Finalmente, após um longo prelúdio de três episódios, Falcão e o Soldado Invernal converge suas histórias e entrega um roteiro mais amarrado, uma vez que parece adicionar os últimos elementos necessários para contar sua trama e também melhor trabalha tudo que havia sido introduzido até aqui.

O Mundo Está Vendo é intenso e alarmante em diversos aspectos, fazendo com que a série finalmente nos cause uma revolta mais urgente por finalmente sair do campo das insinuações e dos sub-textos para nos mostrar resultados concretos das consequências devastadoras ao confrontarmos figuras tão perigosas como extremistas e supremacistas.

A cena escolhida para iniciar o episódio, uma recordação de Wakanda, tem duas motivações bem claras, a primeira é nos relembrar o passado e conexão de Bucky com a nação africana que o abrigou, e a segunda é descortinar com mais clareza um momento que o MCU estava nos devendo: A libertação total do Soldado Invernal.

Bucky Barnes é um dos personagens mais complexos que a Marvel tem ousado trabalhar em suas tramas, uma vez que traz consigo uma série de temas complexos e maduros que, se não forem bem tratados, se tornam rasos e, pior ainda, um desserviço por conta do risco de se banalizar e enfraquecer uma discussão tão importante quanto traumas e distúrbios psicológicos. Apesar de não explorar a problemática da forma profunda e consistente que esta merece, talvez pelo fato da classificação e própria estrutura do MCU não permitir uma total abordagem, devemos aplaudir o esforço das grandes mentes por traz desse universo por dar pelo menos uma atenção satisfatória ao estresse que foi vivido por Bucky.

E por atenção satisfatória me refiro ao dever de casa bem feito dos roteiristas, isto é, quer seja de forma superficial ou não, vimos praticamente a jornada inteira de Bucky desde sua apresentação, sem grandes janelas. O soldado que lutou pelo seu país foi torturado até sua mente se romper e se tornou a inexpugnável máquina de matar da maior organização criminosa da história mundial, matando e destruindo tudo ao seu redor sem o menor controle de seus atos, e, assim que começou a quebrar a jaula psicológica que lhe prendia, descobriu que seus atos foram muito catastróficos que poderia imaginar, com as consequências surgindo bem ao seu lado e reivindicando responsabilizações. Após isso, passamos a acompanhar seu processo de reabilitação e reencontro consigo mesmo, um passo importante para pessoas que sofrem de estresse pós-traumático, porém o exato momento da constatação da libertação ainda não tinha sido mostrado, e tivemos isso com uma cena simples porém poderosa que precisou apenas de pouco diálogo e o talento de Sebastian Stan e Florence Kasumba para ser eleita uma das melhores sequências da série.

Se intercalando com alguns dos momentos mais destrutivos do Soldado Invernal que já conhecemos, a montagem da cena precisou apenas de um ambiente reduzido e poucos minutos para mostrar o renascimento de Bucky, sem a necessidade de técnicas cinematográficas grandiosas para construir o melhor momento do personagem até então, com boa parte do mérito devendo ser dada à Stan por conseguir demonstrar o quanto conhece o Bucky e o quanto, assim como o público, está aliviado para finalmente vê-lo construir uma nova história.

E vimos muito da gratidão que Bucky sente por Wakanda ao longo do episódio, através de suas interações com as Dora Milaje, aqui comandadas por Ayo, a segunda em comando das imbatíveis guerreiras (apesar de gostar de ver que as Dora não se limitam à Okoye, senti falta da general real). Resoluta, Ayo quer Zemo para enfrentar a justiça wakandana, uma vez que este é o grande responsável pela morte do Rei T’Chaka no atentado terrorista do Soldado Invernal em Capitão América: Guerra Civil. Por sentir que tem uma dívida com Wakanda e por entender que Zemo precisa sofrer as consequências da justiça do país que afetou com seus planos egoístas e sua ideologia errada, Bucky aceita por entrega-lo, o que acarretará no confronto cheio de lados mais à frente do episódio.

