The Flash se despede de 2016 com erros e acertos em The Present
Acertar é mais difícil do que errar, essa é a lei fundamental da vida – e das séries, especialmente aquelas baseadas em histórias em quadrinhos. O que The Flash vem fazendo semanalmente, porém, é um grande jogo de repetição em cima de uma fórmula que aparentemente continua funcionando para o público geral, mas não mais para o andar da produção. Em seu último episódio de 2016 a série balanceou aspectos que a fazem voltar no tempo, literalmente, enquanto mesclou outros importantes para a compreensão dos personagens como um time que funciona muito bem junto, independentemente da quantidade de segredos que eles venham a guardar uns dos outros.
É uma pena que a série continue desprezando seu aspecto mais forte, conforme vimos durante a cena em que Jay enfrenta o Trickster na Terra 3, a diversão ao redor de uma produção de super-heróis – sua leveza. É sim necessário que existam momentos de introspecção e dor, afinal, o luto também é parte marcante da trajetória de todo herói em histórias em quadrinhos, mas negar ao telespectador semanalmente aquilo que fez da série um sucesso durante a sua primeira temporada é, no mínimo, cruel. Existe qualidade e também tensão, The Present foi cheio destes momentos, mas o núcleo permanece dividido entre o sofrimento constante e o luto presente.
Revelar o que nós já sabíamos a respeito de Julian é reutilizar a fórmula já praticamente esgotada da série ao lidar com seus antagonistas. Com a montagem do passado de Julian e do encontro da pedra filosofal, uma teoria já difundida entre os fãs se tornou realidade. No final o personagem é apenas um peão dentro do jogo criado por Savitar. Mas ainda é preciso ir além e dar ao grande deus da velocidade um aspecto menos animalesco. Em algum momento Savitar irá receber seu aspecto humano, mesmo que ele surja dominando a forma de outro personagem. Talvez o próprio Wally West esteja fadado a agir como vilão por algum tempo, já que o preço para seus poderes deverá ser cobrado eventualmente. E temo pelo futuro da trama, que se assemelha ao que acompanhamos durante o surgimento de Zoom.
Qual a ideia central desenvolvida pelos criadores da série para o futuro de The Flash? Substituir a viagem ao passado pela visita ao futuro não é a maneira correta de avançar com a história do personagem. Inserir o protagonista da série no mesmo tipo de drama recorrente é, atualmente, o pior pecado cometido pela produção. Independente do tema escolhido, sempre terminamos com o velocista enfrentando um vilão que quer testá-lo, ou que o odeia. Neste caso existe a mescla da trama de Zoom e também do Reverso, já que Savitar, assim como Eobard, veio do futuro para desafiar o Corredor Escarlate após ser derrotado. É preciso, em algum momento, que o herói que não aparece e é apenas mencionado, surja em nossas telas.

Começamos então a nova investida da série para seu segundo arco utilizando ferramentas já conhecidas do público. O segredo que Barry guardará de Iris e sua visão do futuro deverá permear a trama dos próximos episódios, não duvide. E então o que teremos para o retorno de The Flash? Existe uma grande diferença entre a série do Corredor Escarlate e a do Arqueiro Verde. Ambas sofreram problemas durante sua terceira temporada, mas o que jamais poderei afirmar a respeito de Arrow é a reutilização de tramas e batidas para continuar com sua trama. Falta um pouco mais de risco por parte do time criativo de The Flash, um que já está cobrando o preço da história repetida apresentada aqui.
Savitar é sim imponente e impõe um grande risco, mas até mesmo ele já está cansativo em sua abordagem. Pela terceira vez o vimos carregando um velocista, jogando-o contra paredes e desaparecendo. É mandatório que algo diferente seja feito e mesmo que a audiência permaneça fiel, o ritmo da história precisa se renovar para permanecer relevante. O escolhido aqui foi uma viagem ao futuro, mostrando o vilão, finalmente, matando alguém. Contudo a mera revelação de que Iris é aquela que morrerá já mostra que não será este o resultado do evento futuro daqui cinco meses. Flash já está famosa por suas cenas que não condizem com a realidade e reconhecer que este padrão se instalou dentro do roteiro da série é muito ruim.
Do lado do que funcionou, porém, tivemos ótimas e válidas interações entre os personagens, incluindo o final entre Barry e Iris, além dos conselhos dados por Jay. Apesar do Barry ainda se comportar como o homem que precisa salvar tudo e a todos independente das consequências, já começo a vê-lo como um protagonista mais preparado para lidar com tragédias. É complicado ter nas mãos os poderes de um deus, especialmente quando temos em jogo o destino das pessoas que amamos, mas é o que nos faz humanos e nos separa dos vilões. Após um evento crossover em que uma invasão alienígena teve início graças as intromissões de Barry na linha do tempo, era de se esperar que a última ideia do Corredor Escarlate fosse a de utilizar este recurso para resolver seus problemas, mas novamente foi a primeira sugestão feita pelo senhor Allen.
Mas para cada decisão errada do Barry, ainda existem momentos bons de interações entre o time. H.R. é um personagem dúbio, mas vê-lo ajudando Wally ajuda a impulsionar um personagem que não tem muito o que fazer, pelo menos não até ter recebido o uniforme de Kid Flash e o aval da família para começar a agir como herói. E a pegada mais leve que gira ao redor das interações entre os dois é um lembrete do que Flash costumava ser durante sua primeira temporada. É preciso sim ver o herói que carrega o nome da série trabalhando como um super-herói. Ter Jay utilizando seu capacete para parar as balas do Trickster é um dos pontos que faz falta semanalmente dentro de Flash, porque é simples e não impõe o peso do mundo nas costas do protagonista. Então mesmo que o Flash já não possa mais se intrometer com o passado, teremos a partir de janeiro uma nova missão, a de tentar encaixar na história a profecia feita por Savitar: “Um irá trair. Um irá cair. Um sofrerá um futuro pior que a morte”. Só espero que nenhum destes sejamos nós, os telespectadores.
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Easter eggs e outras informações de The Present
– Algo me leva a entender que a profecia faz conexão com a família West. Wally deverá ser o traidor, já que o ritual do Alquimia estava tentando prender os meta-humanos gerados pela pedra filosofal aos desejos do Savitar. Alguém cairá, só resta saber se será Iris ou Joe. E por último, aquele que sofrerá um destino pior do que a morte – talvez ver ambos os filhos caídos, ou perder o pai?
– Finalmente tivemos o primeiro contato com a Terra-3, cheia de dirigíveis voadores. Isso é tão Fringe.
– Ter Mark Hamill e John Wesley Shipp interagindo novamente, como Flash e Trickster, é uma ótima homenagem a série The Flash dos anos 90, em que ambos interpretavam o mesmo papel – com a diferença de que lá Wesley não era Jay, mas sim Barry Allen.
– Banco FOX, aquele que foi assaltado pelo Trickster, é uma menção ao Gardner Fox, criador do Jay Garrick.
– Rua Infantino é uma homenagem a Carmine Infantino, responsável pela criação de vários personagens na Era de Prata dos quadrinhos, incluindo Barry Allen.
– Julian Albert Desmond é o nome do Alquimia nas histórias em quadrinhos e foi revelado em The Present como o nome completo do Julian da série.















