Wake em inglês significa velório, mas também é a conjugação do verbo despertar, acordar. É com um título esperto que brinca com uma dubiedade inteligente que “Here and Now” vai se aproximando do seu final de temporada. Após o conflito geral que se assomou das semanais e progressivas pequenas fatias de pressão, finalmente os personagens começam a despertar, a acordar para a estranheza e crueldade da vida cotidiana em que estão inseridos. Contudo, alguns ainda tentam continuar em sonho, mesmo que estes sejam na verdade pesadelos.
Allan Ball surpreende mais uma vez. Ele gastou cinco episódios para nos apresentar os pormenores da família protagonista ao mesmo tempo que ia jogando pistas discretas sobre o que realmente queria tratar: os EUA pós eleição de Trump. Acompanhamos pelas notícias (falsas e verdadeiras) a polarização em opostos da sociedade americana e o crescimento de comportamentos que antes eram escondidos em residências e elites e que agora tomavam as ruas e as redes sociais. Marchas nazistas, violência policial contra negros, “Make America Great Again“, o muro na fronteira com o México… Cada vez mais e mais absurdos iam tomando as manchetes e ganhando destaque ao ponto de eleger quem elegeu. Então quando assistimos o que Duc, Ashley e Navid passam nesse episódio vemos somente o que já está escancarado na realidade: o preconceito brutal que dia após dia vai virando norma disfarçado como opinião. Claro que a série não demonstra isso tão abertamente quanto a realidade, ela vai se usando de imagens e metáforas para criticar alguém que provavelmente não assistiria o show caso o conteúdo fosse totalmente explícito.
Duc pode se esconder por trás da fachada de sucesso e celibato, mas é na verdade uma das maiores vítimas da série. O pai não consegue criar uma relação verdadeira porque ainda tem um resquício, uma transferência de trauma do irmão na figura do filho. O filho por sua vez tem o mesmo sentimento pela mãe biológica, principalmente quando se sente somente um pedaço de carne, um objeto de desejo fútil e passageiro (a sequência do banheiro da academia foi o auge do misto nojo/hilariante). Os dois traumas dos personagens se chocam quando Duc descobre a traição do pai com uma prostituta asiática. A colite é somente um sintoma físico de um dano psicológico muito mais danoso. E assim como Ashley ele finalmente começa a assumir sua herança cultural, explodindo com razão contra os amigos babacas.

Falando em Ashley, nesse caminho de descoberta tardia, ela começa a se espelhar em figuras que antes não possuía. Então quando ela visita a mãe da amiga no hospital é também uma transferência de afeto que ela nunca obteve com a mãe original. E como previsto na review passada, esse despertar começa a colocar a relação dela com Malcolm no caminho do término. Audrey vai reacendendo uma relação do passado e colocando em prática seu plano de trazer a conversação como resolução de conflito a mais escolas. O grande problema é que a leniência dela começou uma onda de ódio que atinge as duas filhas e Kristen, junto de Navid, são as primeiras vítimas diretas.

Se o resto dos personagens tem um despertar metafórico, Ramon e Farid têm um despertar real acerca da conexão entre os dois. O doutor finalmente abriu o jogo e contou dos próprios sonhos e sinais. Há uma troca de sonhos, cada um sonhando com a mãe do outro, e informações que não parece mais natural. Aqui os contornos das visões ganham cada vez mais força no sobrenatural e no fantástico e começa a fugir da esfera do psicológico. Principalmente porque Ramon já possuía a conexão com o número 11:11 e as borboletas e outras peças imagética de suas alucinações. O seu jogo também começa a dar indícios de que algo externo age dentro dos pixels e arquitetura de dados. Os vultos em chamas que surgem do nada e não fazem parte da programação é só a ponta do iceberg. E a visão final com as pessoas com máscaras e cobertas de cinzas só aumenta o agouro de que uma tragédia em larga escala está para acontecer.
Entre profecias e preconceito. Entre traumas do passado e verdades escondidas. A série vai construindo uma crítica social tão forte e atual que ganha contornos cautelares, como um conto de fadas adulto com uma moral da história calcada numa realidade que não gostaríamos de estar vivendo. Até a próxima semana!
11:11 : O tio esquizofrênico da família finalmente deu as caras e parece ser uma peça importante dessa reta final;
11:12 : Acho que assim como muitas pessoas, eu comprei o “bom mocismo” de Michael. Ri demais da cara do Greg quando ele descobre que o professor assistente era um babaca de marca maior;
11:13 : Ri também do Greg jogando o game de realidade virtual.
















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