E é justamente de lados e ideologias que o episódio é recheado, o que o  torna difícil de digerir por se basear fortemente em discursos e convicções, o que não poderia ser diferente, haja vista que a série desde seu primeiro episódio, ao apresentar tantas divergências e discussões sociais, caminhava para tal colisão, então não podemos dizer que não estávamos sendo preparados para isto.

Quem encabeça esse viés mais interdiscursivo do episódio é Karli, com a brilhante entrega de Erin Kellyman que conseguiu trazer toda sinceridade e peso da personagem ao aproveitar que a série decidiu, enfim, expor a plenitude de suas motivações e  filosofia. Pela primeira vez vemos os Apátridas de forma crua e humana, e pela primeira vez conseguimos, se não nos compadecermos, ao menos entendermos e aceitarmos com mais facilidade suas justificativas, mesmo que estas venham acompanhadas de atos extremistas e mesmo que tais atos, na prática, ainda não signifiquem muita coisa.

Em um mundo que colapsava devido ao sumiço repentino de metade de sua população, foram as pessoas hoje marginalizadas que ajudaram a reerguer grandes potências. Agora, com o retorno dos desaparecidos, essas pessoas perderam sua casa, seu trabalho, sua vida…se reduzindo à praticamente párias, esquecidos na história. Uma comparação que gosto de fazer é imaginar essas pessoas como operários de suntuosos edifícios comerciais, que dão o seu suor e sua força para erguer construções que, quando prontas, não se lembrarão de agradecer seus nomes, e sim se preocuparão em pendurar em suas paredes retratos de seus grandes executivos e diretores. É a disparidade social em sua forma mais agressiva, porém camuflada por um sistema capitalista que acredita justificar-se em degraus sociais. Cada um com sua função, e posição, para fazer as engrenagens econômicas girarem.

Alguns podem reclamar que o diálogo entre Sam e Karli foi expositivo e até artificial demais, porém acredito que foi uma manobra necessária para se tirar de vez a névoa que envolve as motivações de Karli e, de quebra, se trabalhar mais a personalidade pacifista do Falcão, que busca a conversa e o acordo antes de partir para as vias de fato, algo que difere muito de John Walker e até mesmo Bucky Barnes. Gostei de ver o destaque dado a Sam aqui, dando mais uma oportunidade para Antonhy Mackie se sobressair como o protagonista de sua série. Precisamos conhecer mais do personagem, suas maneiras de resolver os conflitos e de lidar com pressões psicológicas

E Karli, aos poucos, foi desmontando suas defesas e quase conseguimos vê-la aceitar os argumentos de Sam, porém, devido ao estouro de Walker, tudo veio abaixo, fazendo com que a jovem reassuma seu papel revolucionário e decrete, ainda por cima, a morte do ideal do Capitão América.

Porém, antes de falar da mancha do símbolo, precisamos abordar o arco envolvendo as Dora Milaje, Zemo e o soro de super-soldado. O Barão reforçou seu desprezo por heróis, em especial aqueles que necessitam de artifícios como o soro para serem idolatrados como deuses. Sim, a supremacia dos heróis é algo que definitivamente ocorreria em um mundo real, inclusive seria tão fácil ver figuras corrompidas se passarem por heróis que o universo da série, mesmo com todo o seu imaginário, é incontestavelmente crível. Por isso, Zemo mais uma vez se afasta da pura vilania para se tornar uma figura humana e heterogênea, mesmo que, de forma alguma, seja confiável.

