Só restaram os destroços.
No primeiro texto sobre The Wire que fiz nesse site mencionei a presença constante de uma cena específica: Jimmy e Bunk dirigem até as proximidades de uma via ferroviária e lá enchem a cara conversando sobre besteiras e reclamando da vida. Segundo David Simon essas cenas se repetem no decorrer da série por um motivo. Na minha opinião o trem reflete a máquina estatal, a mentalidade coletiva que habita quase todos os personagens na série e a inamovibilidade desses dogmas, mesmo quando eles são flagrantemente incorretos e prejudiciais à sociedade. É portanto providencial o aparecimento dessa cena em mais uma season finale entupida de acontecimentos que galopa em direção a seu destino fatal, da mesma forma que o trem segue seus trilhos sem possibilidade de mudança.
É em Mission Accomplished que a derrota de Bunny Colvin e seu experimento ocorre de forma completa, maior até do que ele mesmo já esperava. É aqui que temos a implícita passagem de bastão de Avon para Marlo, de um personagem que em certo momento enxerga a inutilidade de sua guerra por algumas esquinas para aquele que se regozija por ter um motivo para matar mais alguns “inimigos”. Stringer morreu, Avon e sua gangue inteira foram para a cadeia (fora o Bodie, porque ele é foda), e agora nada impede que o personagem mais violento que já apareceu na história de The Wire assuma o poder. Bunny foi demitido, Hamsterdam acabou e agora nada impede que Herc e seus amigos policiais semi-acéfalos continuem a bater em moleques, achacar cidadãos e passar longe, muito longe, de resolver uma verdadeira investigação policial. Ambos proferem a frase “Get on with it, motherfucker” antes de suas literais e metafóricas execuções. O jogo acabou para eles.
Do meio desses escombros, entretanto, surgem algumas pequenas vitórias como sempre. The Wire sempre foi pessimista mas nunca caiu na armadilha de ser unilateral. Durante a temporada vemos o lento crescimento de Carver como personagem, um desenvolvimento incrivelmente conduzido em pouquíssimo tempo de tela. Vemos também Cutty finalmente encontrando seu lugar dentro da sociedade após quase duas décadas na prisão. Vemos finalmente a mudança de McNulty, que após a morte de seu principal alvo resolve dar ouvidos ao que Lester disse em alguns episódios passados: o trabalho não irá te salvar.
Esses pequenos momentos de triunfos são como guloseimas que fazem com que suportemos um prato principal amargo e desesperador. Outros exemplos são mais complicados de se descrever. O discurso de Carcetti durante a reunião de seu comitê é incrível e muito bem pronunciado, um caminhão de verdades inconvenientes despejado em cima de Burrell e Rawls. Entretanto, até que ponto ele é sincero se na chance que teve para fomentar uma proposta diferente, usar uma arma diferente como ele mesmo disse em seu discurso, prefere defender seus interesses pessoais e sua campanha a prefeito?
A preservação pessoal é o instinto básico aprendido por todos os que circulam nas esferas de poder em Baltimore, profundamente enterrado em suas mentes. Ninguém se posiciona abertamente contra Hamsterdam em nenhum momento da temporada. Mesmo assim, ninguém se arrisca a apoiar o empreendimento pois eles sabem que isso poderá destruir suas carreiras. Com o objetivo de atingir o topo todos acabam ficando no mesmo lugar.
É a mensagem do episódio passado, entretanto, que ressoa em minha mente ao assistir Mission Accomplished. Na pequena luta entre o pupilo de Cutty, aquele que aqui volta para o jogo do tráfico de drogas mas depois se submete ao seu mestre novamente, e um garoto com muito mais técnica o pupilo apanha mas é aplaudido. Não há vitória para ele e nem para essa terceira temporada, mas as tentativas nunca devem ser esquecidas. É delas que personagens como Carver podem florescer, e como veremos no futuro essa única e aparentemente pequena mudança pode mudar muita coisa.
Bulet Points
– Há visão mais deleitosa do que ter Amy Ryan surgindo inesperadamente no meio do episódio com seus sorrisos radiantes?
– Como sempre temos as icônicas sequências musicais no fim de cada temporada. O que sempre me emociona em relação a elas é como a série consegue criar cenas totalmente inesperadas e marcantes. Quem pensaria em Donette, a viúva de D’Angelo que agora também perdeu Stringer, a essa altura do campeonato? Mas ela está lá, uma vítima indireta do jogo no qual os Barksdale se envolveram que seria esquecida em outra série.
– Termino essa temporada com a certeza de que é a minha favorita, mas o que vem pela frente é igualmente estupendo. Não sei se minha opinião se manterá. Aos passageiros de primeira viagem digo apenas isso: se acharam que sofreram demais agora, preparem-se para lutar contra os instintos suicidas nos próximos episódios de The Wire.















