Nasce o grande experimento americano.

O jogo é o mesmo. Só ficou mais feroz”

– Slim Charles

Amsterdam é o ponto de partida da narrativa mais importante dessa temporada, mas nesse texto sinto-me inclinado a focar meus pensamentos na trama de Cutty. Uma das características únicas e especiais de The Wire é a habilidade dos showrunners em desenvolver múltiplas histórias em um mesmo episódio, todas com potencial imenso. Eu poderia escolher falar sobre a ascensão de Stringer aos círculos da alta sociedade de Baltimore, sobre a convicção de Carcetti em se tornar prefeito após ver de perto os problemas da cidade ou sobre o furacão auto degradante que atende pelo nome de Jimmy McNulty. Todos esses são caminhos viáveis, histórias bem construídas e dignas de nota.

Entretanto é em Amsterdam que David Simon toma um rumo diferente para narrar a história de Cutty, um personagem famoso da Baltimore de anos atrás que depois de vinte anos de cadeia volta para as ruas em um lugar que ele não reconhece mais. Pode parecer uma incongruência dada a visão cíclica que Simon tem sobre a sociedade, mas Slim Charles logo esclarece: a dinâmica é a mesma, apenas mais acelerada. Prova disso é o que ocorre com Cutty nesse episódio.

Tentando dar partida em uma máquina de cortar grama defeituosa ele recebe os conselhos de seu chefe. Após dez anos trabalhando no mesmo ramo é visível em seu rosto que todas as mentiras e ilusões que ele poderia acolher em tempos passados não são mais relevantes. O diálogo é direto: não melhora. Estaria dizendo Simon que o crime compensa? Quando Cutty avista dois traficantes dentro de um carro luxuoso enquanto ele segue para o trabalho na picape de uma caminhonete a mensagem é direta. Dinheiro, drogas, mulheres e bebidas. Cutty não pensa nesse momento nas chances de assassinato, prisão e degradação física e mental. Os garotos das esquinas de Baltimore compartilham de uma característica fatal: o pensamento a curto prazo. É uma filosofia fácil e agradável. Como não estamos falando aqui de personagens comuns, sem fantasias de superação ou heroísmo, a verdade é dura. O ser humano segue sempre o caminho mais fácil quando pode, e como seria diferente quando aquele que seguiu o mais difícil diz na sua cara que não há uma recompensa no final da jornada?

Essa é a abordagem mais genial que já assisti sobre o problema da ressocialização do preso. No caso de Cutty, ele se ressocializa com o crime. Mencionei acima que David Simon toma um rumo diferente do estilo que sempre acompanha The Wire para contar essa história. O personagem vai com Bodie, Slim Charles e outros companheiros para uma festa noturna e fica claro que essas festividades são comuns para eles, apenas mantidas fora da série até agora por conveniência. A princípio Cutty fica com os olhos arregalados. Avon deixa que eles participem dessas festas? A cena toma proporções épicas de psicodelia: bebidas, drogas, portas de quarto abertas revelando cenas espantosas de sexo e luxúria e um mundo totalmente anormal. “O que aconteceu com Baltimore durante meu tempo de prisão?”, pensa o novo soldado. Mas em certo momento ele se acostuma. Um trago de um cigarro cujo conteúdo é melhor nem perguntar. Alguns goles de álcool. Uma mulher seminua oferecendo-lhe prazeres inimagináveis. Essa é uma linguagem que Cutty é capaz entender, ela só está vestida de forma diferente. O jogo é o mesmo, só ficou mais feroz.

É essa continuidade que abala as tentativas de Bunny em criar sua própria Amsterdam. Ele pensa fora da caixa e luta para convencer seus subordinados de que o plano é bom. O pensamento a curto prazo dos policiais (a mesma característica dos traficantes, vejam só) atrapalha o desenrolar do “experimento”. Quando ele finalmente consegue convencê-los um desafio muito maior se avizinha. Bodie e Herc começam o trabalho ingrato de remover os garotos das esquinas povoadas de West Side e realocá-los nas casas abandonadas que Bunny demarcou no último episódio. Os traficantes não entendem, e o engraçado da cena é que os policiais também não. Acostumados com a dinâmica de sempre, polícia pega ladrão, todos se sentem profundamente desconfortáveis com a mudança. Não estamos falando aqui de uma nova roupagem para o jogo de sempre, mas sim de uma verdadeira alteração na dinâmica que sempre prevaleceu nas esquinas de Baltimore. Bunny está cutucando a todos, forçando-os a se mexer. Bodie, Poot e todos os outros sequer consideram que vender drogas sem a interferência da polícia pode ser um bom negócio: não importa se a mudança é para melhor, ninguém está interessado nela. Porque não deixar tudo como estava antes?

Bullet Points 

– Esse é um dos episódios mais sofríveis da série para qualquer fã de McNulty, pois é complicadíssimo justificar suas ações. Quanto mais o personagem se envolve com suas investigações pior ele fica, e a obsessão com Stringer Bell é algo que vem fermentando desde aquela cena na primeira temporada onde ele e Daniels prendem Avon mas deixam Stringer à solta.

– Aparentemente as intenções de Simon com a trama de Carcetti são reveladas em Amsterdam. É incrível como essa história, mesmo não tendo nenhuma relação direta com os personagens que conhecemos, não parece fora de contexto ou cansativa como alguns reclamam em relação à última temporada do porto. Tratar de política parece uma expansão perfeitamente racional de The Wire. Explorar o macrocosmo de Baltimore é uma oportunidade de entender sua influência direta ou indireta na vida dos policiais e traficantes da cidade, algo que será muito explorado daqui em diante.

– Enquanto o destacamento de Daniels tentava alcançar Stringer por meio de Prop Joe o personagem se infiltrava no ramo imobiliário. É visível que ele está cansado da dinâmica ilógica do tráfico de drogas. Stringer quer brincar de gente grande, algo que se tornará em outra narrativa muito interessante para a temporada.

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