Ao início da quarta temporada, havia uma tensão no ar de que House of Cards tropeçasse e acabe seguindo caminho ladeira abaixo. As expectativas para esses treze capítulos era de que a disputa entre Claire e Frank fosse incendiar até que levasse à destruição completa dos objetivos e do legado dos Underwood. Corria o risco de levasse ao final da série, afinal, depois de chegar à Presidência, o caminho lógico seria a derrocada do protagonista. No lugar de todos as tensões, preocupações e possibilidades foi entregue uma temporada firme, coerente e que soube quebrar as expectativas em seu favor, colocar a série em sua melhor forma e entregar uma coleção de momentos emblemáticos e, o melhor de tudo, estabelecer o caos para o seu provável ciclo final.

A questão da investida contra a ICO atingiu seu ápice e a tensão foi alta. Tanto no Situation Room quanto na conversa entre Claire e Yusuf Al Ahmadi. No Situation Room a tensão imperou. Por mais que confiemos na sagacidade de Francis, sua ofensiva com os captores não tinha como dar em resultado favorável. Assim, a cada ligação e ultimato, a direção salientava a possibilidade de um tiro no pé. Por outro lado, por mais que saibamos que a Primeira Dama consiga usar suas palavras para convencer as pessoas e que seu desmascaramento de Yusuf tenha sido brilhantemente executado, ao colocar ele em contato direto com os captores, sem uso da força para controlar o que ele dizia, também um resultado negativo estava anunciado. Acima de tudo, o casal protagonista também confiava que a realidade desfavorável era possível, então, ao longo de Chapter 52, a sensação que predominava era de espera até que tudo desse errado e curiosidade quanto a qual seria a reação dos Underwood a isso.

Paralelamente, esse último episódio concentrou todas as ameaças latentes contra Francis e decidiu incendiá-las. O artigo de Tom foi o foco principal e isso foi merecido. A capacidade de destruição das informações e das conjecturas ali existentes, assim como a certeza de que mais ataques seguiriam ao artigo, fez com que a urgência do episódio fosse ainda mais acentuada. Lançar as acusações em meio a crise dos captores foi uma jogada de mestre de Tom e, assim, mesmo que sendo bem dissimulado, o Presidente não conseguia gerar confiança em suas palavras, muito menos insinuar uma ameaça palatável, uma vez que sua atenção estava e todos os lugares ao mesmo tempo. Mesmo assim, as duas conversas estabelecidas entre o jornalista e o protagonista foram formidáveis. Os intérpretes pareciam se divertir em poderem atuar juntos finalmente, espalhando veneno, indiretas e chocando-se de forma intensa, potencializando a tensão da situação em que se encontravam. Para completar o cerco de ameaças, Aidan anunciou que as ações ilegais feitas através da NSA não demorariam a gerar repercussões.

Mas, nem nos mais distantes universos paralelos, havia a certeza de que o final do episódio conseguiria explodir tanto o universo da série e finalmente estabelecer o caos. Se Conway ficou em segundo plano era porque isso era necessário. Se a trama de Doug não ganhou força, era porque humanização não se encaixava naquele contexto. O que importava era: em meio a tantas ameaças e tão pouco tempo para as eleições, não havia chances de que os Underwood pudessem reverter a balança. E, vem cá, me conta: há algo mais perigoso do que alguém que sabe que tem tudo a perder e que tem os instrumentos para gerar terror suficiente para congelar o seu entorno? E isso é exatamente o que os Underwood tinham em mãos. Se não é possível ganhar a simpatia e o coração das pessoas, que seja através do medo, criando o terror. Foram vários os arrepios que desceram por minha espinha enquanto o casal chegava a essa conclusão. E, assim, o final do episódio representou o ponto mais alto da história de House of Cards.

Se era pra entrar em guerra e justificar uma escala de violência acima da Guerra ao Terror, era necessário justificar isso através de um choque brutal. Assim, liberar para a população geral a iminente execução do pai de família foi uma decisão irretocável pros planos políticos dos Underwood. Agora eles têm material suficiente para barganhar as ações mais incisivas dentro do cenário internacional. Afinal, há algo mais vendável para a guerra que uma execução com público global? Nas mãos de animais políticos vorazes, não há limite para a escalada possível.

A quarta temporada de House of Cards colocou a série nos eixos por completo e foi além: (na opinião do reviewer que aqui escreve) conseguiu ser a melhor temporada da série. Bem coerente, costurado, planejado e atuado, esse quarto ciclo fez uma dialética de criação e quebra de expectativas que levou à construção do caos. E, depois de retomar tantos personagens ao longo desses treze capítulos, fazer rimas narrativas e estilísticas e estabelecer um palco incendiário e sem limites para a próxima temporada, o series finale ficou mais anunciado que nunca: em meio ao caos e a tantas ameaças, o fim da trajetória dos Underwood está chegando e o Chapter 65 deverá encerrar a história. Apesar da tristeza em sentir que House of Cards está chegando ao fim, fica o alívio e a felicidade de saber que está sendo bem planejado.

Ah, e não podia deixar de ressaltar: MELDELSDOCEL, JAHABENÇUADO, QUE É QUE FOI AQUELA CENA FINAL COM CLAIRE QUEBRANDO A QUARTA PAREDE PELA PRIMEIRA VEZ?! Eu fiquei arrepiado por vários minutos, o gelo na espinha fez o let it go de tão forte e, se Robin Wright já tinha tomado conta da temporada toda, esse momento deixou tudo cimentado em concreto. Claire foi o grande destaque da quarta temporada, Robin Wright extrapolou todas as expectativas e agora fica a torcida para que ela, atriz e diretora incrível, leve vários prêmios quando chegarem as premiações. E, claro, fica também a ansiedade em ver a Primeira Dama falando conosco.

P.S.: Foi um prazer escrever as reviews de House of Cards novamente e queria deixar um abraço a todos que comentaram os textos. Abraço!

Artigo anteriorAgents of S.H.I.E.L.D. 3×11: Bouncing Back
Próximo artigoAudiência USA – 09/03/16: Quarta