Roteiristas de Casa do Dragão afetam a boa reputação da segunda temporada ao tomar a decisão de recompensar a audiência com mentiras.
David Chase, criador de The Sopranos, mudou a história da televisão quando recebeu da HBO (em seus primeiros anos como produtora de dramaturgia) carta branca para fazer de sua série a mais ousada que o mercado havia visto até então. The Sopranos tinha uma temporada menor; tinha episódios sem intervalo; e mais uma porção de tecnicalidades que faziam a diferença. Porém, mais que isso, The Sopranos tinha uma narrativa minimalista, mas substancial; que subvertia nossos conhecimentos sobre o gênero.
Às vezes episódios transformadores vinham no meio da temporada e nem sempre o grande momento de um episódio estava no fim. Chase não cumpria expectativas do jeito que o espectador estava acostumado. Mas, ele cumpria expectativas. Uma das maiores lições que deixou foi a de que mesmo que você não dê ao público o que ele espera do jeito que ele espera, você nunca mente para ele. Se você prometeu, cumpra com sua promessa. Se uma tensão era criada naquela temporada, ela explodiria naquela temporada. O que fica para o próximo ano são resíduos.
House of the Dragon não faz parte dessa escola. De fato, ela faz parte da mesma escola de Game of Thrones, em que resoluções eram empurradas para um futuro, rápido como a caminhada de uma tartaruga. Por um instante pareceu que era só um flerte; mas, diante dessa finale, já se pode dizer que os modos horríveis da série-mãe foram transferidas – pelo menos em parte – para sua cria. Esse foi um encerramento de temporada absolutamente covarde.
Nem um nem outro
Havia na linha de frente do episódio três vias para o conflito:
- O primeiro foi apresentado logo no início, quando Tyland Lannister foi tentar negociar a abertura dos portos para que Porto Real voltasse a ser abastecida. De quebra, poderia conseguir apoio para a causa dos Verdes. Os “piratas” de Essos o receberam com desconfiança, mas pediram Stepstones em troca e ele aceitou. A coisa toda poderia ter parado aí, mas para preencher o tempo de um episódio em que nada aconteceria, eles inventaram que Tyland precisaria ser aceito pela (pelo ou pelu) comandante Lohan. Se não bastasse essa bobagem, o tal “teste” pelo qual Tyland precisaria passar era uma ridícula luta na lama… Trazer alívio-cômico no season finale não foi lá a ideia mais inteligente que eles poderiam ter.
E por que estou chamando isso de “conflito”? Porque assim que Lohan aceita a empreitada, os homens de Essos e os homens de Corlys se enfrentarão numa batalha marítima que já começara a ser anunciada bem antes. Corlys rebatizou seu barco e levou um esbregue de Alyn; mas está pronto para a luta… A luta, contudo, só na temporada que vem.
- A segunda via de conflito começou a ser construída no primeiro episódio, quando Daemon chegou a Harrenhall. Em nome da construção desse conflito, os roteiristas sacrificaram o personagem e o tornaram um absoluto estorvo. A batalha em Harrenhall seria uma boa oportunidade de redimi-lo, mas eles preferiam uma outra alternativa; uma que incluía trair as motivações do personagem mudando sua personalidade em uma ceninha de alguns segundos.
Tudo estava sendo construído para que Daemon continuasse tentando assumir o trono; e ele não deu nenhum sinal – até a tal visão – de que pensasse o contrário. Exército pronto; alianças feitas e mágoa em riste. Porém, a chatíssima Alys Rivers levou o personagem para outro passeio até a Árvore-Coração e com voz de Mestre dos Magos afirmou que “agora ele estava pronto para ver”.
Não há nenhuma razão plausível para ela não ter mostrado aquilo para ele antes; e nenhuma pista para o que Daemon viu naquela visão que possa tê-lo feito mudar de ideia. Era uma visão de um futuro que ia dos desastres da Dança até o Rei da Noite e Daenerys. Um baita fan service para distrair os incautos; somente.
