June e o universo de Gilead nos relembrando que o perigo mora nos pequenos detalhes.
A violência simbólica de The Handmaid’s Tale não se concentra somente numa só personagem, narrativa ou capítulo. Ela corre por entre as cenas que martelam incessantemente uma realidade palpável e infelizmente presente. Se arrepiar com os olhos marejados de Elizabeth Moss enquanto é torturada fisicamente/psicologicamente, é sentir na pele a violência que tantas mulheres sofrem diariamente. A série veio com uma intenção além do simples “alertar/amedrontar” o público, ela veio mostrar que a desigualdade de poder só existe porque os pequenos ‘detalhes’ nos passam quase que despercebidos e vão se acumulando numa espécie de aceitação dos ‘grupos dominados’ (mulheres, gays, lésbicas…), não sendo exatamente uma permissão concedida conscientemente. O perigo mora nestes detalhes, o mesmo perigo que matou Marielle Franco e continua crescendo na cabeça de milhares de conservadores (em sua grande maioria religiosos) que constroem um universo de medo e discriminação.
Tudo começa pelo forma como somos identificados em sociedade, o que nos separa por tratamento, condição social entre outros valores. Basta observar a mais antiga instituição imposta no sistema patriarcal conhecido como ‘casamento’. No altar a noiva é conduzida pelo pai, entregue ao noivo que depois de trocarem votos acabam adicionando (geralmente) o sobrenome do – agora – marido à esposa. Nosso nome é o elemento mais tradicional para identificação e seleção social que temos, e por consequência também acaba sendo um dos mais importantes meios para qualquer tipo de doutrinação. Nesse primeiro episódio da segunda temporada, a série resolveu nos relembrar que June – a protagonista – teve seu nome apagado aos poucos (no meio de tantos outros pequenos detalhes) até chegar ao tenebroso ‘Offred’ (De Fred em inglês) em Gilead.
![The Handmaid’s Tale 2x01/02: June/Unwomen [Season Premiere] The Handmaid’s Tale 2x01/02: June/Unwomen [Season Premiere]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2018/04/image2.jpg)
O prólogo silencioso com as Servas sendo conduzidas numa espécie de matadouro, foi absurdamente incrível. As expressões, o horror e toda a concentração artística em torno desta introdução deixou o início dessa nova etapa mais poético do que estávamos acostumados e mais sarcástico também. Logo depois temos um embate entre Moss (June) e Dowd (Tia Lydia). As duas trabalham muito bem juntas e com uma atuação tão acurada que chega a arrepiar apenas com um olhar ou uma simples frase do tipo ‘Não estou com fome’. Outra particularidade é que nessa temporada os flashbacks estão dando a impressão de estarem ‘costurando’ ainda mais a narrativa para mostrar o crescimento dessa violência em torno das personagens, o que faz deles cada vez mais essenciais dentro do roteiro. June é interrogada pela enfermeira, que insiste em chamá-la pelo nome do marido, que demanda ser chamada e reconhecida por June, ela tem sua maternidade questionada. sendo coagida a ‘tomar mais cuidado com suas prioridades quanto mãe’… e por aí vai.
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Os pequenos detalhes também visitaram a vida de Emily. A partir dos seus olhos conseguimos compreender como funcionam as colônias, lugares devastados pela natureza que remetem (e muito) aos antigos campos de concentração nazistas. No romance de Margaret Atwood não há muita informação sobre estes recintos, mas na série a impressão é que teremos mais oportunidades para descobrir o lado mais obscuro desse universo.
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Outra performance que surpreendeu foi a de Marisa Tomei, interpretando o papel de uma ex-esposa de um Comandante. Foi um acerto dentro do que o episódio se propôs a discutir, revelando que até mesmo as mais convictas religiosas continuam sendo vítimas e acabam sucumbindo nesse mundo estando quase sempre (ou sempre) sozinhas.
Em síntese, foi uma poderosa re-introdução ao universo de Gilead. Os plots principais foram apresentados, com alguns detalhes a serem resolvidos mas de uma forma suprema e categórica. Foi um início mais sombrio, sublime, bucólico e sórdido do que estávamos acostumados a lidar. E com toda a certeza, mais chocante. The Handmaid’s Tale voltou elevando a missão de ‘fazer televisão’ (junto com alguns Emmys no bolso) e não somente ‘refazer’ o que já temos visto. É uma série que está inaugurando uma nova espécie de narrativa, que preza mais pela claustrofobia porém ilumina seus personagens com uma crítica elevada e vigente. Um belo retorno para uma das melhores séries atualmente! Que saibamos aproveitar obras primas como essa para nos atentar aos pequenos detalhes, e com isso fugir do perigo que assombra tantas pessoas ao redor do mundo. Um perigo que não promete cessar tão cedo…
PS1: A cena do ultrassom marcou o também retorno da magistral Yvonne Strahovski (Serena Joy), que promete ser a grande antagonista da série. Foram poucos minutos mas já deu pra sentir o quanto Serena cresceu e (continua crescendo) quanto personagem. Atuação brilhante!
PS2: Apesar disso acredito que essa cena não funcionou bem dentro do roteiro. Foi uma bela desculpa para colocar June na sua rota de fuga. Poderia ter sido feita de uma forma mais orgânica e não tão clichê…
PS3: Alguns elementos do livro que ainda não foram explorados, foram prometidos nessa nova temporada. Se você já leu e sabe do que estou falando, contenha os spoilers nos comentários.
> 3% (SÉRIE NETFLIX) SEGUNDA TEMPORADA, É BOA?
PS4: Acredito que teremos mais de Samira Wiley (Moira) nos próximos episódios. Quero muito ver o que aconteceu com ela após o reencontro com Luke.
PS5: Finalmente retornei ao Série Maníacos, foi uma grande espera até o retorno mas cá estou! Aguardei com bastante apreensão estes episódios iniciais e felizmente não me decepcionei nem por 1 minuto. Para quem me acompanha estarei retornando com os textos de Big Little Lies no próximo semestre e na adaptação recente de Objetos Cortantes! Aguardo vocês lá também! o/
















