Apesar de estranhas escolhas no desenvolvimento de alguns plots, a reta final de Casa do Dragão vai direto no coração dos fãs.

Os produtores de House of the Dragon nunca nos enganaram… A gente sempre soube que quando a HBO tomou a decisão de contar uma parte do passado da dinastia Targaryen, estava nos mandando um recado: vocês gostaram, ganhamos dinheiro e não estamos dispostos a deixar isso para trás. O atual momento da televisão mundial é movido pela nostalgia. As pessoas que eram adolescentes nos anos 90 (mais especificamente depois de 95) e início dos anos 2000 agora tem entre 35 e 45 anos; e são uma fatia gigante dos consumidores de cultura pop. Tudo agora é memória.

Game of Thrones é de 2011, um tempo considerável para colocarmos a série nesse balaio de coisas especiais que o amor do fã não quer deixar partir. Sabíamos que Casa do Dragão iria trazer de volta o mundo de Westeros em totalidade, incluindo as coisas que já tinham sido destruídas na série-mãe. Sabíamos que a intensidade dos Targaryen estaria de volta; que os dragões estariam de volta e que a simples menção dos nomes Stark ou Lannister ia fazer nosso coração palpitar.

Já até podemos dizer que os responsáveis pelo desenvolvimento narrativo da série dos dragões são mais ágeis, mas os métodos são muito próximos do que já tínhamos visto em GoT. Os episódios seguem com o mesmo ritmo; tem o mesmo destaque de núcleos; são estruturados com o intuito proposital de parecer com a série-mãe… E é isso, tá tudo bem. Acho que quem dá play em um episódio de House of the Dragon está procurando por isso mesmo: familiaridade.

Estou dizendo isso tudo porque a série alcançou um ponto em que os problemas em alguns núcleos já começaram a aparecer; mas, novamente, sequências eloquentes protagonizadas por dragões conseguem eclipsar essas falhas. Isso porque, é claro, essa é uma produção planejada para que o fã, o nostálgico, se apegue à emoções pregressas e viva a experiência plenamente. Sob esse aspecto, House of the Dragon não tem sido nada menos que impecável. É muito difícil não sair dela com uma sensação de que o espetáculo está valendo cada centavo do “ingresso”.

Daemonismos

Tanto no passado quanto agora, esse universo sofre para entender e respeitar a gênese de seus personagens. Esse foi um problema sentido em excesso com Brienne, Sansa, Daenerys; e muitos outros. Aqui em Casa do Dragão, não dava para rastrear isso muito bem na primeira temporada, onde muitas passagens de tempo foram necessárias até chegarmos no ponto em que a Dança começa. Agora, no segundo ano, esses problemas já aparecem.

Depois dos equívocos em torno das motivações para a morte de Rhaenys, talvez a condução de Daemon seja o problema mais gritante. Chegamos ao episódio 7 e o personagem está completamente perdido. No começo dessa segunda temporada ele chegou em Harrenhall e desde então protagoniza visões repetitivas, diálogos herméticos com Alys e faz poucos movimentos políticos e estratégicos em nome da batalha contra os Verdes. Sua arrogância ainda está ali, mas apenas disfarçando uma completa irrelevância dramatúrgica.

No livro, Daemon passa mesmo por um tempo em que reside em Harrenhall em busca de alianças para o lado dos Pretos. Sabe-se que ele, nessa época, ainda mantinha um caso secreto com Mysaria. Contudo, claramente, os roteiristas decidiram ir para uma outra direção com ela. Há um grande momento reservado para Harrenhall, mas como muita coisa precisa acontecer até lá, eles demonstraram uma completa inabilidade para conseguirem resolver Daemon durante essa espera. Foram para o caminho mais fácil: delírios, confusões, coisas que esvaziam o personagem de suas características determinantes. É claro que ele pode ter seus momentos de fraqueza ou confusão; mas eles não podem durar toda uma temporada. Isso já não é desenvolvimento, é enrolação.

