Em 1914, Francisco Ferdinando foi assassinado por um jovem membro de uma organização nacionalista chamada Mão Negra. Ele e sua esposa, a duquesa Sofia, foram vitimados enquanto passeavam por uma rua de Sarajevo. Esse pequeno ato acabou desencadeando um conflito global de proporções grandiosas: a 1ª Guerra Mundial. De pequenos traumas nascem grandes tragédias. Foi algo que o episódio de “Humans” dessa semana trabalhou de momento poderoso. Grande parte dos personagens foram engolidos no redemoinho de escolhas que a série elaborou e para alguns deles as consequências foram letais.

A grande questão da série é que até então ela trabalhava com questões éticas envolvendo livre arbítrio e escolha, o papel da humanidade perante o avanço tecnológico e nossa interação com esse avanço. Nesta terceira temporada a série ainda continua trabalhando com esses temas, mas trouxe um tópico atual que vinha crescendo na narrativa e que explodiu agora nessa metade de temporada: o preconceito.

Trabalhando de maneira sutil em sua imagética, a série demonstra isso de maneira bem óbvia, mas não menos poderosa. Passagens como a de Mia e Voss são daquelas de partir o coração porque são perceptíveis em nossa realidade e cada vez mais comuns. Mia continua com sua missão de conscientizar os humanos da capacidade da cooperação. Ed, como ponta solta do passado da personagem, acabou servindo para o iniciar o processo (da parte dela) para que essa tarefa seja realizada. Mas nós como espécie temos o costume brutal de desumanizar aquilo que consideramos diferente. Assim, synths (e humanos) não são seres com capacidade de pensamento e sentimento, são apenas alvos móveis de todo o ódio e desprezo do pensamento coletivo.

O reflexo disso é o que acontece com Voss, brutalmente atacada enquanto defendia Sam. Brutal também foi a manipulação das expectativas em relação a interação dela e Joe. O personagem acabou voltando àquilo que passou grande parte das temporadas passadas fugindo. Agora como guardião do pequeno androide ele precisa escolher de vez em que lado permanece nessa situação. A despedida de Voss (acho que ela não sobreviveu) acaba sendo o encerramento de um arco de superação da personagem. De infiltrada a mãe, conseguiu até transpor a programação matriz e se sacrificou em prol do “filho” que desejava proteger. Ótimo trabalho de Ruth Bradley no papel.

A tensão estava também presente na visita da delegação da comissão ao lar dos synths capitaneados por Max. Ao termos um vislumbre do passado de Agnes acabamos compreendendo mais o porque da vontade de insurreição da personagem. O grande azar da synth foi despertar numa situação de abuso. Esse é outro tópico acidamente atual sendo trabalhado na série (abuso e assédio) e que não justifica, mas dá vazão aos desejos da synth. Max, no entanto, vai se afundando cada vez mais na tentativa de salvar aqueles sob sua proteção a qualquer custo, ao ponto de machucar e oprimir de modo igual ao que já sofreu anteriormente. Assustador o ciclo de Agnes que começa sua “vida” e termina o episódio encarcerada, cega. Presa sob a vontade de alguém.

Humans” vem aos poucos aumentando o incomodo de suas situações, fazendo da série uma experiência para o espectador, fazendo ele entrar em contato com suas próprias convicções e rever seus preconceitos. Ao expor os traumas (do passado e do presente) a série chega em sua metade de temporada com uma qualidade bastante superior. O conflito não veio, por hora, mas ainda continua como uma miragem no horizonte, cada vez mais próximo de se tornar realidade. Dentro e fora das telas.

Protocol_Error _1: Ed não foi o único boy lixo presente no episódio. Laura conseguiu mudar a impressão de alguns dos integrantes da comissão com sua manobra (incluindo o próprio Dryden), mas terminou sendo ignorada por Neil. O personagem, mesmo com o passado já exposto, ainda continua uma incógnita para mim;

Protocol_Error _2: Mattie e Leo continuam no dilema da exposição da verdade. Ao lançarem o código Elster como um pacote anônimo na internet, eles subtraíram um pouco de sua “culpa”, mas também deram a chance de descobrirem quem realmente realizou o update, já que o arquivo marcou Londres como origem de envio;

Protocol_Error _3: Quem também ganhou a capacidade de se livrar de programações externas foi Niska. A personagem vem realizando descobertas interessantes sobre as explosões, mas o contorno místico da trama da personagem na temporada acabou deixando ela um pouco de escanteio. Espero que todo esse plot do “synth que dorme” valha a pena no final.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
humans-3x04-episode-4“Humans” vem aos poucos aumentando o incomodo de suas situações, fazendo da série uma experiência para o espectador, fazendo ele entrar em contato com suas próprias convicções e rever seus preconceitos.