente nada do que esperávamos saber sobre ela, e isso foi assustador, porque o cancelamento estava certo antes da série ser salva pelo Cinemax. Se esse tivesse sido o final definitivo eu estaria xingando todas as gerações de Frank Spotnitz. Não me entendam mal, foi um último epsisódio cheio de bons momentos, mas também cheio de lacunas e pontas soltas, com um excesso perigoso de enigmas, que não nos deixaram suprir algumas das expectativas que criamos em torno da protagonista.
A trama com os Turners não poderia ter terminado melhor. Aliás, não. Vou fazer apenas uma ressalva: aquela vizinha vindo do nada para iluminar a cabeça de Stephen foi difícil de engolir. Embora possível foi providencial demais. Perdoamos porque essa série sempre teve uma imensa qualidade, mas poderiam ter sido menos preguiçosos nesse quesito. Sobretudo porque os momentos finais foram realmente grandiosos, ainda que aqui também, Sam não tenha sido a grande estrela.
A razão pela qual a personagem permaneceu inconsciente durante boa parte da ação é muito simples: Sam era apenas a ferramenta. A espiã. As decisões e intervenções definitivas precisavam ser feitas realmente pelos lados de Turner e da Byzzantium. Nesse sentido eles acertaram muito, mostrando que Jack não era o espertão que pensava ser, e colocando seu mundo para ruir em todas as direções. Com direito a um bônus: a partenidade de Tyrone. Bônus esse que não tem a menor relevância pro programa, mas enfim…
A virada com o conteúdo da valise foi fantástica, e foi o pontapé perfeito para conhecermos o destino dessa disfuncional família. Jack perdeu a batalha, a guerra, mas não sem antes deixar claro que também tinha suas motivações. Eu, pessoalmente, preferia o Jack malvadão, em busca apenas de poder, mas no contexto humano geral, motivações pessoais costumam ser mais críveis. Era perceptível que o roteiro seguiria nessa direção: a de tirar tudo do patriarca Turner, até sua vida. E foi ótimo vermos que os treinamentos de Sam embaixo d’água já estavam destinados para esse momento.
A morte de Jack foi um belo momento, e foi também o ato final da série como a conhecemos. De fato, é impossível saber o que vem por aí, já que inexplicavelmente, levaram Sam para o mesmíssimo momento de onde ela saiu no início da temporada. E esse é o ponto mais estranho de todo esse finale.
Compreendemos o quanto ficou clara a correlação com a história do livro, mas “não morrer de verdade” já virou um hábito na vida de Sam Hunter. Toda a preparação para aquele momento, toda a natureza quase lúdica da cena, e o tiro tão certeiro, e “um mês depois” na tela, e aquele bebê… Dizer que estamos perdidos é pouco. A sensação é de incompreensão, e essa é uma sensação perigosa. Pode nos afastar do enredo e não queremos isso.
Eu tive a impressão de que Sam já foi para o encontro ciente do que ia acontecer. Keel a queria morta para não precisar ceder a nenhum dos lados. Também não entendo Deacon fazer discurso moral e depois topar dar o tiro, e muito menos entendo porque Goebel se importa tanto com Sam. E aquele dedo cortado…. Enfim, tanta coisa…
Hunted é uma série especial. Qualquer que seja a explicação para o que aconteceu, sei que ela deve estar lá. Só vamos ter que esperar muito tempo para saber qual é. Mas ainda bem, e graças ao Cinemax, saberemos.













