Girls mudou, desde a estética até a forma que a narrativa é apresentada.
É interessante perceber como Lena Dunham cedeu às críticas e aos pedidos da mídia e do público em relação aos rumos de Girls. A primeira temporada da série manteve um equilíbrio que beirou à perfeição entre a comédia e o drama, apresentando a crueza, o realismo e a densidade dos sentimentos dos personagens, assim como criando momentos de escape, de leveza e humor que evitavam que a série se tornasse claustrofóbica em seus dramas. A segunda temporada, no entanto, representou um ponto de ruptura, no qual o equilíbrio foi desmanchado e Girls entrou em uma progressão geométrica de obscuridades, fazendo com que o humor tenha sido negligenciado e a personagem se transformou em uma verdadeira caricatura, com seus TOCs e falhas de caráter exageradas.
Mas, nesse retorno para seu terceiro ano, Girls mudou, desde a estética até a forma que a narrativa é apresentada. Não somos mais imersos em um ambiente sufocantemente denso e obscuro. A série está marcada por cores e cenários iluminados e ela quer que nós percebamos isso, destacando o azul do apartamento de Hannah e os figurinos berrantes dos personagens. E essa vivacidade foi transbordada para a narrativa. Esses três primeiros episódios foram inundados de diálogos e situações leves, humor físico e até piadas com música do Maroon 5. Diante de todas essas mudanças na roupagem da série, os episódios (principalmente os dois primeiros) vistos até agora foram usados para colocar as peças no lugar, apresentar a nova proposta do universo Girls, abandonando certas tramas falhas do segundo ano e abrindo espaço para os novos rumos de Hannah, Marnie, Jessa, Shosh, Adam e Ray. E, devido a essa linha de apresentação que uniu esses episódios, a review vai abordá-los em conjunto.
O primeiro elemento positivo desse começo de temporada foi o esforço em evitar centralizar demais em Hannah. Ela é a protagonista? É, mas como a segunda temporada deixou bem escancarado: negligenciar os outros personagens tira o brilho da série. E assim vimos Marnie sofrendo pelo término do relacionamento com Charlie (obrigado, Jah, por dar fim a esse casal!). Ela ainda está em um momento de transição profissional e pessoal, no entanto não me senti tão irritado com a personagem e isso é algo bom, afinal o que pesou muito contra Marnie anteriormente foi a insistência em tentar cobrir a realidade com um véu enganador que a levava de volta para Charlie.
Marnie ainda se engana? Sim, ela tenta convencer a mãe de que sua vida está consertada, mas, pelo menos, ela sabe que isso não é verdade. E isso ficou claro no jantar na casa de Hannah, em que ela expõe as próprias fragilidades e frustrações. O que me resta é esperar que essa conexão dela com Charlie seja abandonada em breve para que a personagem possa desbravar novas possibilidades. Charlie não faz bem para Marnie. Ele é a lembrança de um passado infeliz, que a personagem tenta reconfigurar com uma fantasia de segurança e estabilidade e, enquanto ela não deixar isso para trás, ela não poderá vislumbrar realidades concretas para seu futuro.
E aqui eu tenho que elogiar a série por conhecer o que construiu até hoje. Toda a sequência de Marnie subindo ao palco no aniversário de Hannah foi banhada em um humor tenso de que ela fosse forçar uma cantoria novamente (nunca esquecerei a vergonha alheia que foi a garota cantando na festa de Charlie). E o humor saiu exatamente da inteligência da montagem em dividir a sequência em partes e do roteiro, por confiar que o público não teria esquecido aquela vergonha antológica. Num primeiro momento, ficamos aliviados em ver que a cantoria não tinha acontecido, mas depois a história é retomada do mesmo ponto, com ela puxando Hannah para o palco para cantar, o que rendeu a melhor piada desse início de temporada.
Outra personagem aperfeiçoada foi Hannah. Ela sempre foi a figura mais completa da série, mas, ao fim do segundo ano, tornou-se uma verdadeira caricatura, cheia de bizarrices gratuitas como o TOC. A união reatada com Adam só fez bem para ela, que, apesar de permanecer egocêntrica, não insiste somente na preguiça criativa e pessoal, assumindo um ar de objetividade e de clareza refrescantes. Em muitos momentos, eu pensava estar vendo Hanna respirando, em plenos pulmões, pela primeira vez em muito tempo.
