Dentro do universo filosófico da liberdade, existe um termo maravilhoso que condiz muito com a narrativa de The Handmaid’s Tale, o chamado auto-domínio. Esta habilidade possibilita o controle sobre a única coisa que realmente importa na sua vida: você mesmo. Os que não possuem domínio sobre si mesmo geralmente se deixam levar pelo domínio dos outros. Esse princípio de auto-domínio significa que você é dono (primordial) da sua vida e faz o que desejar com ela. Ir contra isso é dizer que outra pessoa possui total controle sobre suas decisões – perdendo a capacidade de criar “propriedades” – que são partes da natureza que você toma como responsabilidade. Offred, por exemplo, é a que mais precisa lidar com a ideia de que se tornou (aos olhos da sociedade) uma propriedade do governo. Em outras palavras, ela precisa sobreviver num sistema em que sua liberdade está simplesmente na mão de outros. Mas no quarto episódio ela ganha um belíssimo presente: a lembrança de que possui um auto-domínio.
“Nolite Te Bastardes Carborundorum” colocou as personagens secundárias um pouco de lado pra focar em Offred em sua luta para ganhar uma pequena vitória contra os Waterfords e o seu passado com Moira no Centro Vermelho. Ambos cenários focam no mesmo tema: a importância de enviar mensagens de auto-domínio dentro de uma rebelião. Os assuntos que envolvem tanto presente quanto o passado de Offred são todos ótimos exemplos de como pequenas “ajudas” são necessárias para obter avanços na obtenção de um equilíbrio emocional. Afinal, nossas emoções são essenciais para conseguir compreender em que estado mental estamos.

Mas não é somente o auto-domínio que percorre a narrativa deste novo capítulo. Offred enfrentou os riscos calculados de sobrevivência, aprendeu sobre confiança naqueles que consegue desejam a liberdade e reconheceu o poder simbólico da solidariedade. Os flashbacks desse episódios revelaram que Moira e Offred conseguiram alcançar uma fatia de liberdade para escapar do sistema “a força”, mas acabam falhando por pouco. Moira consegue escapar, enquanto que Offred assiste sua amiga com o amor de quem precisa sacrificar a si mesma para salvar a colega. June/Offred alcançar um pedaço da sonhada liberdade, mas em benefício de Moira ela “domina” sua mente contra o impulso de se ver liberta.
No presente, o fantasma da antiga Offred é o que salva June de uma possível derrota contra si mesma. Ela usa aquela frase em latim de quatro palavras para extrair a vitória que tanto precisava pra manter uma sanidade e relembrar que o seu auto-controle pode ajudá-la também a controlar os outros. “Não deixem os idiotas te desanimarem” pode soar bem simples, mas é o exato mantra que ela precisava para se fortalecer e dominar as circunstâncias que reduziram sua liberdade.
Em vários momentos Elisabeth Moss entregou um banho de atuação sobre se portar no equilíbrio entre rebeldia e obediência. Sua personagem está sendo desafiada constantemente por homens/mulheres que a visualizam como um simples objeto de decoração, e que as vezes recordam que na realidade existe (ou existia) uma vida naquele corpo. A “tragédia” que o Comandante assinala é um forte exemplo dessa luta. Ela percebe que possui uma linha de manipulação pontual neste jogo social e faz do seu auto-domínio um total controle, mesmo que ínfimo.

Quase todos os “jogadores” de Gilead possuem seus desejos dentro dessa falta de liberdade, mas nem todos percebem que podem ser as peças-chave para alcançar este sonho perdido. O médico com sua habilidade de ser um “bom ouvinte”, Nick e o desejo de fugir com June para longe de tudo e Frederick Waterford e seu dever como Comandante. Ele pode ser a maior representação de poder na própria casa, mas a sua função de “multiplicar” a humanidade está em perigo e Offred pode ser a sua porta de saída para continuar sobrevivendo no esquema religioso que domina o país. Ele – assim como ela – também está preso na imagem que o Governo o impõe. Offred, nesse sentido, calcula muito bem suas palavras para dominar a única área que pode ser o caminho para uma possível vantagem. E que vantagem!
O final desse episódio foi o primeiro momento da série que uma “notícia boa” foi servida no meio de tantas atrocidades. A trilha-sonora gloriosa que acompanha as aias caminhando pelas ruas, junto com o olhar convicto de Offred é a representação de como o auto-domínio é importante para alimentar uma rebelião. Foi uma ótima lembrança de que há esperança quando as pessoas se unem para entregar algo além de um silêncio tímido. Falhas e sucessos são essenciais para aprender a evoluir individualmente. E uma sociedade livre só é possível quando existe uma liberdade para pensar, falar e agir a da forma que preferir. Falta muito para Offred reconquistar esta liberdade, mas agora ela está ciente de que perder o controle da sua vida a esta altura, significa perder o seu futuro.
PS1: Yvonne Strahovski está impecável como Serena Joy, a mulher do Comandante. Mal posso esperar para conhecer um pouco mais sobre essa personagem enigmática.
PS2: Gilead possui uma cultura de olho-por-olho bem literal. Se Offred utiliza seus pés para fugir do Centro Vermelho, então eles que serão chicoteados até sangrarem.
PS3: Temos uma segunda temporada garantida! Nada mais justo para uma estreia surpreendente como essa.















