Qual é a verdadeira ameaça?
A vida de um político é carregada de insinuações, acusações e declarações polêmicas. Se um profissional do ramo nunca foi alvo de nenhuma falácia ou de seu próprio passado, é razoável afirmar que este não está fazendo um bom trabalho. Evidentemente, isso tende a se potencializar quanto mais alto é o cargo de um político, e quando este chega ao executivo com poderes quase infindáveis, é natural que as coisas comecem a fugir do controle. Utilizando esse contexto de ameaças, House of Cards dá sequência nas tramas mais importantes da temporada de forma poética e sensível.
Escrito por Laura Eason e dirigido por James Foley, o episódio narra as horas que antecederiam à votação do pacote social defendido por Frank na Câmara. Para conseguir sucesso, o vice-presidente precisa utilizar suas habilidades como lobista para remover a diferença de votos, contando com a ajuda de Jackie e Remy. No entanto, é atrapalhado por uma ameaça de antraz enviada ao gabinete da líder dos Democratas. Por conta disso, a entrevista marcada para Frank e Claire para a entrevistadora Ashleigh Banfield (interpretada por ela mesma) acaba sendo concedida apenas pela esposa, que recebe algumas perigosas perguntas das quais não consegue se esquivar.
Todo o cenário do episódio é montado de forma sublime. Iniciando-se com uma típica atividade de Frank ao tentar ludibriar seus companheiros de partido para que votem a favor de seu projeto, House of Cards logo informa ao espectador de que este momento corriqueiro logo será substituído por algo incomum. Tudo começa com a ameaça de antraz. A expressão de choque da pobre recepcionista ao ser banhada por uma grande quantidade de pó branco dá o sinal de que uma quarentena seguida de intensa paranoia se seguiria, criando um enorme problema para o governo americano e para Frank.
Exceto pelo fato de que House of Cards utiliza a ameaça biológica como pretexto para criar verdadeiros problemas para o protagonista, em uma inversão de valores típica da política americana. Isso se pode comprovar já no primeiro diálogo entre Frank e Claire após o início da quarentena, em que os dois, aos risos, perdem as contas de quantas ameaças como essa já se passaram. O vice-presidente, aliás, chega a debochar da situação, revelando que um final feliz para aquilo seria se de fato ocorresse um ataque biológico para que não tivesse que encarar uma entrevista após ser derrotado na Câmara.
A partir desse momento, o episódio segue sua rotina ao mostrar os diálogos entre Frank e Donald Blythe como uma boa maneira de colocar o perigo em segundo plano. Desta vez, no entanto, vemos o vice-presidente fracassar em suas negociações, primeiramente utilizando uma abordagem lógica para depois apelar para o emocional. Nesse momento, é interessante como o espectador, já ciente dos meios utilizados por Underwood para conseguir o que quer, não se surpreende quando ele deliberadamente utiliza a esposa de Blythe, portadora de Alzheimer, como arma para conseguir o voto que precisa, provocando o evidente desgosto do congressista.
Por outro lado, Jackie, também ignorando o fato de o Capitólio estar em quarentena, é mais um exemplo de como os aliados de Frank costumam agir de forma cada vez mais incisiva e de acordo com os próprios interesses. No entanto, se Zoe era uma aliada facilmente influenciável, Jackie deixa claro que jamais agirá como seu padrinho político, ainda que se mostre igualmente inescrupulosa ao diminuir consideravelmente o nível para obter votos sem precisar de uma troca de favores, em uma cena que assusta até mesmo o sempre impassível Remy, acostumado a atuar exatamente do lado de Frank.
A outra ameaça que Frank sofre é Lucas. Note como House of Cards faz questão de tratar o jornalista como uma figura completamente diferente de Zoe. Sedento por justiça, ele revela uma afobação que sua falecida namorada não teria, se atirando em uma arriscada circunstância ao se envolver com uma pessoa que não conhece. Impressionado pelas habilidades do hacker, Lucas cairá facilmente nas presas do FBI antes mesmo de se aproximar da verdade sobre Frank, o que a cena final envolvendo o personagem busca demonstrar. É interessante como a série lida com a mesma trama de formas diferentes, jamais buscando tratar Lucas como uma mera versão de Zoe.
Por fim, a maior ameaça sofrida pelo vice-presidente está na entrevista concedida por Claire à CNN. Nesse aspecto, Foley faz um belo trabalho ao construir uma atmosfera de crescente tensão e urgência, que contrasta exatamente com o fato de a quarentena sofrer um tratamento diametralmente oposto. Adotando inicialmente planos mais abertos e gradativamente dando destaque a expressão fechada de Claire, o diretor é feliz ao imergir o espectador em vários minutos de agonia, que culminam no momento em que ela admite ter feito um aborto, para logo depois dizer a Connor ter feito outros dois, criando um cenário político quase apocalíptico.
Mas, como uma pessoa que convivera com Frank por tantos anos, Claire soube utilizar seu momento crítico a seu favor, trazendo o fato de ter sido estuprada pelo general McGinnis para conter os danos de sua declaração e ainda trazer a população americana para o seu lado, em um delicioso mecanismo de pista e recompensa que amplia o valor do que vemos alguns episódios antes. É curioso como nem mesmo Frank, em estado de visível apreensão e novamente se esquecendo do fato de estar com sua vida ameaçada e mais preocupado com o futuro de sua carreira política, é capaz de criar um plano tão mirabolante e preciso. Afinal, a única mentira contida na história é o fato de o estupro ter originado uma gravidez, mas McGinnis sequer saberia disso se fosse verdade. Novamente, House of Cards faz com que seus personagens criem artifícios para se safarem de uma situação sem despertar o desprezo do espectador. O que podemos comprovar pela aprovação de Connor ao saber que o estupro realmente aconteceu.
Dessa forma, House of Cards começa a dar corpo a uma trama importante para seus personagens, sem se esquecer de seus outros arcos. Se na primeira temporada víamos a série caminhar em apenas uma direção, aqui a vemos seguir por múltiplos caminhos sem perder absolutamente nada em qualidade.














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