O estranho momento em que Homeland injeta adrenalina da pior qualidade nos episódios Casus Belli e The Return, durante uma temporada que precisa loucamente de qualquer dose dela.
Aqui estamos naquele ponto da sexta temporada de Homeland que todos já sabemos que estava por vir: depois de alguns episódios de preparação, a trama sempre dá uma virada brusca que revela conspirações ou intensifica os conflitos. Esse salto de tensões era esperadíssimo esse ano porque vinhamos de um planejamento evidentemente preocupado em não exagerar as cores, errando apenas na subtrama de Quinn, que parecia totalmente descontextualizada do restante. Embora elegante, esse planejamento ficava devendo em ação e o público do show sempre espera alguma boa dose de suspense.
Terminamos o episódio A Flash of Light com um bom caminho a seguir. O governo americano – na figura de Dar Adal – planejou um embuste que colocava um jovem simpatizante das ideologias islâmicas como bode expiatório de uma conspiração que pretendia reforçar a relevância dos métodos antiterrorismo desse próprio governo. A presidente eleita queria tentar novas abordagens e homens como Dar não gostam de perder importância. O povo paga o pato, porque para manter o conflito aceso, ataques podem ser forjados. É uma ideia extremamente interessante, eficiente e que joga os personagens num ótimo alcance de tensões.
Casus Belli foi um episódio que já no seu título era promissor. A expressão latina é usada para exemplificar um fato consideravelmente grave pelo Estado ofendido, a ponto de declarar guerra ao Estado ofensor. Ou seja: os EUA estariam considerando o ataque nas ruas de NY um ato suficientemente hediondo para que a guerra ao terror voltasse a ser uma questão midiática. A América precisava ter seu ódio pelo Oriente Médio bastante reforçado, para que os métodos obscuros da inteligência do país não fossem questionados pelo novo governo. Pensem bem nesse contexto… É realmente forte e inspirador. Muito mesmo. Mas, tinha um Quinn no meio do caminho…
Foi bastante estranho. Ao mesmo tempo em que não poderei dizer jamais que esse foi um bom episódio, jamais poderei dizer que ele foi ruim. Toda a forma como a presidente eleita foi minuciosamente isolada e desmoralizada me pareceu completamente correto e coerente. Mas, o que são os aspectos positivos diante daquele circo promovido por Quinn, que deve ter sido, sem dúvida, uma das coisas mais sem pé nem cabeça que a série já fez? Quer dizer que agora Quinn ficou burro? Ele precisa “proteger” Frannie e faz isso jogando uma repórter pelas escadas, atirando num manifestante, pegando um policial como refém, atraindo todo tipo de atenção negativa e fazendo daquela casa tudo, menos um lugar “seguro”. Essa história doida estava lá, sendo conduzida com ares de plena segurança, mas a cada minuto em que eu parava para pensar no exagero daquilo tudo, eu só me sentia mais e mais indignado. Contudo, era ação, era tensão, era algo de intenso acontecendo. Ridículo, mas intenso.
Até que deram um jeito de encaixar Quinn na trama principal, mas pelo amor de Deus, que personagem irritante. E imortal, porque quando a equipe de choque invadiu a casa de Carrie, outra boa oportunidade de se livrar dele foi perdida. Temos lá a coisa toda no final de The Return, com a aparição de Astrid, que parece outro esforço para dar importância ao sujeito. Mas, se Quinn já parecia perdido para mim, depois do episódio 5 ele merece o completo vazio de sua existência fictícia. Já sabemos que Carrie dedicar seu tempo a homens problemáticos não faz bem para a vida útil do show.

Por conta disso, ando mais feliz com a ótima trama da presidente eleita. Me pergunto ainda se aquelas pessoas todas continuariam a desobedecer às ordens dela caso acontecesse na vida real, mas, acho que a culpa de ter demorado tanto foi exatamente da mesma. Gosto muito de como Keane representa uma nova possibilidade de perspectiva política diante do terrorismo e de como Dar Adal luta para impedir que isso aconteça. Essas são intrigas que considero muito próximas da realidade e que podem trazer grandes discussões para o show. Ver a presidente sendo forçada a reconsiderar seus idealismos, ver como imprensa e população pressionam para reforçar velhos hábitos, ver como mais importante que a paz é o controle… Todos tópicos que podem tornar Homeland irrepreensível.
The Return foi um bom episódio que de novo tomou algumas medidas estranhas. Nem vou falar de Quinn porque aquela conversa toda com Carrie foi lamentável, o homem vai passando de esperto para burro a cada 15 minutos de episódio. E não, seu trauma não é justificativa para tudo. A série lança mão de sua sanidade ou loucura como bem lhe confere, como fez muitas vezes com Carrie e alguns de nós temos uma notória tendência em acreditar em personagens que surtam. Os surtos de Quinn, entretanto, não tem sentido e são frágeis de uma perspectiva dramatúrgica (e eu disse que não ia falar dele).
Ray acabou se revelando um personagem interessante que infelizmente disse adeus sem dizer a que vinha direito. Ele tinha uma ótima química com Carrie. Sua entrada naquele lugar, sua busca por evidências, tudo bastante estranho. Não sei dizer de onde vem exatamente essa sensação de estranheza, mas ela existe. Volto a dizer que não foi um episódio bom, mas que Homeland tem conseguido uma espécie de ambivalência de impressões. Casus Belli e The Return foram os melhores episódios dessa temporada, mas são também os piores episódios dessa temporada. Melhores do ponto de vista catártico: eles prenderam, surpreenderam. Ruins na sua carpintaria: tudo que diz respeito a Quinn é errado do começo ao fim.
Em suma, ideologicamente falando, esse sexto ano foi para uma direção muito interessante. Tenho muita vontade de ver como essa guerra fria entre Dar e Keane (representantes do velho e do novo método) vai se desenvolver e torço para que os efeitos dela se reflitam no futuro do show de uma forma sócio-política mesmo. Também acho que eles têm acertado com Carrie e vê-la lutando para apontar essa conspiração é delicioso. Mas, o câncer chamado Quinn deturpa o que o show tem de bom, já que vive no seu eterno movimento de encontrar maneiras de inserir-se no centro. Enquanto episódios “ruins” estiverem sendo produzidos com a irresistível máscara do “bom”, estamos seguros. Homeland precisa aparar suas arestas e precisa fazer isso logo. Há muito pouco do que ela já foi um dia no que vemos no ar há alguns anos.
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NOTA: Andei atrasando as reviews de Homeland por causa de trabalho, carnaval… Mas, vai tudo voltar ao normal gente. Promisse.
















