
Aquele em que o título diz tudo e Chandler tem que pensar bastante.
“The meaning of the box is threefold. One, it gives me the time to think about what I did. Two, it proves how much I care about my friendship with Joey. And three… it hurts!” – Chandler Bing
“The One with Chandler in a Box” é um daqueles excelentes episódios de Friends em que o roteiro se aproveita de determinado feriado para colocar todos os personagens em determinado local par ir dividindo-os ao longo do tempo. Essa estratégia normalmente funciona com a série graças à força dos personagens como um grupo, o que faz com que as situações sejam segmentadas de um modo orgânico que é até parcialmente imperceptível. A temática do dia de Ação de Graças não é tão explorada além da piada inicial de Chandler, mas retirar de tal contexto um dos melhores episódios da temporada faz com que essa data seja memorável. Além disso, a celebração torna-se ainda mais marcante graças à ideia de colocar Chandler em uma caixa como punição por ficar com Kathy, encerrando um dos mais importantes arcos da série até agora.
Esse evento é particularmente hilário simplesmente por ser uma situação tão favorável ao humor que se torna inesquecível. Existem dois personagens com problemas entre si e a resposta para isso é tão absurda e condizente que se torna engraçada. Joey fica em uma área estranha onde sua raiva e inocência (ou estupidez, dependendo do ponto de vista) resulta na decisão da caixa. Observe como isso vai sendo explorado sem pena até o clímax, combinando o contexto atual com aquilo que conhecemos do personagem e uma rima poética. As piadas recorrentes do personagem se destacam por aproveitarem esse arco de forma puramente cômica. O roteiro aposta muito naquilo que ele pensa que é raiva e todas as suas reações quando Chandler ironiza a sentença são hilárias, apoiadas por um Matt LeBlanc mais exagerado que o normal, trazendo ao personagem aquilo necessário para que ele não possa ser visto como o antagonista da história.
Em Chandler, predomina esse humor de proteção que se tornou uma de suas marcas ao longo da série. A travessura que ele faz com Phoebe de bater na caixa para fazê-la atender a porta é um dos destaques não apenas por ser engraçada, mas por ir mostrando esse lado do personagem que é desconstruído no final. Essa desconstrução é especial por trazer um caráter puramente dramático para a situação, reafirmando o elo dos dois personagens de um modo agradável. Além disso, a exclusão momentânea de Chandler enquanto ele está na caixa faz com que essas piadas pontuais sejam bem posicionadas, demonstrando como a estrutura do episódio também favorece sua eficiência. Assim, vemos como o constrangimento também torna-se um fator relevante, com o filho de Richard aparecendo e forçando que o roteiro repita a esquisitice da situação.
Por falar no filho de Richard, sua junção com Monica é feita de forma sensacional. A personagem teve com Richard o seu melhor arco até agora e trazer isso de volta termina sendo positivo. A sua aflição é utilizada até o fim, contribuindo não apenas para ela mesma como para que os outros personagens não fiquem perdidos. É relevante olhar como esse segmento é aquele com maior participação do resto do grupo, que usa de sarcasmo para julgar as atitudes de Monica. Isso permite que Phoebe, por exemplo, não fique deslocada na narrativa. Além disso, o momento em que Monica vai revelando todas as decisões questionáveis que aquelas pessoas fizeram ao longo do tempo é uma das melhores piadas de “The One with Chandler in a Box”, talvez mesmo até a melhor. O desfecho da situação é apropriado porque durante o episódio, a questão do desconforto não é abordada exclusivamente entre os dois, tornando a reação deles após o beijo um fim apropriado, subvertendo o ar puro que o roteiro vinha dando a relação.
Em um exemplo feliz de como a decisão do roteiro de aproveitar o dia de Ação de Graças para a reafirmação de relacionamentos, Ross e Rachel discutem sobre o fato de ela trocar os presentes que recebem. A obsessão do primeiro com esse tipo de atitude funciona perfeitamente com sua ex-namorada, pois o grande trunfo do casal é que, mesmo nos momentos difíceis, ambos possuem argumentos fortes sobre quem destruiu a relação. Nos últimos episódios, Friends veio apostando no elo fraco do relacionamento dos dois para criar humor, o que terminou sendo impossível. Em “The One with Chandler in a Box”, retornamos as características que vimos bem no início da temporada, atribuindo um vai-e-vem que transforma os dois em figuras mais humanas que se preocupam com sua história.
No fim, vemos um episódio muito inteligente ao entrar de cabeça em todas as situações que constrói, criando um ar de relevância para todas as histórias que funcionam em todas as cenas. Também é visto como o roteiro é capaz de aproveitar o ambiente para exibir o funcionamento deles como um grupo, o que é visto através do amigo secreto que é ignorado por todas as partes, sendo ainda mais engraçado por essa razão.














