O primeiro encontro.

Aos poucos, How I Met Your Mother cria vários momentos importantes do relacionamento entre Ted e a Mother. Situações importantíssimas em um namoro, como o primeiro encontro, o pedido em casamento. Para isso, utiliza uma estrutura semelhante à que já conhecemos, utilizando narrações feitas por uma pessoa claramente viciada em contar histórias sobre sua vida. Se aproximando cada vez mais do casamento de Barney e Robin, cabe a Gary Blauman a missão de criar um dos últimos flashforwards antes que finalmente vejamos o momento em que Ted Mosby encontrará o amor de sua vida. Tudo isso em um episódio extremamente competente, ainda que escorregue aqui e ali.

Escrito por Kourtney Kang, o episódio mostra a história de como Marshall tenta acomodar Gary Blauman entre os convidados do casamento, já que sua confirmação de presença nunca chegou para Robin, e ela não sabe o que fazer com ele. Mas Ted, Lily e Barney tem fortes sentimentos sobre Gary. Até mesmo William Zabka e James tem suas opiniões a dar, o que leva a um grande impasse, julgado pelo talentoso juiz Marshall Eriksen, a quem cabe a decisão do que fazer com o importante convidado.

Poucas vezes nesta temporada HIMYM esteve tão afiada no que diz respeito a provocar risadas em seu espectador. Utilizando uma estrutura semelhante a alguns de seus melhores episódios, a série se foca em um aspecto, unindo todos os seus personagens para isso. Sabiamente, Robin fica de fora, o que indica uma enorme proximidade com o momento do casamento, que acontece no próximo episódio. Assim, Kang consegue se focar em construir todas as suas piadas a partir da existência de Gary, que é interpretado pelo sempre competente Taran Killam, o que inevitavelmente traz um conteúdo mais coeso e de simples digestão.

Assim, podemos ver uma das cenas mais hilárias da temporada cair nas mãos de Barney, quando ele revela o motivo por odiar Gary. Toda a construção por trás do “sonho” alardeado pelo personagem durante toda a temporada se transforma na atitude menos digna de ódio tomada por Gary, mas certamente a de narração mais divertida, principalmente pelas sátiras com suspenses exagerados. Aliás, HIMYM tem se especializado em tirar sarro de diversos gêneros nesta temporada, em uma abordagem humorística um pouco diferente do que nos acostumamos a ver ao longo dos anos, mas que funciona exatamente por mostrar uma série procurando revitalizar suas piadas em pleno nono ano de vida.

Da mesma forma, os outros flashbacks também conseguem trazer momentos competentes. Principalmente o de Lily, uma das poucas que gostam de Gary, que remete ao momento em que ela e Marshall não estavam mais juntos (algo que a série parece procurar relembrar a cada instante). Essa cena serve como premissa para que mais uma piada sobre a tatuagem de borboleta feita por Ted há anos seja disparada por Marshall, em um elemento de continuidade que sempre funcionou em HIMYM ao longo dos tempos. Além disso, a série usa Zabka de forma sábia, não abusando do carismático personagem e equilibrando muito bem sua presença com outras participações especiais.

Tudo isso leva ao momento em que, ofendido, Gary decide deixar o casamento. Ali, Carter Bays e Craig Thomas criam um interessante cenário de futuro para os personagens que não faria nenhum sentido estarem presentes no casamento. É verdade que a deixa para isso é um pouco artificial, mas consegue evocar um importante sentimento de nostalgia no espectador, utilizando o próprio cenário do estacionamento para isso, evitando uma série de cortes bruscos e invasivos, tornando toda a experiência fluente para conhecermos o futuro de pessoas como Zoey, Jeanette e Kevin.

A história envolvendo esses momentos que antecedem ao casamento é boa, mas Gary Blauman se destaca mesmo pelo primeiro encontro entre Ted e a Mother. E para isso se utiliza de diversas características interessantes. Uma delas é o fato de o episódio novamente se dedicar a uma história contada a ela por Ted, e não pelo velho conhecido Future Ted. Mas a mais importante delas é utilizar um acontecimento anterior (na série, não em sua linha temporal) para mostrar o quanto a Mother tem interesse em seu novo romance. É curioso como ela se empolga com saber o fim da história de Gary, enquanto em Vesuvius se mostra cansada das mesmas, chegando a dizer para o marido “não viver por suas histórias”.

Dessa forma, HIMYM tem construído todo o relacionamento entre os dois de maneira não-linear, de maneira brilhantemente conduzida por Pamela Fryman, que sabe como ninguém explorar o modo com o qual a série utiliza o tempo. Ou seja, ainda que o series finale ocorra no exato momento em que Ted e a Mother se conhecem, nada impede que certos avanços temporais ocorram de forma a mostrar a química entre eles, deixando o mistério apenas de como seus olhares se encontram pela primeira vez.

Esse clima intimista em que a série se pauta criou uma teoria de que a Mother poderia estar morta em 2030, e por isso Ted insiste tanto em contar a história de como a conheceu para seus filhos. Por semanas relutei contra comentar esse tipo de coisa nesse espaço, mas não posso deixar de dar minha opinião sobre isso. HIMYM é uma criação tipicamente romântica, e ainda que distorça diversos clichês do gênero, e consiga ser brutalmente triste em certos momentos, como Symphony of Illumination e Bad News, não vejo Bays e Thomas encerrando sua criação com algo tão melancólico. Posso estar errado, já que não posso prever o futuro, e terminar dessa forma certamente seria diferente de todas as sitcoms de TV aberta a que já pudemos acompanhar, mas acho muito difícil que isso aconteça.

De toda forma, Gary Blauman é uma excelente forma de encerrar o fim de semana que antecede ao casamento, deixando para o espectador apenas a cerimônia. Estamos cada vez mais próximos do fim.

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