The Flash entrega um divertido musical com Duet, para fugir de sua própria realidade opaca.

Musicais não são simples de vender para o público, independente da série ou da proposta. Criar músicas originais para um episódio é um trabalho gigantesco, um que custou a Joss Whedon seis meses de trabalho para compor 15/16 músicas para seu especial de Buffy na sexta temporada, intitulado Once More With Feeling. The Flash optou por uma abordagem menos agressiva no campo da quantidade de canções, com apenas 4 músicas para Duet. Entretanto a quantidade não afetou a qualidade e no final o desejo por mais foi a resposta definitiva para um episódio mágico.

Duet tem uma trama bem simples, sem grandes rodeios e de certa maneira boba, fácil, como é pontuado por Kara durante o musical várias vezes. ‘Quem dera a vida ser tão simples como um musical’ é praticamente o tema do episódio. E toda a leveza foi uma ótima adição para uma temporada tão sombria e apática de The Flash. Apesar de não termos nada do grande vilão, Savitar, é um alívio também não termos nada do peso característico que a um dia tão leve e descompromissada Flash já teve.

“Minha irmã diz que eu coloco o Kara em Karaokê”.

Kara abre o musical cantando Moon River, uma canção não original do episódio. Composta por Henry Mancini a música cantada por Audrey Hepburn no filme Breakfast at Tiffany’s serve basicamente para delimitar a situação amorosa da Supergirl, fazendo uma pequena brincadeira com o nome do atual namorado da personagem, Mon-El. A letra diz “oh fazedor de sonhos, seu quebrador de corações” e em determinado ponto “dois viajadores, saindo para ver o mundo, tem tanto mundo para ser visto”, uma sequência perfeitamente adaptável ao romance entre dois viajantes das estrelas. É uma pequena parte e o único solo da última filha de Krytpon, mas muito bem executado.

Terminado o momento para explicar a trama daquele mundo musical, criado pelo Mestre da Música e baseado no amor que Barry e Kara sentem por musicais, desde a infância, é chegado o momento de uma nova infusão, com Put a Little Love in Your Heart. E que maravilha de música, senhoras e senhores, que maravilha. Cantada inicialmente por Jackie DeShannon, a música é uma composição da cantora, que a escreveu junto de seu irmão Randy Myers e Jimmy Holiday. Ela fala diretamente a respeito da falta de amor no mundo e em como tudo pode mudar caso você coloque um pouco de amor em seu coração. Mais do que apenas uma mensagem fofa para uma série que parece ter se esquecido desta mesma frase, este é o momento para termos ótimas participações. Jeremy Jordan é quem tem o melhor desempenho, em uma sequência digna dos shows da Broadway. O gostinho de quero mais no final é preponderante, assim como no restante do episódio.

“Eu não quis dizer como uma coisa de gênero eu só queria chutar a porta”.

Existem momentos em que o roteiro simplesmente se desvia da proposta do musical ‘non-stop’ e apela para uma história de amor, máfia e relacionamentos amorosos. É um desvio necessário, mas ao mesmo tempo destoante do restante da proposta de Duet. A verdade é que a vontade de ter um episódio abarrotado de músicas falou mais alto, muito mais alto do que meu desejo em ver Mon-El e Iris se beijando e brincando de Romeu e Julieta, ou West Side Story, a versão moderna do confronto da família Montecchi e Capuleti.

The Flash 3x17: Duet
The Flash 3×17: Duet

Entretanto, para que o dueto entre o casal de mafiosos ocorresse e a justificativa para que outros personagens que não Barry e Kara cantassem, foi preciso transformar tudo em pessoal. Sendo assim toda a conexão feita entre o relacionamento de Barry e Iris, Kara e Mon-El, foi cantando pelos pais de Millie e também pelo chefe da família Moran, o excelente e versátil John Barrowman. Neste momento vou confessar que a voz de Victor Garber ficou pesada demais para a de Digsby Floss, o Jesse L. Martin, mas que os cortes bem encaixados e a combinação da voz dos três, Barrowman, Garber e Martin, casou perfeitamente. Pontos positivos também por terem feito de Garber e Martin um casal, que também nos garantiu um ótimo momento para o Barry, um que expôs o humor e carisma de Grant Gustin e que o arco sombrio da série apagou quase totalmente neste terceiro ano. Ver Barry se divertindo e amando aquilo, além da frase “eu gosto de musicais, então…” é apenas a prova de que Flash precisa ficar mais tempo presa em dimensões onde tudo é mais simples e o peso do mundo não reside nas costas do protagonista o tempo todo.

