Nada melhor do que o discurso de Phoebe.

A sétima temporada de Friends traz uma vida muito rara em uma série já tão envelhecida. Em geral, comédias tem problemas em se manter em alto nível depois de tanto tempo sem perder a identidade, já que a criatividade dificilmente dura mais de 150 episódios. É por isso que não vemos muita sitcoms com essa idade em que boa parte dos espectadores já não tenha largado ou se perguntem “por que ainda assisto a isso?”. E o que Friends faz em The One with Joey’s Award é meramente um exercício de exploração do que consagrou a série, mas com uma competência que eleva o episódio a algo mais.

Afinal, todos os posicionamentos dos personagens apenas remetem ao que fazem de melhor ao longo desses sete anos. Por isso, o roteiro, escrito por Brian Boyle com base em história de Sherry Bilsing e Ellen Plummer, utiliza todos eles em situações em que possam ter performances típicas dos próprios. Joey, que dá nome ao episódio, é indicado ao Soapie Award, a terceira mais prestigiosa premiação de novelas, para a qual convida Rachel, que o ajuda com seu discurso e em sua expressão de perdedor. Já Ross se vê encurralado quando um aluno diz que está apaixonado por ele, e por isso não teve boas notas no semestre. Finalmente, Monica passa a sentir o fato de nunca mais poder conhecer uma pessoa nova e ter a emoção de um relacionamento em seu início.

Como de costume, a cold open de The One with Joey’s Award é um destaque à parte. A começar pelo diálogo inicial, em que Phoebe surpreende o espectador com uma intervenção inesperada, típica da esquisita interface social da massagista. Depois, pelo fato de ninguém conhecer o prêmio a que Joey fora indicado. Essas formas de Friends abrir seus episódios é um grande diferencial da série, já que aquece seu espectador logo nos primeiros minutos, facilitando o riso para cenas posteriores.

Aliás, Joey é de fato a peça principal do episódio. E quando isso acontece a série tem muito a ganhar, especialmente nas últimas temporadas, quando Matt LeBlanc mostra uma notável evolução em sua capacidade como ator de comédia. Nada em sua trama chega a acrescentar algo relevante para o personagem, mas suas piadas são, como de costume, precisas, em especial a sua espontânea reação quando o vencedor de sua categoria é anunciado, e seu discurso fora de hora quando apresentava o prêmio de sua companheira de elenco. Rachel serve nessa trama como apoio, e funciona bem com Joey ao ser sua voz da razão, e ao sugerir que o amigo ficasse com o prêmio após a arrogante declaração da verdadeira vencedora.

Por outro lado, a trama de Monica se contrapõe à de Joey por ser mais importante para a personagem, além de ressaltar o fato de que ela é a pessoa mais masculina em seu relacionamento com Chandler, o que ele comprova ao sugerir que a possibilidade de fazer sexo com outra pessoa só traz ansiedade e pânico. É verdade que, em termos de humor, esse arco não chega a ser hilário como o outro e que acaba deixando Chandler consideravelmente de lado, se tornando provavelmente um dos episódios em que menos aparece, exceto para disparar algumas piadas, que sempre funcionam.

Mas é Phoebe que acaba por salvar o lado cômico da história, em mais uma participação inspiradíssima de Lisa Kudrow. A cena em que ela finge que o rapaz no café estava olhando para Monica apenas para se divertir é hilária, assim como os momentos em que manifesta seu carinho por ele, em uma forma nonsense encontrada pelo roteiro para evidenciar exatamente o que Monica estava pensando sobre o fato de se casar. E, como se não fosse o bastante, Phoebe ainda protagoniza a cena que encerra o episódio, juntando em um discurso, ao mesmo tempo, suas vitórias de um Nobel, um Tony e ser host do Saturday Night Live (coisa que Kudrow já havia sido, por sinal). A maneira que a personagem melhor funciona é quando serve de suporte para outras tramas, quando suas piadas se tornam inusitadas e bem executadas, ainda que ela também se saia bem como protagonista, com menor frequência.

Diante de tudo isso, a história de Ross acaba apagada. Tanto por ganhar menor tempo de tela quanto pela própria proposta. É verdade que vê-lo esganiçado tentando imitar um velociraptor é hilário, mas o arco não passa disso, criando um ou outro diálogo sobre a suposta paixão de seu aluno, em que Ross decide mudar sua nota sem grandes explicações, dando a impressão de que a trama tem como única finalidade dar alguma função ao personagem dentro do episódio.

Assim, Friends traz com The One with Joey’s Award um episódio típico da série. Está longe de ser o melhor da temporada e tem seus problemas, mas não deixa de ser muito competente.

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