Após estabelecer sua dupla de protagonistas em Nova Ordem Mundial, Falcão e o Soldado Invernal começou de vez sua história em O Herói Americano, desta vez dando um enfoque especial em outros elementos que ficaram mais de lado no episódio anterior.
De cara, O Herói Americano honra seu título, nos introduzindo o nome, história e personalidade de John Walker, o eleito da vez, o novo rosto da América. Como era de se esperar, a comoção em torno do mais novo herói patriota foi grande, evidenciando a facilidade do povo em adotar uma nova história e novos ídolos em detrimento aos antigos. Lendas não morrem, mas podem ser substituídas.
E a ascensão de Walker foi milimetricamente pensada para se substituir Steve Rogers em todos os aspectos. Com um biotipo bem similar ao do antigo Capitão – leia-se branco, forte e loiro – conquistas e medalhas de honra a perder de vista e um desempenho fascinante na carreira militar, Walker emula Steve tão perfeitamente que não poderia se esperar outra reação da América que não seja uma comoção fervilhante que encha estádios para admirar o novo símbolo e uma explosão comercial muito semelhante a qual Steve foi submetida em seus anos dourados. No entanto, Walker ainda falha em reproduzir o mais importante: A personalidade de Steve. Recheado de frases dissimuladas, carisma raso e uma aura de que pensa muito diferente do que fala ou sabe muito mais do que anuncia em seus palanques, o novo soldado logo nos deixa claro que pode ser perfeito para as multidões emocionadas, mas não poderia ser menos adequado para o escudo que tão imponentemente carrega.
Porém devo confessar que a dubiedade do personagem foi uma boa surpresa, uma vez que nos faz duvidar do trajeto que o novo Capitão América irá percorrer. Inegavelmente Walker é ousado, orgulhoso e patriota o suficiente para acreditar que pode sim defender a América, porém ainda se percebe um senso de moral e justiça ali que pode lhe prender em certas amarras, o afastando da vilania e o aproximando muito mais de uma definição de anti-heroismo, o que, devo confessar, é uma caracterização muito mais interessante e que rende diversas possibilidades.
E por falar em anti-herói, não posso não comentar logo sobre o grupo Apátridas, que enfim estão começando a ganhar um pano de fundo maior e motivações que fogem do puro terrorismo. Como já sabíamos, a organização luta para que o mundo se reverta ao que era nos cinco anos em que metade da humanidade estava desaparecida, mas agora estamos começando a entender esta filosofia, com a revelação, inclusive, que o grupo não se limita a meia dúzia de extremistas e sim alcança uma influência mundial, com um número considerável de seguidores que lutam para que as fronteiras desaparecem e o mundo se torne, em teoria, o lugar justo que era nos cinco anos de blip.
Tivemos também a revelação de que a alta cúpula do grupo é formada inteiramente de super-soldados, o que resultou na frenética sequência em que Sam e Bucky tentam parar a gangue mas acabam descobrindo que a ameaça é muito mais inexpugnável do que imaginavam, ocasião perfeita para John Walker entrar em cena e presentear a dupla com uma atuação em campo quase que impecável dentro dos limites que um homem comum pode ter contra combatentes de condições sobre-humanas.
E assim como Walker, os Apátridas também ganham certa humanização, uma vez que estão roubando vacinas e remédios para alguma espécie de bem maior e sendo caçados por outro misterioso grupo sobre o qual nada sabemos. Sim, definir os verdadeiros vilões da série está se mostrando uma tarefa difícil porém louvável, indo na contramão da maioria esmagadora do MCU que começa a estabelecer seus vilões logo nos minutos iniciais das projeções.
