Power Rangers é um filme desequilibrado: há coisas muito legais e coisas muito ruins. O gosto que fica é que poderíamos ter visto algo muito mais interessante.
Por trás de uma grande expectativa de alguns fãs e pela indiferença ou até mesmo pelo pessimismo de outros, Power Rangers, o reboot de 2017 está entre nós e devemos lidar com isso. Devo lembrá-los que esse texto abordará diversos pontos da trama, ou seja, haverá SPOILERS para melhor debatermos sobre o assunto.
Como mencionado nas primeiras linhas desse texto, o filme é bastante irregular. Ao começar pelo primeiro ato, que é bastante conveniente ao apresentar os personagens em situações extremamente forçadas. Por exemplo, o início da relação Billy/Jason e Kimberly/Jason. Diálogos mal construídos e situações muito ao acaso demonstram essas amizades construídas a partir da vontade do roteirista. Somados a eles, Zack e Trini são jogados na situação na qual eles encontram a entrada da nave de Zordon por pura questão de comodismo.
As coisas começam a ficar interessantes quando há esse primeiro ponto de virada do roteiro e os personagens conhecem Alpha e Zordon. O primeiro foi uma grata surpresa, levando em consideração que eu nunca liguei muito para ele e nas fotos de divulgação eu havia achado seu design estranhíssimo, porém é um personagem bastante divertido. Se ele não existisse, provavelmente não faria diferença nenhuma à história, mas também não chega a atrapalhar. Já Zordon, interpretado por Bryan Cranston, ganha outra interpretação. Mais rígido e até mesmo mais ríspido com seus pupilos do que a versão vista na série de TV, Cranston trabalha em sua zona de conforto e não há um grande destaque, apesar dele fazer bem esse papel de mentor.

Em relação à vilã Rita Repulsa, Elizabeth Banks, um dos primeiros nomes escalados para o filme, entrega uma versão totalmente avessa à vista na TV. Com um toque de terror, Rita é nojenta, tenebrosa, esquisita e amedrontadora. Banks conseguiu imprimir um ar espalhafatoso e exagerado, como visto diversas vezes em que grita pelo seu objetivo durante o longa, porém ela não soa cafona em nenhum momento. O filme não dá muita margem para Rita apresentar outras camadas, por isso, infelizmente, saímos do cinema com a sensação de que ela foi uma vilã bem superficial, o que não estaria errado. O que nos marca mesmo é a interpretação da atriz. Quanto a isso, sou somente elogios. Quero muito vê-la novamente.

Jason, o atleta que afundou sua carreira, é o protagonista do filme. Juntamente com ele, Billy e Kimberly são os demais que tem um aprofundamento maior. Zack e Trini têm um papel menor, porém, suas histórias são apresentadas posteriormente da mesma maneira que os demais. O desenvolvimento de todos os protagonistas é bastante problemático individualmente. Por exemplo, Jason não consegue melhorar sua relação com seu pai até o fim do filme. Entretanto, é no relacionamento entre os personagens que o filme cresce. Após entrarem na nave pela primeira vez, os protagonistas desenvolvem uma relação muito bonita. A amizade criada entre eles é palpável. Você se sente parte do grupo também. O autismo de Billy e a orientação sexual de Trini, revelada em uma cena extremamente tocante, foram aspectos inseridos nessa versão que os humanizam e isso facilita muito a empatia do público. É a importância da representatividade.

Infelizmente, o filme apresenta grandes defeitos. Jason é o líder porque Zordon disse que ele é. Rita traiu o seu grupo simplesmente porque ela quis. Goldar é extremamente vazio de carga emocional, afinal, é um inexpressivo bonecão gigante de ouro (recentemente houve uma justificativa sobre essa escolha), Zordon querer voltar à vida foi subitamente jogado na trama e que contrasta com tudo que havia sido mostrado até então. Nessa cena, aliás, é injustificável o retorno de Jason ao encontro do mentor. Porém, um dos pontos que mais se destaca negativamente são alguns diálogos que soam extremamente falsos. Por exemplo, era mesmo necessário mostrar todos os Rangers dizendo que morreriam por Billy? Nós já havíamos entendido a mensagem. E o que dizer sobre o desfecho anticlimático da luta final? O filme estava arrebentando. Os heróis conseguiram as suas armaduras, lutaram contra os bonecos de massa (outra boa atualização dessa versão), dirigiram os Zords (com direito à música tema clássica: arrepiante) e lutaram muito bem contra Goldar, mostrando um tremendo trabalho de equipe. Infelizmente, o ritmo é quebrado quando eles pensam ter derrotado Rita e depois são jogados no buraco. Um dos momentos mais legais da série de TV era vermos os Zords se unirem e montarem o Megazord. Conseguíamos notar onde cada robô se encaixava. Infelizmente, a impressão que tive quando o brinquedo do atual Megazord foi revelado se mostrou verdadeira: ele não passa de um robozão genérico que é praticamente impossível identificar onde cada Zord está em seu corpo. O pior de tudo foi a montagem do robozão ser feita fora das câmeras. Pra fechar com chave de ouro (juro que não foi uma piada com Goldar), não houve aquela espada secreta para finalizarem o monstro (a escolha de utilizarem partes da asa do Pterodátilo não foi visualmente chamativo) e Rita foi derrotada ridiculamente com um tapa, sendo jogada para o espaço. Falando assim, parece piada ou parece algum episódio de Dragon Ball, mas não é. Decisão totalmente contraditória com a proposta mais realista do filme.

