
Aí Britt Daniel aparece.
Existem determinados obstáculos difíceis de serem contornados quando uma série aposta tanto em uma quantidade absurda de mistérios. Muitas pessoas a serem administradas em um emaranhado de retornos e descobertas que terminam tendo que ser englobadas de qualquer forma em um mesmo universo. Por melhor que seja, Veronica Mars em sua segunda temporada não é realmente uma série que equilibre suas histórias interligando-as através de temas, fazendo com que a narrativa seja construída com uma pirueta atrás da outra. A estrutura de 22 episódios é um dos fatores mais relevantes observados ao longo da temporada, sendo necessário que Rob Thomas e o restante dos roteiristas necessitem explorar vertentes como Wallace e suas aventuras em Chicago com um objetivo que pode ser interpretado como um meio para que o compasso de tramas maiores não seja perdido. Isso está longe de se constituir como um problema de proporções prejudiciais a qualidade geral da série, mas faz com que um ótimo episódio como “Donut Run” seja seguido de um instante menos consistente como esse “Rashard and Wallace Go to White Castle”.
É mais difícil atentar para as dificuldades de Wallace do que qualquer outro dos personagens considerados relevantes da série. Em um universo coberto de mistérios, relações de desconfiança e os perigos que são resultados disso, seu comportamento durante grande parte da história de Veronica Mars sempre foi mundano demais para os padrões da série, criando logo nisso um empecilho para quando o roteiro demanda uma presença mais ativa do personagem. Além disso, pequenos fatores como o fato de todo o drama que o envolve ser pautado em um acontecimento invisível para o público como o prodígio Rashard atropelar uma pessoa faz com que esse segmento do episódio seja sempre avançado a partir de lembranças convenientemente atiradas pelo roteiro para que a história continue, como a da testemunha presente no drive–through.
Outro recurso marcante do ponto de vista negativo é o retorno de Jackie. Sua aparição e inclusão entre Wallace e Veronica são elaboradas tão abruptamente com a meta final de fazer com que o gancho da prisão de seu pai tenha um efeito maior que o roteiro faz com que todo o caso da semana seja arquitetado na reviravolta de que o trio são amigos, parcialmente se desfazendo do passado entre o grupo. Existe a possibilidade do diálogo entre Veronica e o padre sobre inimigos tenha sido colocado com um objetivo secundário de transformar a ajuda de Jackie em algo mais consistente, mas “Rashard and Wallace Go to White Castle” não abraça tanto a temática quanto deveria.
O lado de Weevil acaba sendo muito melhor construído do que qualquer outro aspecto do episódio. O episódio dessa semana é um daqueles curiosos casos onde uma série comete certos deslizes, mas termina sendo tão certeira em outros elementos que a visão geral agrada aos olhos de quem vê. A cegueira de Weevil diante do assassino de Felix o leva a um instante esperado que não deixa de ser bem executado por isso. Era evidente que sua aproximação com Logan e toda a investigação terminaria o levando a um destino nada agradável. Agora, contar com aquele clima de ritual fazendo com que toda a sua queda seja um evento meticuloso ao ponto de fazer com que a própria desconfiança entre os membros da gangue seja melhor do que a mesma temática direcionada para Veronica? Esse foi um evento absurdamente incrível. Para complementar, ainda podemos ver o trio Veronica/Logan/Weevil trocando farpas, uma das melhores cenas do episódio pelo simples fato de trazer um ponto de vista cômico a relação entre Weevil e Logan, uma das situações mais inusitadas e tensas da temporada.
É fácil de entender porque os personagens de Veronica Mars possuam tantos problemas de confiança. Conhecemos claramente o quanto Weevil é ligado aquele perturbado sentimento de lealdade que todo personagem com características de anti-herói demonstra. Esses pontos unem-se com uma força incrível para nos entregar mais uma traição na temporada.
“Rashard and Wallace Go to White Castle” não é um episódio ideal, uma classificação que a própria premissa logo estabelece, com segmentos demais que terminam não se conectando do ponto de vista literal ou mesmo temático, mas traz um dos clímax mais bem montados da história da série e faz a transição de Weevil da forma mais dolorosa possível, o que para nós é uma maravilha, especialmente quando levamos em conta que uma das regras de ouro da televisão é que o nível de encrenca de um personagem é diretamente proporcional ao nosso divertimento.
Agora que Wallace limpou o seu nome, talvez Veronica Mars direcione-se a pastos mais verdes.














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