E chegamos, finalmente, à nossos protagonistas. Sam e Bucky se reencontraram com o segundo não tardando de mostrar sua insatisfação com a renúncia do Falcão ao escudo, o que já define o tom da interação da dupla durante todo o episódio. Resta claro a insatisfação de Sam ao novo Capitão América apesar de este ainda parecer conter muito os sentimentos de impotência, insuficiência e resignação que lhe enchem. Bucky, por sua vez, se revolta com o legado de Steve se transformando em uma pura peça mercantil estadunidense, e enquanto Sam prefere que Walker mantenha seu teatro bem longe deles, o Soldado Invernal (ou agora temos que chama-lo de Lobo Branco?) vocifera para recuperarem o escudo. Fica evidente que ambos têm o mesmo desejo de tirarem a peça do controle governamental porém maneiras muito diferentes de enfrentar o problema, o que resulta em diálogos afiados onde um mostra sua insatisfação com o outro e, claro, cenas como a constrangedora terapia, onde ambos têm a oportunidade de falar mais sinceramente, despidos de qualquer provocação infantil em suas palavras.
Como se O Herói Americano já não tivesse um roteiro inteligente e profundo o suficiente, consegue tocar ainda mais na ferida ao abordar com mais afinco a questão racial em um país que eleva à status de deuses seus heróis brancos e escondem aqueles de cor como se fossem os piores dos monstros. Sam não chega a ser escondido, mas ainda luta por um reconhecimento que não seja o “parceiro do Capitão América”, precisando enfrentar mazelas como a descrença e o racismo estrutural para conseguir subir alguns degraus sociais. A verdade é que Sam não se acha digno de ser Capitão América por temer ser julgado primeiro por ser negro do que por ser um símbolo nacional. E quando vemos cenas que mostram a desconfiança policial perante ele, percebemos que não podemos culpa-lo por tamanha insegurança. O primeiro julgamento sempre será o da cor (e irônico ver que o alvo era o negro mas quem saiu algemado foi o branco).

Porém, mesmo com o caminho cheio de pedras, Sam ainda pode se orgulhar de ter um título e o reconhecimento de ser um herói, algo que Isaiah Bradley lhe teve arrancado sem a menor cerimônia. Em uma época que Steve estava desaparecido, a necessidade de um novo Capitão América era urgente, e assim, os Estados Unidos, da mesma forma que outros países, tratou de providenciar um substituto, testando centenas de negros para o papel. Isaiah foi um dos felizardos que sobreviveram aos testes e o único que se mostrou-se apto para se tornar o novo herói americano, potencial, no entanto, logo descartado após uma missão infrutífera.
Preso, trancafiado e submetido à mais outras tantas sessões de experimentos e tortura, Isaiah seguiu a contramão do caminho de Steve, não ganhou condecorações e homenagens, não teve biografias honrando sua vida ou cartazes e eventos exaltando seu nome. Sua história foi gradativamente sendo esquecida até ser considerada uma mancha na valorosa jornada heroica americana. O relato de Isaiah é cruel, dolorosamente real e serve para reforçar o sentimento de Sam de que um herói negro deve maximizar seus esforços para alcançar a excelência, sob pena de ser relegado ao ostracismo e à miséria da dignidade humana.
Por fim, nos damos conta de que o título do episódio não trata apenas de John Walker e sua legião de fãs, mas abraça uma grande variedade de heróis americanos que a série vem mostrando e tratando: Sam, Bucky, Isaiah, até mesmo Steve e os instáveis Apátridas. Cumpre saber quais desses, no final, alcançarão o mérito do tão disputado troféu do reconhecimento nacional.
Voo rasante:
– O final do episódio não poderia ser feito de maneira mais apoteótica: Helmut Zemo de volta ao som de ópera. Já ansioso para ver o que a série nos reserva para o multifacetado, porém desvalorizado, antagonista.
– E mais uma pedrinha dos Jovens Vingadores foi colocada: Eli Bradley, o neto de Isaiah, passou quase despercebido aqui mas promete um futuro brilhante no MCU como o Patriota, um garoto que se torna super-herói após receber soro de super-soldado do avô.
– Ainda me pergunto porque a série não se chama O Falcão e o Lobo Branco, título mais bonito e que melhor exprime a nova fase de Bucky.