E para lembrar Zemo que ele ainda não está livre de seus crimes, e que Wakanda não se submete à qualquer outro sistema legal mundial, as Dora Milaje surgem, nos presenteando com uma das melhores sequências de ação da série quase no estilo todos contra todos onde não sabíamos exatamente para quem torcer mas que sabíamos que Walker deveria levar a maior surra. Gosto muito do estilo de luta dessas guerreiras e tê-las na série foi uma grata surpresa, espero que possam continuar a ganhar seu destaque nesse universo. E claro, qualquer pessoa que consiga dar Walker como vencido deve ganhar nosso respeito.

A derrota para as guerreiras foi o estopim para se virar uma chave na cabeça do novo Capitão América. Humilhado, constrangido e incrédulo por não dar conta do combate, Walker vê no soro a oportunidade perfeita para se igualar de vez à Steve Rogers e se tornar o herói que a América clama. Seu desejo pelo soro, apesar de não tão notório, sempre esteve ali, contrastando com o discurso de Zemo sobre os perigos da idolatria de heróis, principalmente dos corruptíveis. E como bem foi lembrado, o soro melhora o que já é bom e piora o que já é ruim, o resultado foi o que vimos na cena final do episódio.

Que John Walker iria sucumbir uma hora ou outra aos seus instintos mais agressivos, isso já era claro, porém acredito que ninguém poderia prever o que O Mundo Está Vendo estava nos reservando. A morte de Estrela Negra, seu parceiro que, querendo ou não, ainda era uma liga de Walker aos seus valores morais, foi abrupta e chocante, fazendo com que o Capitão finalmente chegasse ao seu propósito de quando aceitou carregar o escudo: Defender a América criando sua própria história, se afastando de todo o caminho e glória conquistados por Steve. O grito da sociedade pelo Capitão continua na mesma intensidade mas agora o homem que recebe esse clamor é diferente, e o assustador é que, se a série continuar seguindo o caminho realista que vem percorrendo, Walker continuará recebendo todo o clamor, mesmo que de pessoas agora bem diferentes.

Precisaríamos de muito mais espaço para analisar com detalhes as implicâncias de uma atitude extremista e o encanto que causa em pessoas que compartilham do mesmo pensamento. Porém, a série a todo momento nos instiga a esta reflexão, quer seja digerindo o nacionalismo deturpado de Walker ou a falta deste dos Apátridas e acredito que continuará esticando esse debate em seus dois lados, se quiser, claro, manter seu próprio raciocínio.

Quero dizer com isso que, o descontrole de Walker de matar impiedosamente um homem rendido – e que nem fora diretamente responsável pela morte de Lemar – com certeza deverá ter consequências não tão boas para o Capitão, mas de forma alguma será unanimidade. Por acaso seria se algo assim acontecesse em nossa sociedade, tão dúbia e tão propensa a execrar tudo aquilo que não acredita, não concorda e não legitima?

Ao assassinar um fã fervoroso da lenda do Capitão América, Walker mancha muito mais que seu escudo, mancha uma história, um ideal, um símbolo. Distorce inteiramente tudo que Steve construiu e representou e se ergue como um homem que de forma alguma merece ser chamado de Capitão América pelo legado que o título carrega, mas que se tornou um por representar tudo aquilo que a nação mais patriota do mundo até tenta esconder, mas não consegue deixar de ser.

Esta semana, Falcão e o Soldado Invernal enfim tenta tornar sua narrativa mais clara e explicada, mesmo que para isso precise lançar mão de cenas e diálogos expositivos demais. No entanto, já estava na hora de confrontar suas histórias e deixar seus conflitos mais claros, principalmente agora que tantas ideologias se chocaram até espirrarem sangue. E agora, conforme o próprio título do episódio já antecipava, o mundo está vendo. Resta saber se concorda e irá incentivar para que tais valores continuem ganhando força e visibilidade.

REVISÃO GERAL
Nota:
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falcao-e-o-soldado-invernal-1x04-o-mundo-esta-vendoApós um longo prólogo, Falcão e o Soldado Invernal converge suas histórias e entrega o resultado calamitoso que veio anunciando desde seu princípio.