Um conto sobre Ohanzee Dent.

Uma das coisas que mais dá prazer de acompanhar em uma história é o desenvolvimento de seus personagens. A forma como eles são apresentados e como eles terminam faz toda a diferença para que tenhamos empatia pela trama. Quando os personagens são bem construídos até relevamos plots fracos ou pouco criativos. E dentro de todas as maravilhas que compõe essa obra fantástica chamada Fargo, o desenvolvimento de seus personagens é algo que merece ser reconhecido.

E eu poderia passar a review inteira discorrendo sobre como Peggy e Ed formam um dos casais mais bem construídos, com uma relação que não apresenta quase nada de clichê, ou como o roteiro consegue nos fazer torcer por Lou e Larsson e de igual forma nos fazer antipatizar com os policiais das Dakotas do Norte e Sul, de forma que vibramos quando vemos seus miolos explodindo nas paredes, ou como Mike Milligan, mesmo tendo feito muito pouco até aqui em termos de ação, consegue nos deixar apreensivos com suas maquinações. Ao invés disso, quem merece todo o destaque nesse excelente The Castle é Hanzee. A forma gradativa que o personagem foi ganhando importância dentro da trama foi algo surpreendente. Estou muito feliz por Zahn McClarnon ter um personagem de real relevância, pois o ator já se mostrou muito capaz.

Se algumas vezes o que vemos é um personagem ir definhando até cair no esquecimento, aqui temos o processo inverso. Quem imaginou, lá no início da temporada, que o principal responsável por arquitetar o famigerado massacre em Sioux Falls seria ele? Ou que ele seria o responsável por acabar de uma vez por todas com a família Gerhardt? E apesar disso tudo, a decisão mais acertada de Noah Hawley é deixar suas motivações ambíguas. Pode ser qualquer coisa, indo de vingança pela forma como sempre foi tratado até um possível TEPT depois da guerra, e como o livro História do Verdadeiro Crime do Centro Oeste fez questão de frisar, jamais saberemos realmente o que ocasionou este “surto”.

Aliás, é muito providencial o formato do episódio, pois mesmo que implicitamente, ele nos conta algumas coisas sobre esta temporada confusa que tivemos. Ao mesmo tempo em que temos uma das séries mais realistas do ponto de vista psicológico de seus personagens, esta segunda temporada nos entregou também elementos fantásticos, como a aparição dos ufos. E tal qual as possíveis motivações de Hanzee, aqui, as explicações podem ser as mais variadas. Desde uma brincadeira à década retratada, em que muitas pessoas juraram ter visto objetos voadores no céu, a uma metáfora às condições de existência dos personagens. Percebam que a narração nos conta que “os historiadores” não possuem todas as informações de forma precisa, e isso indica que tudo o que estamos vendo na temporada é do ponto de vista de alguém, e não uma história precisa dos acontecimentos. Desse ponto de vista, os discos voadores podem ser ou podem não ser reais. Também percebam que cada vez que os discos aparecem, alguém morre (como o Rye, lá na season première, logo antes de ser atropelado). Além de trazer a morte para a família Gerhardt, eles são os responsáveis diretos por toda a mudança ocorrida na vida de Peggy e Ed. O livro também nos abre precedentes para as próximas temporadas, afinal existe a possibilidade de que cada temporada seja uma espécie de capítulo deste livro.

A cena do massacre foi entregue como prometida. Tudo nela funcionou muito bem. Além da violência e sangue esparramado no concreto do motel, tudo nela funcionou para ela fosse uma das melhores sequências (se não a melhor) de toda a série. A cena, à la tarantinesca, soube construir de forma magistral a tensão enquanto os policiais conversavam sobre mijo e a família Gerhardt chega ao motel. Obviamente a trilha sonora também merece destaque. O trabalho que Jeff Russo está fazendo à frente da sonoplastia da série merece ser aplaudido de pé. Além de escolher as músicas exatas para dar o tom pretendido à cena, os efeitos sonoros em si também são bastante eficientes. A música de suspense tocada enquanto a família cercava o motel com seus homens foi de gelar a espinha. E apesar de todo o tiroteio e morte ocorrido, a cena que mais se destaque é o embate entre Lou e Bear. Gente, o cara foi um monstro avançando para cima do policial mesmo levando todos aqueles tiros, e a coisa toda é tão bem construída que é justamente nesse momento “mais íntimo”, na falta de um termo melhor, que realmente ficamos com medo. E isso porque sabemos que Lou será um dos sobreviventes, imagine então se não tivéssemos essa certeza. Que cena, meus amigos, que cena.

É isso. Fargo chegou ao seu ápice. Cada cena que passa nos transmite a certeza que absolutamente tudo, desde o começo, foi planejado, e nada é ao acaso. Mesmo as cenas mais desconexas, quando revistas, se mostram com propósito. Alguém lembra como a série abriu a temporada? Com um trecho do filme The Great Sioux Massacre, com um índio esperando “pelo holandês”. Ao final, temos o índio da nossa história promovendo o massacre em Sioux Falls, e com o título do último episódio sendo “Palindrome”, não tenho dúvidas que tudo estará conectado. Que venha a season finale.

Em tempo 1: Com tanta coisa acontecendo, a morte de Betsy passou quase batido. Que pena.

Em tempo 2: A narração do episódio foi feita por ninguém menos que Martin Freeman. \o/

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