E é interessante ver como, apesar disso, Dunham não busca esconder as facetas deturpadas de Hannah. Ela se incomoda rapidamente quando seu terapeuta muda a atenção dela para Adam durante uma sessão; ela reclama que a viagem de carro estava chata e não renderia nada para seu livro; e Adam cuida de Hannah, chegando a cantar músicas para acalmá-la, o que pra mim é a representação ideal de como a garota é a mesma de sempre: ela se sente bem, ela se sente segura, ela está centrada, porque alguém está dando toda a atenção e suporte que ela necessita quase que patologicamente. E, antes de me acusarem de machismo, deixo claro que não é que o homem-Adam seja essencial para tal. Ela somente recorreu a ele no season finale da segunda temporada, porque ninguém mais estava disposto a ajuda-la. Se no lugar de Adam, fosse Marnie, Jessa ou Shosh, ela estaria tão bem quanto.
Vimos uma Soshanna aproveitando a vida, mas, felizmente, não enxergamos o glamour por trás disso. As cenas em que Shosh sai da cama de um rapaz enquanto o colega de quarto dele dormia na parte debaixo do beliche e dela dormindo acabada na biblioteca jogam fora parte do brilho do discurso que ela faz durante o jantar na casa de Hannah. E é agridoce ver como Shosh mantém uma visão fantasiosa da vida. A forma que ela se recusa a enxergar os problemas na vida de Jessa por considerar que as drogas, o alcoolismo e o casamento fracassado são diversão é tão Shoshanna, mas tão triste ao mesmo tempo de ver. E eu penso que o diálogo entre ela e Ray na frente do bar onde ocorria o aniversário de Hannah pode vir a fazê-la repensar certos aspectos.
E também tivemos Jessa ainda insistindo em não pensar em si mesma, em formas de contornar seus problemas, traumas e feridas. E toda sua estadia na rehab fez com que ecoasse em minha mente o que Katherine (a mãe das garotas que Jessa cuidava na primeira temporada) disse para a loirinha: que ela insiste em se distrair e não ter que confrontar a sim mesma, o que ela quer e o que ela quer ser. E, nesse contexto, foi brilhante toda a sequência de sedução de Laura (Tasty para íntimos de OITNB). Naquele momento, Jessa tinha controle sobre a situação e sobre a figura que queria ser, usando o sexo e a exibição como escapes para não parar e ter que considerar sobre si. E essa sequencia engrandece os questionamentos que a Dra. Sterns faz a Jessa antes de expulsá-la da rehab: “Você é uma sociopata? Você é um ator metódico fazendo pesquisa para um papel?”. E o olhar triste contido da garota depois de ouvir isso foi bonito de ver, afinal não é bom nem agradável ter a verdade jogada na sua cara.
Quanto aos personagens masculinos, destaque absoluto para Adam, principalmente no conselho surpreendentemente doce e sincero que ele diz para Marnie no jantar. Marnie e Shosh acreditaram naquilo que ele dizia, apesar de que nós sabemos que, no fundo, ele estava pensado: “Mulher, arrume a sua vida, supere esse cara e siga em frente!”. Depois de todo o esforço em ressaltar as facetas mais pesadas do personagem na segunda temporada, era necessária a suavização de Adam. E essa suavização foi feita de forma bem orgânica: Adam sempre teve uma doçura e uma honestidade fortes, mas isso foi deixado em segundos e terceiros planos devido aos rumos desejados por Dunham e agora o que vemos é essa faceta positiva sendo colocada em evidência. E eu fiquei com um sorriso gigantesco em ver Adam fazendo novamente suas danças loucas na festa de Hannah (sério, se você, como eu, faz palhaçada ao invés de dançar nas festas, entende a diversão que Adam sente quando faz isso).
Girls retornou bem. Ainda não é a série que foi na primeira temporada, mas todo o rearranjo das peças me deu um sopro de otimismo de que, dessa vez, há um rumo pretendido para a temporada e que tudo pode dar certo. E o planejamento parece ser a ordem da vez: se os dois primeiros episódios emergiram em uma atmosfera estável, o terceiro episódio trouxe um agente do caos na figura de Caroline, que foi um presságio de que as coisas agora começarão a esquentar e as vidas dos personagens serão estremecidas. E eu torço por isso, porque a natureza de Girls é o caos, o descontrole.















