O coração pode estrangular a mente, quando todo o sangue flui para dentro.
Existem primeiras vezes para tudo na vida. A primeira vez que nos envolvemos em uma briga, a primeira vez que beijamos, perdemos alguém, conseguimos um emprego ou assistimos a uma grande série. Nesse Chapter 24, nós vimos, pela primeira vez, um Francis Underwood dominado quase que completamente pelo estresse e pelo medo. Mas, como o Vice-Presidente não lida com as banalidades do mundo, como eu e você, a razão de seu medo reside em uma coisa curiosa: falar a verdade. Nós poderíamos pensar como esse medo é estúpido, pequeno, frente a todos os problemas que ocorrem no mundo. No entanto, isso não passa pelas nossas mentes, porque conhecemos Frank, compactuamos com seus objetivos egocêntricos e falar a verdade é tão chocante e apreensivo para nós quanto para ele.
Dessa vez, acompanhamos o cerco fechando na narrativa da série. Depois de vários episódios em que eram orquestradas diversas tramas simultâneas, o caminho agora é o de afunilamento. Frank pode não estar diretamente envolvido em todas as peças que foram movimentadas, no entanto ele era o elemento no qual todas confluíam. O primeiro a flertar com o diabo foi Remy Danton. Quando seu relacionamento com Jackie Sharp foi iniciado, minhas expectativas eram de que isso fosse usado para suavizar a composição dura da Congressista. Ah, como me deixei enganar. House of Cards é implacável e o envolvimento dos dois foi somente o meio para o fim da derrocada de Danton fosse alcançado.
Ele, que chegou a representar uma ameaça ainda maior que Tusk em certos momentos, devido ao seu conhecimento prático do Modus Operandi de Underwood, deixou que Sharp mexesse com ele a ponto de ele tentar se enganar, acreditando ainda ser capaz de conseguir apólices de seguro, quando toda sua carreira profissional foi jogada fora no momento em que ele decidiu mentir para Tusk, ignorar o passado publicamente condenável da Congressista e recorrer ao ombro político de Frank. Sábias as palavras deste último: “O coração pode estrangular a mente, quando todo o sangue flui para dentro”, o que se enquadra exatamente na situação de Remy em processo de latente autodestruição por Jackie. E, nesse núcleo, o que permanece nebuloso é o futuro se Sharp. Apesar de ela tentar convencer Danton de que não teme o seu passado, na prática a realidade é diferente, uma vez que, se tem uma característica sua que foi marcante até aqui, foi a ambição política e, por esta, considero a Congressista capaz de tudo.
Claire continua pagando o preço do escândalo com Adam Galloway e sua causa em torno do projeto de lei sofre um forte abalo, com a retirada do apoio público e anunciado do Presidente e da Primeira Dama. Esse foi o plot mais incômodo do episódio. Não que tenha sido fraco ou deslocado. O desconforto foi causado pela incerteza do que estava acontecendo naquele universo com a presença de Megan. Quando Claire trouxe Hennessey para ser a cabeça de uma entrevista importante, eu fiquei receoso que ela pudesse perder o controle ou travar e manchar ainda mais as possibilidades do projeto. No entanto, os montadores Byron Smith e Cindy Mollo cortaram a cena da entrevista abruptamente (sábia decisão), levando à casa dos Underwood onde Megan aparece histérica demais, gerando um olhar de preocupação na Vice-Primeira Dama e incômodo em nós, o público, por não compreendermos o que aquilo, de fato, significava. Esse plot, cada vez mais, deixa indício de que não terminará bem.
Como de costume, Beau Willimon e John Mankiweicz fizeram opção por construírem o roteiro colocando as tensões militares entre Estados Unidos e China em segundo plano, enquanto o jogo político dos bastidores era o foco do episódio. Dessa forma, o que acompanhamos foi a ação da promotoria em atacar a Casa Branca e, dessa vez, o alvo foi Francis, que foi colocado contra a parede. Com isso, emergiu uma faceta do protagonista que não estamos acostumados a ver: o medo. As expressões de cansaço e apreensão dele dominaram por boa parte do episódio perante as articulações de Raymond Tusk usando Bob Birch para incriminar Stamper e levar seu chefe junto. E aí residiu o mérito maior do episódio: integrar Doug na trama de Underwood, impedindo que sua fascinação por Rachel prejudicasse seu desenvolvimento na história. Mesmo sem saber o objetivo final da jogada política de Frank com a entrega dos históricos de voos seu e de Walker, a certeza é de que a intenção era expor a Terapia de Casal dos Walker, costurando, assim, mais uma rima do roteiro, que veio sendo construída desde o início da temporada: o investimento dos Underwoods na vida pessoal de Garrett e Tricia.
E, se nosso casal protagonista já foi trazido à tona, não é possível ignorar a cena mais intensa de Chapter 14: o ménage à trois com Meechum. Isso pode ter pego muita gente de surpresa, no entanto, apesar de eu não ter a certeza de que isso iria parar na cama, a sedução do segurança foi iniciada há alguns episódios, quando Francis começou a chamá-lo de Edward, chamá-lo pra tomar uma cerveja ou não reagir ao ser flagrado vendo um vídeo pornô pelo rapaz (até hoje acredito que aquilo foi arquitetado e não um incidente do destino). Percebendo o estresse e a apreensão do marido, Claire concebe um plano de sedução final do segurança, que foi iniciado com a derrubada do copo, que gerou o corte na mão e a embriaguez de Meechum. Quando Frank chega em casa e flagra os dois bebendo, todo o universo reverenciou as atuações maravilhosas de Kevin Spacey e Robin Wright, que se comunicaram somente pelos olhos, mas nos permitiu entender tudo que estava sendo dito. Mas não só as atuações brilharam nesse momento: a direção e a trilha sonora construíram um cenário palatavelmente erótico, sexual e intenso. Prova disso? Minutos depois vemos Rachel e Lisa transando nuas na cama e o efeito não é sequer comparável com o do ménage.
Além disso, House of Cards se recusou a cair no lugar comum e entregar um ménage duas mulheres e um homem, que já foi bem manjado no mundo das séries. O fato de ser Meechum e não uma mulher já agrega mais intensidade à cena, além de costurar a sexualidade acinzentada de Underwood, cujo primeiro amor foi seu melhor amigo de colégio. Resultado disso: Underwood acorda bem humorado, relaxado e desfilando uma expressão totalmente oposta à que entregara na metade inicial do episódio. Parabéns, Claire, você conhece bem o seu marido e ainda conseguiu um amante para as horas vagas.
O que nos resta agora é saber qual será o resultado da descoberta das visitas ao terapeuta por parte do Presidente Walker e, quem sabe, a revelação dos verdadeiros objetivos de Frank nessa reta final da temporada.














![[Exclusivo] Serviço de streaming ‘Belas Artes à La Carte’ exibirá séries icônicas da BBC Studios](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2022/01/capa-2-218x150.jpg)
