
Spoilers e muitas hipérboles abaixo:
Todas as temporadas de Buffy possuíram certo tom específico, mesmo algumas possuindo muitas semelhanças, elas representam momentos tão diferentes nas vidas dos personagens que é impossível discordar da primeira sentença desse texto. Entretanto, de todos os diferentes climas apresentados ao longo dos sete anos, aquele de maior identificação veio durante a quarta temporada da série, um ano em que a Scooby Gang foi obrigada a enfrentar o mundo de peito aberto, relacionamentos e amizades se solidificaram de maneira tão forte que, mesmo não sendo necessariamente a melhor, fez com que a quarta temporada se tornasse a mais importante para aqueles personagens, o que basicamente prepara todo o terreno para as situações épicas do ano seguinte. Observando-se sem atenção, “Hush” já se posiciona como um dos episódios mais criativos e sensacionais da televisão, mas o que se vê aqui é algo muito mais importante para a série e seus personagens, algo comum nos melhores episódios da mesma, como vimos em “The Body”.
Mas, antes de analisar isso, tomaremos um tempo para falar o quanto a premissa do episódio em si é infalível, o que toma proporções gigantescas quando quem escreve tudo é Joss Whedon. O fator criatividade sempre foi importante na série por moldar o universo de Sunnydale, deixando ele tão maleável que dificilmente veremos situações sendo consideradas como forçadas (princípio crítico que é usado tantas vezes que se torna difícil de engolir), mas a audácia do roteiro aqui, de criar um episódio baseando-se na ausência de diálogos em todas as cenas após o primeiro ato, é sublime.
Por falar em roteiro, vemos que o trabalho de Joss Whedon aqui é bastante perspicaz ao tratar o vilão da semana, The Gentlemen, como nada mais que um personagem plano. Eles, produtos de um sensacional trabalho de maquiagem, possuem um semblante assustador, mas ao mesmo tempo tão simplista que os tornam em coisas ainda mais terrificantes, fazendo com que características básicas como o “andar” tornem-se incrivelmente desconfortantes. As ações do personagem, associado com o sonho profético de Buffy, trazem um efeito tão grande sobre a vida das pessoas que não precisamos de um grande conjunto de informações sobre quem eles são. Na maioria dos casos, ações são muito mais importantes que palavras para definir um personagem, o que faz com que a ausência de diálogos seja a maneira perfeita de mostrar, por exemplo, o quanto Xander valoriza seu relacionamento com Anya. A inteligência de Whedon no roteiro do episódio acontece nos momentos mais simples do episódio, quando pode-se observar no momento de definição do mal que ataca Sunnydale no específico dia. Ao invés de ser extremamente expositivo, como é o caso comum em situações como essa*, o roteiro usa a premissa que criou para desenvolver o seu típico humor, mesmo diante da adversidade. O momento em que Buffy tenta explicar como matar um gentlemen é meu momento preferido de qualquer série de Whedon. Aliás, a utilização do projetor é tão Giles que tudo se torna mais divertido.
* Melhor: sabe aquela parte de uma história policial comum onde é explicado todo o perfil do(s) suspeito(s)? Exatamente isso que o roteiro do episódio dribla de uma das maneiras mais sensacionais da história da televisão. Lembrando que eu avisei sobre as hipérboles lá no início.
É assustador como o clima de “Hush” se transforma em algo completamente diferente a partir do fim do primeiro ato. Um comentário comum que lemos quando vemos comentários sobre ficção é como o pânico traz o melhor das pessoas, mas, e quando aquelas pessoas não podem transmitir aquele medo? O momento** em que a Scooby Gang descobre isso é uma das cenas mais esplêndidas do episódio, onde entendemos a magnitude do medo daquelas pessoas diante de tal adversidade.
** Dica: Reveja a cena em que Willow e Buffy tentam conversar e faça leitura labial daquilo para entender como aquilo é mais sensacional do que parece.
A história criada por Joss Whedon é assustadora por si só, mas diversos elementos contribuem para elaborar o clima claustrofóbico que surge a partir do já citado fim do primeiro ato, como os planos fechados. Whedon comentou que se sentia estagnado no quesito direção durante aquela época, o que gerou decisões criativas como os já citados planos e um excelente trabalho por parte da trilha sonora, recheada de pianos e violinos bizarros durante todo o episódio, o que transmitiu todo o sentimento de terror que os diálogos não podiam passar.
“Hush” aproveita sua premissa de maneira espetacular em todos os quesitos, como quando Buffy comenta que ela e Riley não possuem facilidade em conversar, fazendo com que o episódio seja o momento perfeito para o (verdadeiro) início desse relacionamento justamente por ser um conjunto de cenas compiladas em quarenta minutos onde palavras tem uma função inexistente. Isso acarreta em ocasiões que são amplificadas por causa do contexto, como o primeiro beijo dos dois e a confrontação que eles possuem ao descobrirem mais sobre si mesmos. O final do episódio é uma excelente rima, onde se precisa conversar, mas as palavras não são encontradas, trazendo uma diferente função do silêncio: mostrar desconforto.
Aliás, definir relacionamentos diante do pânico silencioso é um dos trunfos do episódio e o que faz dele algo tão especial. Xander e Anya, como comentado anteriormente, tornam-se um sincero casal no momento em que o primeiro pensa que tem que salvá-la de Spike, que, mesmo não possuindo muito destaque, é bastante divertido com seus maneirismos. Anya, principalmente, atinge o ápice de sua inconveniência (ou seria doçura?), com seus gestos e a obsessão com orgasmos. Willow ganha uma parceira em Tara, uma relação que se torna instantânea no momento em que elas lutam juntas, mostrando que o medo é uma das melhores maneiras de unir personagens.
Agora, por favor, um minuto de silêncio em homenagem a “Hush”.
Em 2010, nós criamos a coluna Flashback para séries canceladas. Mas como a resposta não correspondeu limitações de tempo, reformulamos esse espaço para que ele possa abordar, em atualizações irregulares, um número diferenciado de episódios.





















