Ryan e cassinos.

Spoilers Abaixo:

É inevitável que uma sitcom, em algum momento, crie alguma história relacionadas a apostas, cassinos, Atlantic City ou Las Vegas, quando não todos estes juntos em oportunidades completamente distintas. É o típico clichê do gênero quase obrigatório, como episódios de Thanksgiving, Natal, Valentine’s Day e Halloween. Portanto, existem duas formas de abordar esse tipo de trama. A que separa a série das mais comuns, subvertendo o óbvio e se aproveitando de momentos batidos para exercitar sua criatividade, como Community se cansou de fazer e Go On tratou com competência em Dinner Takes All e The World Ain’t Over ‘Til It’s Over. Mas Double Down não segue o ritmo de seus antecessores, e entrega apenas uma sucessão de repetições e situações aborrecidas, ainda que aqui e ali mostre alguma inspiração.

Escrito por Seth Rabb e Nicholas Darrow (curiosamente roteiristas do já citado episódio de Natal), o episódio mostra como Ryan reage após seu repentino rompimento com Simone. E Fausta logo encontra uma forma, levando-o a um bingo que o estimula a voltar a apostar, hábito que apenas Steven conhece como sendo a pior coisa que o amigo pode fazer para se afundar ainda mais. Mas o grupo incentiva essa atitude, indo a casa dele para apostar em esportes, até que isso se torna insuportável, e Lauren precisa intervir com toda a sua sabedoria para evitar que Ryan se perca em cassinos, roletas e caça-níqueis.

O primeiro ponto equivocado de Double Down é o fato de tentar unir Ryan e Fausta, dois personagens sem nenhuma química e com timings completamente diferenciados. Aliás, esta funciona muito melhor quando, a exemplo de Mr. K, apenas lança piadas pontuais, sem receber longas linhas de diálogo. Isso acontece porque o humor cabido a ela é tipicamente satírico e depende muito da barreira do idioma para se destacar. E Ryan, seguindo a tendência de seu intérprete, é essencialmente sarcástico e precisa de diálogos mais esticados. O resultado acaba sendo uma Fausta abusando das diferenças culturais, gerando cenas embaraçosas como quando ela e suas amigas praticam bullying com o ignorante convidado.

Por sinal, nem mesmo Mr. K consegue se destacar fazendo o que sabe melhor. O grande feito do personagem é tornar suas situações absurdas perfeitamente naturais, como vimos em Ring and a Miss, mas aqui todas as falas dele parecem fora de tempo e como visíveis tentativas de fazer rir, o que inevitavelmente torna suas piadas artificiais por conta de sua natureza bastante incomum. Assim como Owen, que em geral só se sai bem quando contracena com Ryan, mas Go On tenta transformá-lo em sinônimo de derrota, em um tipo de tirada que não funciona quando prolongada dessa forma. Veja por exemplo o que a própria série faz com Yolanda, em piadas curtas e rápidas que sempre funcionam.

Aliás, Go On continua insistindo em características repentinas e incoerentes de seus personagens. Dessa vez o escolhido é Danny, que instantaneamente se tornou o membro burro do grupo apenas para que a série tivesse a piada com a namorada de Anne. Assim como o mesmo traço criado para Ryan, não será surpresa se a série abandonar esse fato nas próximas semanas, agindo como se nada tivesse acontecido. Trabalhar as características dos personagens é algo definitivamente válido, mas quando as piadas surgem a partir disso, não seguindo o caminho inverso.

Ainda assim, Double Down traz alguns momentos interessantes. Especialmente no que diz respeito a Ryan e Anne. A relação entre os dois é algo que Go On estabelece de forma correta desde o princípio da série, e aqui a maneire com que os dois lidam com seus problemas amorosos é bastante coesa. Até o momento em que eles finalmente decidem se libertar de seus fantasmas, se livrando de suas alianças em uma cena que chega a ser poética pelo significado que a Go On dá a isso nos últimos episódios. Em outras palavras, se o roteiro não consegue convencer por suas piadas, ao menos procura conectar seus personagens de forma relevante e adorável.

O mesmo se aplica para Lauren. Por vezes a terapeuta ultrapassa os limites e se transforma em uma figura irritante, mas aqui a forma com que conduz seu diálogo com Ryan para convencê-lo a largar as apostas mostra uma grande química entre os dois personagens, o que é importante para tornar essa parte da trama interessante e importante para eles. Aliás, me parece óbvio que o relacionamento, seja ele amoroso ou não, entre os dois é algo que Go On pretende trabalhar com carinho.

Por isso, Double Down não chega a ser uma tragédia, mas fracassa em praticamente todas as suas tentativas de gerar humor. Para uma série já em seu 18º episódio, Go On ainda se mostra instável demais, alternando entre episódios bons e ruins. É hora de se decidir.

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