Geralmente, sou bastante favorável a ideias de reboots, remakes e afins. É uma nova interpretação de um artista diferente sobre determinada história. Nesse sentido, Power Rangers se saiu muito bem nesse aspecto. Repaginado e com novas ideias, o filme mostra adolescentes fazendo atitudes estúpidas (afinal, são adolescentes) em um processo de aprendizagem em que novas interpretações e conceitos são apresentados. Apesar das fraquezas, o longa se destaca na química entre seu elenco e se fortalece nessa nova visão sobre a série. Se a franquia continuar no cinema (e eu torço para isso), temos que ver o crescimento e amadurecimento desses personagens no próximo filme. A cena no meio dos créditos, na qual Tommy Oliver é citado, é o gancho previsível para a continuação. Só nos resta torcer para que a produção aprenda com os erros desse filme e nos entreguem um material mais crível e empolgante.
Curiosidades:
– O sobrenome de Billy Cranston é uma homenagem à Bryan Cranston, o qual dublou diversos vilões na série clássica. Essa homenagem vem desde a série de TV.
– A data de 1973 na camiseta de Trini é uma referência à data de nascimento de Thuy Trang, a Trini original.
– Amy Jo Johnson e Jason David Frank, Kimberly e Tommy originais, fazem uma ponta especial no fim do filme como civis.

– O design de Rita Repulsa foi baseado na vilã Scorpina da série de TV.

Especulações sobre uma possível continuação de Power Rangers:
É preciso ressaltar que ainda não foi confirmada nenhuma informação oficial sobre uma continuação. Há planos para sete filmes, então baseados no que esse primeiro apresentou e no material fonte, podemos começar as especulações.
Primeiramente, sobre o envolvimento de Tommy Oliver no próximo filme. Tommy inicialmente é um vilão e posteriormente se junta ao grupo dos Rangers. É bastante difícil termos uma ideia sobre o que vai acontecer, pois Rita ter sido uma Ranger Verde no passado traria uma repetição da mesma história. Novamente teríamos um vilão com uma armadura verde dos Power Rangers.

… mas não tivemos ainda ESSA armadura propriamente dita.
Fica um pouco implícito que Rita cairia na Lua ao final do filme, porém, poderíamos muito bem não termos ela como vilã no segundo filme. Lord Zedd é a primeira figura que nos vem à mente e acho que seria uma escolha óbvia. Ele é o principal vilão que surge após Rita e não fugiria muito da sequência de vilões originais. O Império Máquina surge em Zeo e Divatox em Turbo. Duvido que tragam Astronema já para o segundo filme.

Os cristais Zeo são um ponto chave deste primeiro e não seria estranho se os Rangers se transformassem já em sua forma Zeo no próximo filme. Entretanto, acredito fortemente que isso não acontecerá. Primeiramente, eles precisam se estabelecer como heróis, precisam enfrentar Tommy como ranger verde, precisam JUNTAR o Megazord com o Dragonzord e eu aposto que no próximo filme acontecerá alguma tragédia. É sabido por todos os fãs a mudança de liderança na equipe. Na série, Jason, Zack e Trini são substituídos e Tommy se torna o líder da equipe, permanecendo no posto até a fase Turbo. O segundo filme poderia abordar a relação entre Jason e Tommy com a morte do primeiro ao fim da história. O time poderia ser bastante prejudicado por Lord Zedd, por exemplo, sendo necessário recorrerem ao uso dos cristais Zeo, porém, sem utilizá-los, deixando para um terceiro filme a introdução dessa nova armadura. Teríamos que encontrar espaço para o também muito famoso Ranger Branco… Complexo! Quais são as apostas de vocês? Deixem nos comentários!
Go! Go! Power Rangers!















