A verdadeira face de Vic Mackey.

Spoilers Abaixo:

Vou ser direto ao explicar a vocês qual é esse episódio porque dificilmente quem assistiu esquecerá: Esse é o episódio da confissão de Vic e, para mim, o melhor episódio de The Shield.

Os seis episódios finais dessa série conseguem o feito extraordinário de brincar com as expectativas que criamos em relação ao fim da saga dos personagens de uma maneira simples, mas que é tão poderosa que a única reação que um ser humano comum pode ter ao terminar de assistir “Possible Kill Screen” é um sonoro “PQP!”, que, por ironia que apenas o universo das séries pode oferecer, vai contra tudo apresentado no episódio, que utiliza o silêncio para poder em um pequeno conjunto de belas cenas encaixadas em 47 minutos, revelar o quão monstruoso Vic Mackey é, selar o previsível destino da aventura de Shane e Mara e finalizar pequenos detalhes de outros personagens que não podem ser abordados no fim por falta de tempo, algo que esperamos de qualquer episódio que precede um Series Finale.

A maneira como Shawn Ryan e sua equipe de roteiristas desenvolve as histórias de Vic e Shane ao longo desses episódios finais é sensacional, sendo capaz de jogar um contra o outro e criar uma tensão tão grande dentro de suas histórias individuais (a fuga de Shane e o acordo de Vic com a I.C.E) que não chega a ser necessário que os dois interajam para que se sinta o quanto eles estão interligados e fadados a ter um final miserável, nem que se desenvolva um pensamento de que a série está protelando demais. Essas duas histórias funcionam tão bem individualmente que às vezes parecem ser duas séries diferentes presentes em um mesmo universo onde finais felizes para ambas são impossíveis e todo mundo do lado de fora sabe disso. O melhor é que The Shield cria toda essa atmosfera sem literalmente transformar um deles em vilão, fazendo com que tudo saia da forma mais natural possível no que nada mais é que o apogeu de algo que vem sendo criado por sete temporadas e está pronto para ser descarregado no episódio final.

Desde o piloto pode-se ver que é evidente que a maioria das ações de Vic são direcionadas para o bem estar de sua família e mesmo que o sentimento seja criado de maneira um pouco mais tardia com Shane, o resultado é o mesmo: o objetivo deles não é salvar a si mesmos, e sim, as suas famílias. Tanto é que o que impulsiona Vic a assinar os papéis do contrato com a I.C.E é o fato de ele pensar que sua esposa tinha sido presa e o seu entendimento de que Shane não é mais um fardo, o que faz com que ele jogue o jogo na defensiva, sentimento que acaba superando até o carinho que Mackey desenvolveu por Ronnie, seu soldado mais fiel. A cena em que ele confessa os crimes do Strike Team revela a beleza de um personagem bem construído, onde se observa que monstro e seus sinônimos não são as palavras apropriadas para definir Vic Mackey porque adjetivos não cabem aqui. A própria série entende isso e é desse pensamento que se observa como o discurso dele é precedido por um silêncio que se estende por quase um minuto de relutância do personagem, o que permite que em seguida tudo acabe se assemelhando mais a uma quebra da quarta parede, um momento sincero em que Michael Chiklis conta a história de seu personagem intercalando-a com sorrisos sádicos que gelão a espinha e crescem ao longo da conversa, acompanhadas pelas reações de Olivia, que são totalmente esperadas para alguém naquela situação de trouxa, enquanto o silêncio das pausas dramáticas de Mackey representa o público (ou pelo menos as minhas reações durante as cenas), perplexo por ter o seu conceito de monstro alterado e tendo que aturar os closes incessantes no rosto dele, em um conjunto de cenas que não tenho autoridade de dizer se são lindas ou assustadoras.