Chegamos naquele ponto em que é preciso respirar fundo e suportar as sequências. Na semana 7, ao menos, foi feito um movimento estratégico depois que o jovem Tully foi até o castelo para dizer que dificilmente sua casa apoiaria Daemon depois das atrocidades cometidas pelos Blackwoods em nome dele. Foi uma boa sequência, mas muito mais por termos visto o personagem pagando pela própria prepotência. Uma vez amado pelos fãs, Daemon chegou até o ponto em que pouco importa qual será seu destino na Dança.

Essa questão com os personagens se arrasta um pouco até os novos; que desde a première começaram a ser apresentados. Hugh, Ulf, Addam e Alyn foram destacados no enredo por uma razão específica: montar dragões. Os quatro personagens começaram a aparecer já no início da temporada, mas em doses tão homeopáticas que foi difícil criar uma conexão bacana com eles. Alyn e Hugh apareceram um pouco mais que os outros dois, porque o roteiro usava-os para dar informações úteis para o espectador. Alyn era uma ponte necessária para demarcar os acontecimentos que resultaram na morte de Rhaenys; e Hugh servia para ilustrar as péssimas condições de Porto Real. Ulf e Addam, entretanto, tiveram pouquíssimas cenas.

Dança dos Bastardos

Diferente do livro, a ideia de convidar possíveis bastardos para tentar um dragão partiu de Rhaenyra quase como uma missão solitária. Enquanto do lado Verde a posição de Alicent vai sendo cada vez mais esvaziada; no lado Preto a postura de Rhaenyra é continuar demarcando seu território. Ela fez bons movimentos, como o de ter enviado comida para Porto Real e de ter lembrado ao próprio conselho quem é que manda. No livro, Jacaerys está totalmente do lado dela na empreitada, mas na série os roteiristas preferiram dar a ele um conflito justo: se a única coisa que o faz parecer um Targaryen é um dragão; como fica se tudo mundo tiver um?

É bastante curioso, porque Jacaerys é um bastardo, mas tem medo de ser “misturado” aos que não tem legitimidade ao trono. Contudo, tudo nesse momento da Dança, tudo diz respeito ao que não é legítimo. Aemond está sentado como regente em um trono ilegítimo; e são filhos ilegítimos que sobem em dragões no castelo de Rhaenyra. Os dois lados estão desesperados e o rato que Alicent vê em cima da mesa nos próprios aposentos é um sinal dessa podridão que acomete Westeros.

Não gosto de como Seasmoke foi atrás de Addam. Prefiro manter como princípio ético o cânone do livro, em que um dragão jamais aceita outro montador a não ser que o anterior esteja morto. Addam, que pode ser irmão de Laenor Velaryon, não foi mais visto desde que forjou a própria morte. Me parece que as criaturas são voluntariosas demais para irem atrás de um montador, como se fossem pets em busca de um tutor. Sei que a série nunca demarcou essa regra que está presente no livro, mas teria preferido que Addam tivesse conquistado Seasmoke de outra maneira.

Contudo, toda a sequência dos bastardos sendo massacrados por Vermithor foi das melhores que a série fez até então. O monólogo de Rhaenyra; a tensão; os ataques; as fugas… Foi tudo muitíssimo bem executado. Tenho achado não só que a HBO caprichou mais na exposição dos fatos, mas também que a escolha por tomadas diurnas ou muito bem iluminadas, são uma resposta às críticas severas que Game of Thrones recebeu a respeito no seu último ano.

Estou ansioso para ver como seguiremos a partir desse ponto em que bastardos e plebeus tem dragões. É um ponto que faz com que Rhaenyra tenha vantagem momentânea. Contudo, qual o preço de trazer para perto pessoas que não tem a mesma relação que ela tem com o nome da própria família?

Na excelente reta final de Casa do Dragão tudo que importa para quem luta é ter sua montaria. Isso não significa que os “cavaleiros” obedecerão a qualquer liderança.

 

Coração de Dragão (com voz do Miguel Falabella)

  • Rhaenyra e Mysaria juntas. Estamos prontos para o casal Mysenira?
  • Rhaena é a nova personagem que tem uma 1 cena por semana e nunca chega a lugar nenhum.
  • Ulf parece equilibrado o suficiente para ter um dragão?
  • Amo a sequência inicial do episódio 7, com Addam e Rhaenyra na praia, um de frente pro outro.
  • Pô Daemon, morre aí.
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