Flesh and Bone não é só uma minissérie sobre ballet.

Logo quando soube que Flesh and Bone iria retratar de alguma forma o ballet e seu backstage, eu já fiquei animada, afinal, não é fácil achar uma série que trata desse assunto. Problemas internos fizeram com que o canal Starz mudasse os planos e o que era para ser uma série se tornou uma minissérie por conta da agenda dos atores, que não conseguiram conciliar as gravações com os seus projetos de ballet. Mesmo com turbulência, ainda acreditava muito no potencial e o episódio piloto só reafirmou que eu não estava enganada em acreditar.

Flesh and Bone conta a história da Claire, uma jovem bailarina que mesmo ficando três anos longe das companhias (que iremos descobrir o porquê ao longo da temporada), conseguiu passar no teste de uma das companhias mais concorridas do mundo. Se mostrando no começo geralmente como frágil e passiva, os oito episódios conseguiram desconstruir totalmente a figura da bailarina e essa transformação passou por diversos pontos necessários. Bryan, seu irmão, foi uma das principais causas para essa mudança. O choque do telespectador no fim do piloto, foi importante para pintar Bryan como a pior pessoa do mundo. Conforme os episódios foram passando, isso só se intensificou, porém, na segunda metade, a mudança de Claire foi se intensificando ainda mais e tudo começou a ficar mais difícil de julgar: “a mocinha e o vilão”. Flesh and Bone tratou muito bem o certo e errado, ou melhor, será que realmente há o certo e o errado? O certo para mim pode não ser o certo para outra pessoa.

Claire tinha o sonho de ser a bailarina protagonista de uma companhia de ballet; Kiira queria manter o posto de primeira bailarina, mostrando que apesar da sua idade e contusão, ainda podia mostrar serviço; Paul queria construir um espetáculo belíssimo para a elite de Nova Iorque e não importava os métodos, apenas os resultados; e Bryan queria ficar perto da sua irmã a todo custo. Claro que outras tramas foram construídas, porém, esses quatro personagens foram os principais e primordiais para o fechamento da minissérie. Motivação é importantíssimo em qualquer coisa que fazemos na nossa vida, mas é preciso ter cautela e não a transformar em obsessão e Flesh and Bone mostrou exatamente isso.

Outros plots foram importantes para o desenrolar da história e não é tão fácil fazê-los funcionar de forma fluída como aconteceu, afinal em oito episódios não temos tempo suficiente para conhecer e presenciar o desenvolvimento de todos os personagens. Mesmo assim, a minissérie conseguiu fazer isso de forma mais que satisfatória. Todos os coadjuvantes tiveram sua história paralela com a principal, como Mia, a roomate insuportável e com problemas alimentares; Daphne a bailarina gente boa que mais se mostrou amiga de Claire; Jessica mostrou como é difícil ser uma mãe recém divorciada; Romeo era a dose de loucura necessária para os episódios andarem da forma que andaram e Ross foi bailarino hétero sendo assediado pelo seu diretor.

O cuidado com todas as histórias e como elas se desenvolveram só mostra que Moira Walley-Becket, a criadora Flesh and Bone e uma das produtoras de Breaking Bad, pode sim andar com suas próprias pernas e nos entregar um projeto solo acima da média. A trilha sonora clássica que por muitos momentos elevava a tensão para logo depois chegar ao ápice da cena foi uma das mais belas que tive o prazer de escutar e acompanhar esse ano. Se Flesh and Bone tem chances de ganhar algum prêmio, é na trilha sonora. As atuações também surpreenderam, já que estamos falando de bailarinos-atores, pois a carga dramática que a minissérie precisava passar para o telespectador era altíssima e mesmo não sendo as melhores atuações, conseguiram cumprir o que foi proposto.

Flesh and Bone não é só uma minissérie sobre ballet, ela é sobre vitórias e derrotas, motivação e decepção, certo e errado, amor e ódio, manipulação e passividade. Com oitos episódios acima da média, a minissérie mostrou que se pode pegar um tema difícil como o ballet e usá-lo de pano de fundo para histórias interessantes e inesperadas, não perdendo o foco principal em nenhum minuto de tela. O mundo do ballet profissional é belíssimo para quem vê de fora, mas pode se mostrar extremamente problemático para quem faz parte dele. Isso nada mais é que uma metáfora das nossas próprias vidas, afinal é muito mais fácil dizer que a grama do vizinho é mais verde e não saber realmente como e por que ela é mais verde.

P.s.*: Como Flesh and Bone começou como uma série e precisou ser adaptada para uma minissérie às pressas, o final pode não satisfazer todo mundo por ter deixado algumas coisas no ar, mas nada  que desmereça a temporada como um todo. O gostinho de quero mais ficou, porém o roteiro conseguiu encerrar as principais histórias que desenvolveu ao longo dos oito episódios.

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