Finalmente então entramos em Super Friend, a mais divertida da noite e escrita por Rachel Bloom e Tom Robot. Rachel, que também faz parte da família CW, interpreta uma personagem que não é estranha ao mundo dos musicais. A nossa Crazy Ex Girlfriend criou então um tipo de canção carregada de humor, com traços leves e letra brincalhona, algo que aproveita ao máximo a química entre Melissa e Grant, além de provar de uma vez por todas que o potencial para que mais episódios do tipo surjam entre The Flash e Supergirl é imenso. E para ser honesto eu aceitaria que Rachel tivesse escrito pelo menos mais duas para Duet.

Tudo é coroado pela ótima Running Home to You, de Benj pasek e Justin Paul, os mesmos do filme La La Land. Este não é apenas um ótimo momento para Grant Gustin mostrar todo o seu potencial vocal, mas uma maneira inteligente de lidar com o romance entre Barry e Iris, além de mostrar uma perfeita infusão de sentimentos dentro de um casal que por vezes é bem sem graça.

“Can’t say how the days will unfold. Can’t change what the future my hold. But I want you in it. Every hour, every minute”.

A revelação de que o Mestre da Música é na verdade um grande ‘médico’ de relacionamentos, viajando pelo multiverso para resolver problemas pessoais e sentimental foi uma ótima maneira de abordar um possível vilão. Qualquer outra saída deixaria tudo bem limitado. Dessa forma a abertura para um retorno é grande. E teria sido de grande ajuda há um tempo, em Arrow, enquanto Oliver e Felicity arrastavam a trama da produção com seu romance pouco resolvido e cheio de dilemas.

No fim, apesar de ter alguns problemas, Duet é exatamente o que The Flash precisava, uma pausa para nos lembrar de como a série pode ser descompromissada e de como seu protagonista tem potencial para ser leve, divertido e ao mesmo tempo heroico. Com interações ótimas e resoluções que ajudaram tanto Supergirl quanto Barry a resolver seus problemas de relacionamentos, a impressão final é a de uma ótima “fuga” da realidade para criar um evento memorável para a temporada e em se tratando do atual ano do Corredor Escarlate, qualquer desvio da nuvem de tragédias é um ótimo capítulo.

> Punho de Ferro, Crítica Sem Spoilers!

Easter eggs e outras informações de Duet:

– Tommy, nome do filho de Cutter Moran, é uma óbvia conexão a Tommy Merlyn, filho de Malcolm que morreu na primeira temporada de Arrow.

– Kara fez várias referências ao Mágico de Oz, como por exemplo bater seus sapatinhos três vezes, seguir a estrada de tijolos amarelos e as frases ‘não há lugar como o lar’ “e você estava lá, e você estava lá”, que é o que Dorothy diz quando encontra no Kansas as pessoas que também estavam no mundo de Oz.

– Barry diz em determinado momento ‘curiouser and curiouser’, frase utilizada por Alice em Aventuras no País das Maravilhas’.

– Apesar deste episódio marcar uma reunião de atores que estiveram em Glee, ele também reuniu Carlos Valdes (Cisco Ramon) e Darren Criss (Mestre da Música), que fizeram faculdade juntos, na Universidade de Michigan.

REVISÃO GERAL
Nota:
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flash-3x17-duetDuet é exatamente o que The Flash precisava, uma pausa para nos lembrar de como a série pode ser descompromissada e de como seu protagonista tem potencial para ser leve, divertido e ao mesmo tempo heroico.