
O terror antes de virar a ampulheta.
Spoilers Abaixo:
Embora o trabalho que Frank Spotnitz está fazendo em Hunted seja fantástico, o reviewer que vos fala precisou atrasar os textos da série, e ao mesmo tempo em que me desculpo, aproveito pra dizer que cada minuto dessa série no ar é um deleite de competência e entretenimento. O tempo corre para o final da temporada, e corre mais rápido na vida de nossa perturbada Samantha.
O tempo… Sempre ele… No primeiro episódio, parecia que a ampulheta da abertura apontava para uma metáfora, apenas. É claro que quando você constrói suas bases sobre mentiras, tem um relógio correndo contra você a cada minuto do seu dia. E quando Samantha resolveu voltar e descobrir seu inimigo disparou um cronômetro voluntarioso, que não corre no mesmo compasso o tempo todo, fazendo com que a jornada dela sofra ameaças constantes de aniquilação.
Agora já sabemos que a ampulheta não é só uma metáfora. No episódio Hourglass essa metáfora implícita ganhou forma e objetivo, e conectou os eventos que culminarão com o fim da temporada.
Tudo em Hunted se costura e se encontra. E o episódio 3 mostrou o quão grandiosa essa série pode ser, uma vez que foi nele que tivemos a maior concentração possível de correlação de tramas, e que poderia confundir o espectador mais desavisado. Por isso, pra aceitar a competência da série, é necessário saber tudo que está acontecendo, e ter em mente todas as tensões criadas até aqui.
Hourglass começou com a sequência incrível que eliminou um dos concorrentes de Jack Turner. Vale lembrar que o processo de licitação que ficou em pauta nesse episódio é exatamente igual a qualquer outro que vemos nas prefeituras da vida. Cada empresa tem um valor requerido para execução de um trabalho. O contratante avalia todos os lances e decide qual o mais adequado. Embora seja ilegal, as empresas costumam se comunicar para que os valores sejam acertados de modo que uma delas, previamente decidida, ganhe. Foi o que aconteceu com a empresa de Turner, que precisava ganhar e por isso, tentava manipular ou eliminar as outras.
Do outro lado temos a agência de Sam, que precisa descobrir qual será o lance dado por Turner, para com isso neutralizá-lo e impedi-lo de vencer. Essa é a verdadeira missão de Sam no episódio, embora no trajeto até esse objetivo, ela tenha esbarrado em muitos obstáculos.
Aqui, o conceito de tempo é usado ao extremo. Há um tempo demarcado pra tudo. Cada reviravolta do roteiro vem com uma exigência de tempo, e cada exigência de tempo vem com uma consequência devastadora. Sam precisa correr contra os ponteiros pra conseguir o lance, para salvar-se do antigo namorado de missão, para neutralizar os esforços de Turner em desmascará-la e para cumprir seus deveres de babá.
De cara ela já consegue o pen-drive onde acha estar a informação do lance, mas além de não conseguir a informação, dá de cara com Bernard, o antigo namorado de missão, a quem ela enganou com uma falsa morte lá no primeiro episódio. Com sangue nos olhos, ele não quer nem saber dos motivos dela, quer apenas usa-la para conseguir o lance de Turner. E ela, claro, quer saber se não foi ele quem ordenou sua morte.
A partir daí, a coisa parece ficar caótica. Começamos a achar que talvez ela esteja prestes a perder o controle, porém, Sam não tem nada a perder e joga alto, entregando momentos de inteligência que não ficam devendo nada pra muito espião famoso da história do cinema. No final das contas, ela consegue adiar os planos de Turner e se safar das ameaças de Bernard, que antes de morrer diz essa palavra mágica: Hourglass.
A equipe também esteve em foco, com Aidan sendo revelado como o traidor que passa informações para a agência MI6. Pelo jeito, relações entre agentes que se traem usando sexo pra isso não são incomuns. Aidan tem uma amante na MI6 e acha que foi ela quem ordenou a execução de Sam. Já a amante, Natalie, também parece estar apenas prestando serviços de espionagem para sua própria agência. No meio disso, a revelação de que o Hourglass é um arquivo, dentro da MI6, que fica numa salinha aparentemente sem nenhuma importância. Já sabemos que Aidan contou a Natalie sobre o encontro com Sam no dia do atentado, e que ela reportou isso ao seu superior, e que a ordem de execução veio daquela salinha. Mas por quê?
Chega a ser engraçado que, outra vez, um arquivo seja a chave para um mistério na carreira de Frank Sponitz. No episódio seguinte, Kismet, esse mistério foi ganhando outras dimensões.
O cerco contra Sam começou a se fechar mais e mais. E é curioso, porque as analogias temporais da série também se aplicam a outros personagens. Em Kismet, Sam está a um passo de ser descoberta, mas Aidan também já teve sua cabeça pedida. E o próprio Turner corre contra o tempo para conseguir, a qualquer custo, o dinheiro que precisa para honrar seu lance.
Esse episódio não teve toda a ação que vimos no anterior, e foi mais focado na tensão entre Sam, Steve e Turner. O papel de espiã da personagem se tridimensionou. Mas vamos por partes…
Deixar rastros não é muito profissional, e Sam deixa um. O “alvo” da vez é um antigo amigo de Steve, que se tornou parceiro de crimes do velho Turner. Ele tem um papel interessante no episódio, já que é através dele que veremos mais um pouco de Steve, com sua personalidade destroçada e sua autoestima destruída. Lewis, o amigo, inicialmente se aproxima de Sam por achar que ela é a mulher que ele viu seguindo-o, mas no fim das contas, acredita na encenação dela. No entanto, o mais importante de tudo, é que quando ele convida-a para um encontro, isso sinaliza para uma tristeza iminente na série: Steve, de um jeito ou de outro, terá muitas outras decepções.
Enquanto Sam não consegue enganar Turner totalmente, ao mesmo tempo, faz um trabalho bonito enganando Lewis, numa das melhores sequências de espionagem da história. Tudo isso enquanto Aidan vai descobrindo detalhes de sua caçada e matando a charada do Hourglass. Eletrizante é a palavra para descrever tudo isso.
Correndo por fora temos Fowkes se aproximando cada vez mais dos “soldados rasos” de Turner. É a série se calçando de todas as oportunidades ótimas que puder ter. As tensões crescem e as possibilidades se ampliam. Roteirista bom é roteirista seguro.
A volta de Goebel coroa um ótimo final. A poucos episódios do final da temporada, Hunted vai se desenhando com uma presença notável na programação. A série tem uma história concisa e muitíssimo esperta, e tem nos envolvido numa atmosfera fantástica de imprevisibilidade.
Não saber o que esperar está sendo incrível. E tornando essa experiência cada vez mais indispensável.



















