Humans” atingiu um ponto atípico em quesito de qualidade nesta temporada, que já desponta como a melhor da série. Desde a metade dessa season, a série vem entregando pequenas pérolas narrativas que atingem o espectador em qualquer frente: seja pela emoção, seja pela tensão. São pequenos finales que toda semana fecham narrativas e arcos e abrem ainda mais o universo criado pelo programa britânico.

Esses arcos narrativos também fugiram do comum nessa temporada. Nas duas últimas, a série preferiu tratar de um tema único, com uma progressão de arco: os quatro primeiros episódios abriam o tema, os quatro últimos fechavam. Nesta terceira parte eles quebraram totalmente esse modelo e adotaram três arcos distintos, com começo e fim, que trabalham em conjunto para uma grande história geral. Os episódios iniciais trabalharam com o preconceito e mostraram as consequências do despertar com a reação humana. Os episódios de miolo trabalharam com o orgulho, com a revolta synth e a tomada do protagonismo dos androides como seres iguais. Mas esses últimos episódios seguiram um caminho totalmente impensado até aqui: o da fé. Ambos os lados (humanos e synths) lidando com suas crenças e como elas afetam suas relações e tomada de decisões. Essa nova temática acabou por explicitar uma inversão de valores e ideias que vinha sendo trabalhada desde o começo da série e que aqui ficou escancarada. Os humanos vão lentamente perdendo suas emoções e se tornando máquinas e as máquinas são aqueles que evoluem e desenvolvem mais e mais camadas com o passar do tempo.

O mais irônico é que o exemplo mais claro disso vem de dois synths: Max e Anatole. Neles o papel da fé levou a extremos impensáveis e o resultado final foi pesado e igualmente complexo. Enquanto Max sempre acreditou na capacidade dos humanos de evoluírem e de mudarem, de que há uma bondade inata em todos os seres humanos, Anatole tomou o ganho de consciência como uma missão messiânica, como um sinal divino de que sua existência fazia parte de um plano maior e de que ele era o principal arquiteto. Nesse ponto a série mexeu com um vespeiro conceitual que aqui no mundo real tem consequências iguais ou mais alarmantes do que a da série. A fé, ao mesmo tempo que ajuda e dá forças, também é algo que cega e distorce a capacidade de discernimento. O embate (filosófico e físico) dos dois androides foi um dos pontos altos, por finalmente mostrar a derrocada de Anatole, mas também por mostrar suas reações ao ver que Elster era apenas um humano falho e não o Deus que ele acreditava. Nem sempre os criadores são aqueles que acreditamos ser e isso é, na maioria das vezes, tão destrutivo quanto a própria crença.

No lado humano, foram Laura e Mattie que encabeçaram essa perda de fé. Enquanto a matriarca dos Hawkins tinha de lidar com as perdas de suas escolhas, a nova mãe do clã tinha de lidar com a recusa de Leo de aceitar a gravidez e seu papel como pai e a descoberta de Audrey de quem realmente injetou o código do despertar globalmente. Para Laura foi o fim do caminho. Custando não somente sua própria carreira, mas também o bem-estar de sua família, a advogada teve que pagar o preço daquilo que ela acreditava ser sua convicção mais forte e que num momento de pressão (extrema, diga-se) foi quebrada facilmente. Mas como Mattie lembra, não é da característica dela de desistir tão fácil. Suas crenças foram quebradas, mas a convicção de estar fazendo o correto, de lutar pelos synths que merecem, ainda continua acesa. Porém ela descobriu finalmente o que é o bendito do Plano Basswood. Um recall geral, um extermínio em massa dos “green eyes” patrocinado pelo governo, o plano já entrou em ação e promete ser o grande catalisador dessa finale de temporada, já que Anatole não existe mais como uma ameaça.

Mas foi no plot de Niska que (finalmente) fomos surpreendidos. A fé também é o mote da busca da personagem em descobrir quem era o “synth que dorme” e a resposta não poderia ser menos chocante e surpreendente. Desde que a synth começou a ter visões e vislumbres do misterioso local, ela tomou como missão descobrir que era capaz de controlar os synths não importando seu nível de consciência. Ao chegar mais próximo do objetivo ela foi descobrindo novas informações que ajudavam a personagem, mas atrapalhavam a narrativa. Tudo isso ficou para trás com a descoberta de que Odi (sim, você não leu errado!) era o misterioso personagem. Ou pelo menos o corpo físico já que sua cor de olho está diferente (entre um azul e púrpura), ele é capaz de sobreviver sem uma fonte de energia próxima e parece muito mais humano do que o mais emocional dos synths despertos.

Dois grandes twists foram deixados para o final, com diversas respostas necessárias para a resolução satisfatória de ambos. Será que a série encerrará essa temporada com chave de ouro com uma qualidade quase inédita atualmente? Só saberemos na próxima semana, até lá!

Protocol_Error _1: Gostei mais uma vez da evolução de Stanley (agora com olhos verdes). Ao contrário de seu “mestre” ele não tinha a fé tão cega e conseguiu ver quando era hora de parar. Já pode pedir um spin-off dele com Sam?

Protocol_Error _2: Quem diria que Neha ajudaria Mia e sairia de cima do muro nessa reta final;

> WESTWORLD é uma série complicada? \W/

Protocol_Error _3: O Colin Morgan definitivamente é um irmão perdido do Benedict Cumberbatch. Nunca vi serem tão iguais.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
humans-3x07-episode-7Humans atingiu um ponto atípico em quesito de qualidade nesta temporada, que já desponta como a melhor da série.