Girls deixa erros no passado e entrega um ótimo episódio.
Existe um momento desafiador e complicado na vida de qualquer ser humano que te deixa desnorteado e é quando o mundo ao seu redor parece estar se movendo em uma velocidade e de uma forma que não está de acordo com suas expectativas e seus desejos. Diante disso, cada um de nós tem uma escolha a fazer: sobrepor às dificuldades e encontrar uma forma de se encontrar nesse novo universo cujo véu começa a cair ao seu redor ou se deixar perder cada vez mais e culpar tudo e todos pelo desvencilhar dos caminhos da vida. I Saw You deixou o hábito de memória curta de Girls para trás, dando continuidade às tramas estabelecidas em Role-Play e coloca seus personagens em posições diferentes em relação ao que nos acostumamos a vê-los nesse terceiro ano.
Marnie passou muito tempo perdida em suas frustrações e desilusões pessoais e profissionais e os roteiristas da série deram sinais de que perceberam que isso já tinha se alongado demais. Mesmo ainda sendo pisada por Soojin e passada para trás pela autenticidade de Jessa, a garota mostrou um ar de segurança e uma falta de medo de seguir com experiências novas que ressoou refrescante. Seu dueto com Desi foi emblemático por colocar em choque as duas facetas de Marnie: ela começa desconfortável, frígida e visivelmente insegura, no entanto, do momento em que ela canta em diante, nós percebemos ela se sentindo à vontade no palco e se entregando à música.
E, mais, eu tenho que admitir que me surpreendi positivamente com o vocal dela, porque, até então, suas experimentações musicais tinham variado entre fracas e vergonha alheia e isso também é um testamento da mudança contida que está ocorrendo na garota. Essa mudança também ficou evidenciada em sua relação com Ray. Se antes passava a possibilidade de a interação entre os dois poder virar um relacionamento, a forma solta que Marnie aborda o rapaz deixa claro que ela precisava de sexo e carinho depois de mais uma dose de confusão sentimental com Desi. E aqui eu tenho que dizer que ele o cantor/ator sente algo por ela sim. Talvez ele não tenha a noção do que sente, mas há algo entre os dois e não parte somente da garota.
Depois de chegar ao fundo do poço em Role-Play, Jessa estava enfrentando o demônio de seu vício em drogas e claro que as coisas não estavam fáceis. Apesar das dificuldades, eu não pude deixar de ficar maravilhado com a cena (mais uma que fica na galeria de minhas favoritas da série) visceral e poderosa de Jessa colocando tudo pra fora ao som de “Bad Girl (Part 1)” de Lee Moses. Elogios para a equipe da série pela escolha perfeita da música para o momento, com versos como “Mamãe, eles a chamam de garota má e tudo isso porque ela queria ser livre”, “O que meu coração sente meus lábios devem confessar” que se relacionam diretamente com a montanha russa emocional da inglesa e sua personalidade aberta (mesmo que não acessível).
Shoshanna também teve sua chance de se destacar e ela esbanjou a sinceridade dura que dominaram sua personalidade nessa terceira temporada. Ela via o sofrimento de Jessa, mas não deixava de ressaltar que ela estava se destruindo com as drogas. Apesar disso, com a prima ele expõe um otimismo motivador afirmando que ela tinha certeza de que o que ela tinha destruído iria voltar ao normal. Esse otimismo, no entanto, ela não usou com Hannah. Em um diálogo cortante, ela conta como Marnie e Adam estavam se encontrando profissionalmente e com prospectos de se destacarem por isso enquanto a aspirante a escritora estava estagnada em um trabalho de Publicidade, quando, na verdade, ela deveria ser a famosa do grupo (claro que boa parte do prospecto de fama de Hannah foi resultado da divulgação dela própria).
Nossa protagonista, aliás, foi colocado em uma situação aterrorizante para seu egocentrismo: tudo ao seu redor parecia ganhar importância própria, estar progredindo, enquanto ela permanecia nas sombras. Diante disso, o título do episódio tanto pode se referir ao flagra de Marnie e Ray transando quanto uma ironia em relação ao fato de que parecia que ninguém prestava atenção em Hannah (ou pelo menos não tanto quanto ela precisava). Além disso, ela iniciou uma caminhada autodestrutiva: pediu demissão por acreditar que isso seria o suficiente para tentar se manter fiel aos seus sonhos (esquecendo que tem muita conta para pagar), não respeitou o espaço requerido por Adam e se tornou uma pessoa que gera desconforto nos indivíduos em seu redor. Isso me deixou com vontade de ver o que o season finale trará para a personagem: se vai afundá-la de vez ou se vai socorrê-la.
E é isso: o próximo episódio será o último da temporada e, depois de dois ótimos capítulos, fico na esperança de que Dunham e sua equipe de roteiristas entregue um final que faça jus a essa reta final do terceiro ano.
P.S.: Gente, esses cosplays de Alex and Sierra vão dominar o mundo aparentemente.














