Episódio intermediário interrompe o fluxo de grandes acontecimentos na Casa do Dragão.

Um acordo antigo e velado entre roteiristas do mundo todo entrou em vigor no episódio dessa semana de House of the Dragon. Aqueles que lidam com dramaturgia também sabem dessa máxima: quando algo muito grande acontece, é de praxe assentar as coisas durante algum tempo, para que outras tensões sejam preparadas. Quase todas as séries, filmes e novelas do mundo usam a ferramenta da bonança depois de uma grande tempestade.

Em se tratando do universo de Westeros, os fãs acabam sentindo um pouquinho de medo dessa ferramenta. Na série original, os criadores eram bastante dados ao adiamento; e com a desculpa de “respirar” a trama, faziam com que vários episódios se arrastassem para lugar nenhum depois que algo muito ousado convencia o público de que valia a pena esperar. Então, natural que diante de um episódio sem grandes acontecimentos o público dê uma pequena torcida de nariz.

Mas… embora pareça que não, coisas importantes aconteceram. Nenhuma delas de efeito imediato, mas ali, presentes… marcando pontualmente o futuro dessa temporada.

A primeira dessas coisas importantes que parecem desimportantes foi o efeito contrário que os acontecimentos de Pouso de Gralhas provocaram na plebe de Porto Real. Levar a cabeça de Meleys para desfilar pela cidade acabou não sendo a melhor das estratégias; uma vez que toda a cidade vive um colapso desde que Viserys morreu e seus dois herdeiros passaram a brigar pelo trono. Ninguém está interessado em ficar, mas tampouco está autorizado a sair. Os Verdes não querem apenas o trono de ferro; eles também querem plateia para a vitória.

Por conta disso, Hugh foi trazido de volta à cena. Para os que não conhecem o livro, a presença dele pode parecer absolutamente aleatória; e, de certa forma, ela é. Os roteiristas não têm sido exatamente competentes em incluir Hugh, Alyn e Ulf de forma orgânica dentro dos acontecimentos. Alyn ainda tinha uma ponte com Corlys, mas os outros dois tem 1 cena por episódio e essa cena é sempre deslocada do resto. Um pouquinho mais de investimento não teria feito mal.

Hugh é o ferreiro que foi pedir ajuda ao Rei lá no primeiro episódio desse ano. Ele é um dos muitos que ajudam a fabricar as armas dos exércitos do reino; e ele apareceu na série para mostrar, também, que Aegon II e seus súditos não tem cuidado como deveriam da população – nem mesmo dos próprios funcionários. A esposa dele quer sair da cidade a todo custo e esse enredo, sem dúvida, será responsável pelo que moverá Hugh na direção do que preveem Rhaenyra e Jacaerys lá no final do episódio.

Sim, porque tudo agora diz respeito a ter dragões. Se Criston Cole teve um momento de sensatez que possamos chamar de “momento de sensatez”, foi quando disse à Alicent que não votou nela para assumir a regência do trono porque nessa guerra tem mais chances quem tem dragões; o que, olhando para trás, só me faz mais cético com relação ao grande “ato heroico” de Rhaenys na semana passada. Ela não só fez os Pretos perderem um dragão, como também deu ao marido Corlys o bilhete verde de deserção da coroa de Rhaenyra.

Também é interessante ver como os roteiristas ainda procuram formas de correlacionar Rhaenyra e Alicent. Embora Alicent não esteja no trono, ela é descreditada por ser mulher o tempo todo. De fato, é ela quem tem a experiência para ser a regente; enquanto, no conselho de Rhaenyra, ela precisa se reafirmar constantemente; até mesmo ao ponto de precisar livrar-se de um dos conselheiros, mandando-o para bem longe. Ela conhece tão bem a situação, que já está adiantada na ideia de que Daemon não permitirá que ela seja Rainha. Em Harrenhall, ele segue sendo pernóstico ao exigir que todos já o tratem como Rei. Um “Rei” que não acerta uma. O personagem está perdido desde que o ano começou.

Construir estratégias está ficando mais e mais obsoleto; seja porque os dragões resolvem tudo ou porque não se tem medo deles. Os Bracken – rivais dos Blackwood – deixaram bem claro que o medo dos gigantes que cospem fogo não dura para sempre. Daemon primeiro ameaçou com fogo; viu que não daria certo e tentou usar os Blackwood para dominar os inimigos. Deu errado de novo porque os Bracken souberam que era ele quem estava por trás de tudo. No final das contas, a estratégia falhou e tudo se resumiu a “se quer ser covarde e queimar tudo, fique à vontade”. A melancolia de Cole ao perceber que essa é uma guerra bisonha em que não se luta de verdade, também é um pouco da minha. Os Targaryen se garantem com dragões; e só.

Era esperado, então, que o próximo passo depois da morte de Rhaenys fosse tentar conseguir mais dragões. Jacaerys mencionou dois dos maiores: Vermithor e Silverwing. Ambos são capazes de rivalizar com Vhagar. Só tem um probleminha: quem vai montá-los? E é aí que entram todos esses novos personagens que pipocam desde a estreia da temporada. Dragões podem ser reclamados por qualquer pessoa, mas nem mesmo ser um Targaryen implica imediatamente na capacidade de montar um deles. Contudo, para que essa “dança” seja realmente grandiosa, o céu tem que estar tomado de dragões… A série está providenciando isso.

Não é como se esse episódio fosse o 4 de Julho de 1776, quando o Rei George III escreveu em seu diário que “nada importante” tinha acontecido naquele dia; enquanto, do outro lado do oceano, os EUA declaravam sua independência. House of the Dragon sabe para onde está indo e precisava desse “respiro” para sinalizar a próxima curva do caminho.

Só nos resta torcer para essa ser só uma parada rápida; e não uma estadia de preciosas semanas no limbo dos preenchimentos estéticos vazios.

 

 

Coração de Dragão (com voz do Miguel Falabella)

  • Aegon II virou um meio churrasquinho de príncipe. É exatamente isso que acontece no livro.
  • Jacaerys foi até a Casa Frey pedir para que eles liberem a passagem para Cregan Stark chegar mais rápido com seus homens em Riverlands. Legal… mas de que adianta tentar tantas alianças se tudo se resume a quem chega primeiro cuspindo fogo?
  • Ninguém quer dragão filhote, não.
  • É Alys que está mexendo com a cabeça de Daemon ou são mesmo as energias zangadas que assombram Harrenrall? O maior castelo de Westeros derrubou “árvores-coração” na sua construção e isso foi considerado extremamente desrespeitoso com as forças que estavam em Westeros muito antes da chegada dos homens.
  • Uma palavra: Elinda.

 

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