A belíssima última refeição.
Em vários atos orquestrados como em uma das óperas tão amadas por Hannibal Lecter, o gran finale foi poético, intenso e muito mais do que poderia se imaginar quando se trata do canibal mais carismático, inteligente e perigoso da literatura. A transformação do dragão não foi a única, ninguém ficou intacto depois da devastadora presença de Dr. Lecter em suas vidas. Will quem o diga.
Was it good to see me?”
– Hannibal
A conclusão da história do Red Dragon finalmente liga-se totalmente com o restante da trama, onde nada passa sem a cautela e a cuidadosa montagem que a série manteve do primeiro ao último episódio. Francis Dolarhyde não é apenas um ser humano insano, o instinto falava mais alto mesmo que no fim tenha sido superado. O dragão não conseguiu se transformar, o homem se sobrepôs e conseguiu dominar o feio e obscuro que havia dentro dele. Ou quase isso.
A diferença entre o Tooth Fairy e o Chesapeake Ripper não poderia ser mais gritante, Francis não era nenhum idiota, mas seu impacto foi mais violento do que qualquer coisa. Reba foi mais uma vítima de sua transição e a provação dela foi considerável, ainda mais quando leva-se em conta o pavor pelo fogo que a personagem tem. Forjar o suicídio foi uma tentativa apressada pra ganhar mais tempo, Francis ia ser pego e se ele tivesse usado um pouco mais que uma garota cega pra enganar o FBI talvez tudo tivesse sido diferente. E ainda bem que não foi.
Usando a pequena artimanha do suicídio, Bryan conseguiu até enganar por um breve momento, como se o arco do Red Dragon tivesse se encerrado daquela forma. No entanto, em Hannibal o tempo é como uma xícara que se quebra e enquanto nada pode alterar isso, os fragmentos são prudentemente espalhados para serem encaixados no exato centímetro. O breve encontro de Francis e Will foi interessante, porém a abordagem do Francis feita dessa forma foi um mero movimento do jogo entre o dragão e o estripador. Will só foi o meio para o movimento final, o cheque-mate.
Will dissimular não saber das intenções de Dolarhyde levantou certas questões sobre as próprias. O breve encontro com Francis teve um diálogo curioso, o sentimento de traição do Will era bem diferente do de Dolarhyde e mesmo assim compartilharam naquele momento o mesmo sentimento por Hannibal. As engrenagens na mente do Will começaram a se contrapor, de um lado o agente da lei sabe o que é o certo a ser feito, mas o inimigo por dentro – como Hannibal bem colocou – quer preservar o que tem com o Dr. Lecter, quer saber como é ser livre e relaxar consigo mesmo. No entanto, libertar esse lado é sem volta.
Bedelia foi a mais sensata no episódio, é bastante equivocado pensar que Hannibal pode ser controlado em semi liberdade. O quote que ela usou pra definir o Dr. Lecter em confinamento foi perfeito, o risco não valia a pena. O charme, a erudição e o homem cativante por trás do canibal antropológico é mágico, é extremamente perigoso; Mads manteve todas as características do Hannibal Lecter ideal e ninguém interpretou o personagem como ele o fez durante esses três curtos anos. Foi a perfeição, o casting da série inteira foi assim, mas com Mads foi algo ainda mais elevado.
O plano de mestre de Will Graham não passava de falho e todos viram isso, entretanto nem ele mesmo entendeu a tentação e complicação que seria ficar perto demais de Hannibal novamente. É engraçado tentar superar o mestre da manipulação e ainda tentar esconder cada pedaço de pensamento que surgiu frente a ele, Hannibal simplesmente sabe prever o que ninguém consegue nem mesmo ter certeza e esse brilhantismo dele caminhou na série desde o pilot; não seria agora que Will estaria certo e Dr. Lecter errado.
O relacionamento de Graham e Lecter só pode ser definido como uma simbiose, é de natureza irrefutável, é impossível de rotular. É muito mais do que algo sexual ou romântico poderia proporcionar, muito mais que uma amizade fraternal ou até mesmo o ódio que consome alguém em uma vingança. A construção desse laço foi maravilhosa, imperdível e é absolutamente uma obra-prima. É único.
A erosão do penhasco ainda continua, o paralelo foi poético. Enquanto muitos se foram, inclusive a terra, Abigail, Miriam Lass e outros, Hannibal stands. Diversas pessoas já tentaram parar o il Monstro, o Chesapeake Ripper e falharam, não seria o Red Dragon suficiente pra isso também. O ataque de Dolarhyde foi intenso, badass e levou um planejamento muito pobre e execução pífia pra uma das sequências mais esperadas em toda a série; foi bem de acordo com a psicologia do personagem. Will agir para defender Hannibal e vice-versa já foi totalmente emocionante, do momento em que ele leva uma facada no rosto ao que Hannibal tenta quebrar o pescoço do predador.
E quando eles matam Dolarhyde juntos, em estonteante sincronia que percebe-se a singularidade e profundidade do que Will Graham e Hannibal Lecter são e significam um para o outro; o sangue envolta do Francis formando as asas do dragão foi incrível, muito esperto como sempre. Foi lindo, não há como negar, uma grande masterpiece digna e a altura do que a série foi. Foi simplesmente perfeito, belo e não tem como mudar nada. Encerrar sem muitas palavras e com os olhares entre Hannibal e Will, todo o amor e os sentimentos, a ligação entre eles foi como cair no abismo com eles no mar infinito.
It’s beautiful”
– Will
Com roteiros brilhantes, personagens encantadores e extraordinários, essa conclusão é a evidência inegável de que Hannibal foi uma experiência marcante e magnífica. Opiniões podem mudam, mas a série foi a melhor produção que a TV aberta já apresentou e seu fim é lamentável, triste é injusto até. O excelente desfecho que esse series finale deu aos Fannibals foi um consolo enorme, a beleza da última cena vai marcar muito qualquer fã da série e por muito tempo. É a despedida, mas pelo menos o estripador e seu cordeiro continuam unidos como nunca. Eternos.
Eat the Rude 1: You play, you pay e Dr. Du Maurier foi a que mais brincou com o predador. A cena pós-créditos foi excelente pra ativar a imaginação do que aconteceu depois da queda no penhasco, brincar com a mesa posta para três foi empolgante.
Eat the Rude 2: foi irônico Jack, sendo um agente da lei, dizer abertamente e objetivamente que deviam matar Hannibal e Dolarhyde. Esse é o ser que se acha tão superior ao Dr. Lecter.
Eat the Rude 3: as transições de cena, a representação da imaginação e todo os efeitos foram absolutamente lindos, deixaram a experiência mais maravilhosa ainda.
Eat the Rude 4: Alana que foi muito mais esperta, fugir é a única escolha correta.
Eat the Rude 5: a conexão entre Hugh e Mads na cena final foi extrema, não tinha como não sentir junto com eles.















