Derrubando a primeira peça do jogo.

Spoilers Abaixo:

Poder é o velho edifício de pedra que se mantem em pé por séculos e Francis Underwood não respeita quem não sabe distinguir poder de dinheiro. Ele também alerta: “Escolher dinheiro ao invés de poder é um erro comum”. É enorme a clareza com que Frank expressa diretamente ao espectador as peças-chave em que consiste a trama. Através do poder, surgem os demais elementos que enlaçam os personagens ao protagonista: lealdade, admiração, inveja, confiança. O poder é a rainha deste tabuleiro, podendo nos levar a muitas direções.

O primeiro fruto das ações de Frank amadurece, porém ele sabe que o fruto não será colhido sem esforço. A confiança que ele ganhou pela parte do presidente a partir de sua “ajuda” ao projeto de lei para a educação deve ser bem mantida com os seus ótimos diálogos que acabam por manipular seus alvos, conseguindo até fazer Donald Blythe duvidar de sua competência para o cargo que ocupa. Frank entende como poucos como se utilizar do poder que possui.

Enquanto demonstra esforço para derrubar o castelo do novo presidente, em casa Frank se depara a um simples desafio (porém comum para nós, reles mortais): exercitar-se. Entendo a partir do momento final, em que ele está usando o aparelho de remo comprado por sua mulher, que Frank tornou-se acostumado a fazer coisas grandiosas, não só devido ao seu cargo, mas devido ao poder que exerce sobre as pessoas, porém encontra algumas tarefas que mais lhe parecem perda de tempo ou que se nega a fazer, como o próprio diz “por questão de princípios”, e que talvez necessitem de um maior exercício de poder sobre si próprio. Claire, por sua vez, lembra o marido de cuidar-se mais, como se Frank devesse preparar-se a uma guerra ou que o plano não se trata de focar apenas em seus adversários.

Claire traz tanto equilíbrio aos diálogos do marido, não se limitando a ser apenas a mulher por trás do homem, mas sustentando bem a trama que lhe é oferecida. Ela apoia o marido, mas o questiona, desafia, aconselha, sem cair no lugar-comum de mulher do protagonista. Ao contrário do marido, Claire não lida com pessoas importantes, mas com pessoas em trabalhos comuns, porém assim como ele, também aposta alto em suas escolhas e seus planos com a instituição. Eu me pergunto se tais ações de Claire não podem afetar, mais adiante,  o marido no avanço de seu plano, ou pelo menos a relação entre os dois.

Quando a pouca experiência de Zoe Barnes (incluindo a própria atriz Kate Mara) encontra a bagagem de Kevin Spacey e seu personagem, a beleza do contraste da cena encanta. Mesmo nos encontros à penumbra, não deixamos de captar toda a sede da jovem jornalista pela sabedoria do deputado. Nenhuma das pistas não-materiais é cedida à Zoe de mãos beijadas, Frank também requer que ela pense, deduza e até arrisque-se, tendo, por exemplo, de confiar num antigo jornal a fim de poder atingir de alguma forma o então secretário de Estado, Michael Kern.

A progressão da imersão de Zoe no plano de Frank a torna mais apurada ao perceber sua importância a ele e o poder que está recebendo diante da confiança que está ganhando através de seu trabalho. Só espero que ela aprenda com Frank a como manejar este reconhecimento todo.

O poder é uma relação que existe desde a aurora do homem, mesmo nas demais espécies animais que constituem bando ou sociedade vemos um reflexo de nossa definição de poder. Sendo assim, restam muitas opções para um homem sem dinheiro, mas poucas para um que não possui poder, muitas vezes nem sobre si próprio, a série exemplifica isso através de Russo. Creio que além do poder, outras peças de relevada importância, não só a este episódio como à série toda, são os segredos. Muitos destes segredos vêm a ser personagens de destaque, com certas características, certo humor, podendo sumir ou logo surgir na tela.

Os cenários induzem uma ambientação primorosa às cenas. A fotografia flui bem entre os ambientes quentes e frios, sendo usado sabiamente de acordo com o clima proposto. Até este episódio, House Of Cards continua acertando em toda sua combinação de técnicas, aproximando bastante a produção às obras cinematográficas de David Fincher. A quebra da quarta parede nos envolve tanto com a história que nos faz sentirmos confidentes de Frank, como se estivéssemos sentados ao seu lado enquanto ele nos dirige seu olhar, colocando-nos em meio a uma conspiração contra o presidente dos Estados Unidos, indecisos se o próximo passo poderá ou não surtir o efeito desejado.

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