Ninguém faz mais amigos que a Necessidade.

Quando nós só temos como contar com uma pessoa, acredite, nós nos acostumamos a ela. Não importa o quão oposto sejamos da pessoa. Claro que a mudança (do não se importar para a empatia) acontece em épocas diferentes para pessoas diferentes. Algumas precisam de um susto; precisam da solidão batendo à porta. É o caso de Grace. Não é surpresa para ninguém, creio eu. A partir do primeiro momento que a conhecemos, sabemos que ela é esse tipo de pessoa. Seu orgulho e arrogância falam mais alto, mas transparecem apenas quando há alguém por perto. Afinal, só é possível ser arrogante quando há alguém ao redor. E é quando a vida decide lhe dar uma lição sutil por seu comportamento egocêntrico que ela repensa as atitudes e percebe que está destratando a única pessoa que ainda pode lhe servir de companhia — uma atitude nada esperta. Grace não quer ficar sozinha e deve aprender com as regras de convivência que regem todos fora de seu mundinho como se portar adequadamente com visitas em casa. Mas, para aprender tudo isso, ela precisa de um surto, de uma queda, de quase morrer… Isso tudo na cabeça dela, nessa fantástica brincadeira que o quinto episódio da comédia da Netflix apresenta.

Você já delirou com uma hipótese do seu cotidiano? O que aconteceria se certa coisa tivesse acontecido? Qual a consequência de tal ato se o acaso me proporcionasse tal oportunidade? É pensando nas probabilidades que o roteiro se propõe a fazer uma pegadinha com os telespectadores e nos sugere refletir sobre o fato. Nada é muito óbvio (pelo menos para mim não foi), e a descoberta da ilusão só se dá quando a revelação acontece. Talvez usar o “foi um sonho” como artifício seja apenas uma medida desesperada para tentar amarrar seu roteiro mais mirabolante, mas as nossas gargalhadas nos pedem que perdoemos esses deslizes. Olhando artificialmente, temos uma trama que não avançou em nada na situação das duas parceiras, mas, ao olhar mais atento, percebemos que esse episódio serviu para uma coisa que a série está fazendo sutilmente desde o começo: aproximá-las. Mas não seria essa série se não houvesse um exagero enorme na condução dessa aceitação mútua.

Uma coisa que a série faz muito bem é trazer tramas que poderiam ser trabalhadas da forma mais óbvia possível e desenvolvê-las de modo surpreendente. Tudo que envolvia Grace marcando encontros pela internet, por exemplo, poderia ter ido pelo caminho mais fácil, com encontros bizarros e indagações sobre um romance precoce. The Fall, entretanto, já nos mostra que a produção está atenta a isso. Além disso, a bagunça que o episódio se transforma (com piadas constrangedoras envolvendo assopros) é uma prova de que o texto sabe brincar consigo, sabe romper a realidade da própria série para seu proveito.

Aquela minha preocupação sobre personagens secundárias provou seu ponto mais uma vez: Brianna é uma ótima personagem para servir de apoio, e a série deve valorizar isso. A busca por desprendê-la e incrementar o enredo com subtramas para lhe dar mais espaço é um esforço tolo. Aqui ela funciona muito bem, sendo o alívio cômico para a tragédia alheia. Ela serve como um espelho para tirar sarro de Grace — isso porque Frankie já é profissional nisso, tira sarro de si mesma. O elogiável dela (a atriz é discutível) é a forma como a narrativa das cenas tenta dar contraste com sua personalidade, e não colocá-la como foco imediato quando suas aparições são feitas. Saber dosar o tom é uma característica que faz Grace and Frankie funcionar bem.

A única preocupação que eu tenho é todo esse protagonismo que eu vejo direcionado a Grace desde o Piloto. Ele não fica tão evidente, mas, em certos momentos, sinto em Frankie somente sua companhia, sem a exploração que merece. Lembrando que estar em cena não significa muita coisa quando se é negligenciado pelo roteiro. Não acho que Frankie precise ser usada somente como alguém para ponderar os acessos de egocentrismo de Grace. Ela precisa ser tão bem trabalhada quanto a outra. Não sei se a série pensou nisso para formular sua primeira temporada, mas é uma questão a ser levantada. Tomo como exemplo esse episódio, mas pode ser que no próximo a situação seja inversa e haja um equilíbrio. Em The Fall, entretanto, Frankie foi quase uma sátira de si mesma, tendo seu comportamento exagerado só para fazer toda a história do hospital girar. Que não cometam o erro de usá-la como objeto jogado em cena — não só a atriz, como a personagem, têm competência para encarar seus episódios individuais.

Indagações à parte, saio satisfeito da quinta parte dessa primeira temporada. Percebo a admirável capacidade dos roteiristas de conseguirem trabalhar fatos simples de forma interessante — e engraçada, que é o principal. Com um episódio dedicado a aproximar suas personagens (e humanizar uma delas), a série já está pronta para desfrutar da química que flui entre elas. Mesmo morando juntas, até agora, elas trabalharam sozinhas para resolver os próprios conflitos. Mas é preciso abrir mão do próprio espaço, sair da zona de conforto, deixar que as pessoas ao seu redor que podem lhe oferecer amizade te invadam tanto quanto os amores para os quais nos abrimos tão facilmente. Às vezes é bom ser invadido. Frankie nem sempre é fácil, confesso, mas é só levá-la à sorveteria quando a situação ficar incômoda demais.

ps: a série nem abre um grande espaço e lá me vem Jane Fonda sendo esse monstro na atuação que todos nós conhecemos; é sempre um privilégio assisti-la.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.