Embora não tenha sido a melhor decisão intercalar o momento da confissão que vem sendo construído por três anos com outras cenas que são meio que irrelevantes comparadas a essa, a habilidade que o roteiro tem em captar o sentimento de fracasso que todos que estão presenciando aquilo acabam tendo redime a decisão. O cidadão do FBI que eu sinceramente não lembro o nome acaba sendo o alívio cômico da situação, ironizando os polícias do distrito, algo que chega a ser surpreendente diante da magnitude da situação e o fato de o próprio Vic já cumprir essa função ao longo da confissão. Claudette é aquela que perde mais com a situação ao ver o seu trabalho destruído, uma choque de realidade que é a oportunidade perfeita para que a sua relação com Dutch seja abordada e consiga atingir uma profundidade assustadora e ao mesmo tempo previsível ao observarmos os eventos anteriores do episódio que envolvem a postura de Dutch diante da fuinha que é Billings. A maneira que Claudette explode e a reação carinhosa que ele tem compõem o momento mais sincero da relação entre os dois que acaba sendo esquecido diante do turbilhão de eventos que se desenvolvem aqui. Olivia também sofre bastante por ver que foi manipulada durante a maior parte do tempo e a única alternativa para ela é lamentar e ter que encarar a realidade que acidentalmente criou.

Um dos trunfos que fazem “Possible Kill Screen” funcionar além de tudo é a sua estrutura. O jeito que as cenas vão sendo colocadas e acabam se opondo de forma linda, com Shane e Mara cavando a própria cova à medida que os segundos passam e Vic sendo capaz de enganar a todos e recebendo imunidade por todos os seus crimes no que é uma das melhores cenas já produzidas em qualquer meio audiovisual. O início do episódio com Shane tentando roubar dinheiro de seus conhecidos depois de perder tudo no episódio anterior acaba culminando na sentença de morte da família Vendrell na hora em que Mara é obrigada a atirar em uma garota grávida, onde ela percebe que chegou a um ponto intolerável que só é sustentável graças a seu amor pela sua família, o que transforma o seu ferimento em apenas um acessório ou até mesmo uma metáfora para toda a situação. Enquanto sempre ficaram dúvidas sobre o fim de Vic, o destino de Shane e Mara era evidente desde o momento em que o primeiro tentou assassinar Ronnie, entretanto, a maneira como Shawn Ryan zombou com nossas esperanças infundadas, elemento principal da receita que fazem esses seis episódios finais umas das maiores maravilhas da televisão, e a atuação de Michelle Hicks e Walton Goggins trouxeram uma carga dramática gigante para uma situação que chegou até a superar a situação de Vic em certos momentos desses benditos episódios finais. A cena em que Shane ataca Tina e cai em prantos é o momento em que é anunciado para todos os cantos do mundo que ele foi derrotado e a linda cena final é nada mais que o momento em que Shane decide tomar a atitude que ele toma em “Family Meeting” ao escutar o pedido de sua amada. Essas cenas conseguem o feito sensacional de oficialmente colocá-lo em uma posição de vítima que é totalmente necessária diante do que vimos nos episódios anteriores.

É interessante ver como “Possible Kill Screen” é apenas mais um passo de um processo esperado, mas é feito de forma tão meticulosa que seu impacto é perfeito. Muitas séries querem iniciar um restaurante sem saber fritar um ovo e The Shield foi vítima disso em boa parte da sexta e sétima temporadas, mas essa sequência final de episódios que repeti sei lá quantas vezes no texto acaba encapsulando um número de decisões criativas corretas assustadora e esse episódio é a cereja do bolo. Normalmente esse episódio perde um pouco do holofote porque o seu sucessor transforma toda a tensão criada ao longo de sete temporadas em um final que é genial por entregar tudo aquilo que esperávamos da maneira que poucos previam, mas mesmo assim, “Possible Kill Screen” é meu episódio favorito dessa série.

Agora é com vocês: Qual episódio vocês querem ver aqui na coluna Flashback? Se não lembrarem um episódio específico, aceitamos sugestões de séries que vocês gostariam de ter seus episódios lembrados aqui.

Para finalizar, gostaria de deixar uma foto aleatória da Kristen Bell no episódio de The Shield em que ela participou.

Em 2010, nós criamos a coluna Flashback para séries canceladas. Mas como a resposta não correspondeu limitações de tempo, reformulamos esse espaço para que ele possa abordar, em atualizações irregulares, um número diferenciado de episódios. Espero que vocês gostem.

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