O fato é que Rhaenyra chegou para se certificar que não sofreria um golpe e Daemon, transformado, só assentiu e ajoelhou aos pés dela. Dois conflitos a menos numa cajadada só: nada de golpe contra a Rainha e nada de confronto no castelo. Todo um arco desperdiçado e jogado no lixo.
- O pior, contudo, ficou para o final. Nunca achei mesmo que a investida a Porto Real fosse acontecer nessa temporada, mas esse season finale começou a me provocar com essa possibilidade. O não-acontecimento desse conflito não seria um grande problema se não estivéssemos diante de um contexto que grita seu oportunismo.
Após mandar Alicent para um passeio na floresta, os roteiristas fazem Aemond tentar obrigar Helaena a montar em um dragão para ganhar números; e isso choca a mãe. A gente sabe que eles vêm mostrando para Alicent desde o começo do ano, que as coisas saíram do controle dela e que ela não tem mais nenhuma voz ativa no reino. Até faz sentido que ela pense em fugir. O que não faz sentido é ela procurar Rhaenyra para entregar o trono para ela.
Todo o “combinado” de Alicent com Rhaenyra foi só uma forma que os roteiristas encontraram de dar ao episódio final algum senso de importância. À essa altura nenhuma das duas tem condição nenhuma de acreditar no que se dizem. Tentar nos convencer de que depois de tantas mortes e perdas as duas vão confiar nas boas intenções do discurso é loucura. A gente já sabe que não vai dar certo; e isso também piora a iniciativa, que acaba sendo previsível.
A enormidade de decisões esdrúxulas desfila pelo episódio orgulhosamente. Diante desse cenário de coito interrompido, fica até mais fácil olhar para o panorama da temporada e sair reclamando de vários desenvolvimentos. Tomem como exemplo a jovem Rhaena, que por vários episódios apareceu andando pelas colinas por alguns segundos; e nessa finale apareceu outras várias vezes, andando por alguns passos; até que, no último minuto, finalmente deu de cara com um dragão. É até uma mudança legal em comparação com o original (no livro um dos ovos que ela carrega choca e ela consegue criar uma ligação com o filhote), mas não investiram NADA na personagem.
Aliás, nem nela, nem em Baela, nem em nenhum dos novos montadores… Todos têm um minuto de cena por episódio e a galera já acha que tá tudo bem. Faltam personagens realmente fortes; e esse é um problema da série como um todo. Alguns com potencial não são explorados (como Hugh) e outros que também tem potencial são esquecidos (como Larys). Criston Cole teve uma mudança incrível de atitude depois de Pouso de Gralhas… e desapareceu. Seu monólogo nessa finale foi muito bem escrito, mas o personagem tem a mesma quantidade de aparições homeopáticas que têm os novatos.
E é bem provável que achem que tá tudo bem também preparar três tensões para o final e não explorar nenhuma. “Ah mas eles foram ousados em não fazer as coisas”… bem, ousados eles seriam se fizessem e ainda assim tivessem que resolver o futuro da série.
Ficou desse segundo ano uma grande quantidade de sequências lindas e a força de Rhaenyra como Rainha. Especialmente nos últimos três episódios ela mostrou de verdade que está pronta para ser uma líder. E considerando que ela soa muito mais como a liga que segura a série junta, faz sentido que suas habilidades como guerreira estratégica sejam destacadas nos roteiros.
Rhaenyra é a Rainha que sempre nasceu para ser… Mas, essa finale foi a finale que nunca foi.
Coração de Dragão (com a voz do Miguel Falabella)
- Alicent sendo chamada de “mãe” numa cena com Aemond e Helaena chega a ser jocoso. Helaena parece 10 anos mais velha que a mãe. Que escalações bisonhas.
- Aegon II – O Rei Sem Pau.
- Ulf já tá enchendo os pacovás dos Pretos. Jacaerys tinha toda razão de se preocupar com o caráter dos novos montadores, mas ficar fazendo pirracinha não ajuda sua causa.
- E não tem jeito… Olivia Cooke e Emma D’arcy são as donas da série no que diz respeito às atuações.






















