Enfim, o fim.

Nunca fui a aluna mais assídua (ou interessada) das aulas de literatura. Sentava sempre no fundo, tentando captar algumas explicações entre poemas e metáforas. Lembro até hoje, porém, o momento em que meu antigo professor recitou o belíssimo poema Catar Feijão. Melo Neto tentava expressar a dificuldade de se escolher as palavras certas em um texto. O constante ato de escrever e reescrever uma sentença seria inerente a todo bom escritor e o menor distúrbio poderia ocasionar o bloqueio total de um poeta.

“Catar feijão se limita com escrever:

joga-se os grãos na água do alguidar

e as palavras na folha de papel;

e depois, joga-se fora o que boiar.”

– João Cabral de Melo Neto

Ao refletir sobre os dois últimos episódios da história de Faking It, me deparei pensando no árduo e difícil trabalho de roteiristas e criadores de séries. A sensibilidade necessária para inovar em cada nova trama e, ao mesmo tempo, tentar agradar a audiência. A constante luta para satisfazer público e canal, quase sempre em uma linha tênue.

Mantendo as devidas proporções, pode-se comparar o trabalho de um roteirista com o de um reviewer, afinal, ambos trabalham com um certo prazo e precisam lutar com as palavras para adentrar o maravilhoso (e cruel) mundo das séries. E se um colapso de um escritor ocorre na queda criativa, reviewers e roteiristas precisam lidar com o mesmo problema e ainda contar com a pior das desventuras: o cancelamento.

Sabemos quanto um cancelamento dói para um serie maníaco. Atire a primeira pedra quem nunca chorou vendo o último episódio daquela série cancelada prematuramente. Já passei por esse momento diversas vezes e admito, não aceito alguns até hoje. Ter essa experiência como um reviewer, contudo, parece ser ainda pior. Nos apegamos às séries como se fossem nossos filhos. Criticamos, mas matamos quem ousar falar mal. Analisamos até o fio do cabelo daquele figurante gato que apareceu bem rapidinho. Trocamos o título da review 3 milhões de vezes, só pra colocar uma frase de caminhão. Nos derretemos quando aquele plot super bom dá certo e quando aquele personagem tem um desenvolvimento bom. Queremos ser tudo, menos reviewer, quando aquela série – A SUA SÉRIE – chega ao fim.

Nessa última review, não vou falar sobre a reconciliação de Amy/Sabrina, o beijo mega avulso de Karma/Felix ou o fofo relacionamento precoce-com-traços-psicóticos de Liam/Lauren. Quero falar sobre todos os momentos que eu senti vergonha alheia de assistir Faking It, de todas as cenas em que a série mostrou mais amadurecimento QUE MUITA SÉRIE “ADULTA” POR AÍ e todos os relacionamentos errados….QUE SHIPPAMOS, SIM!

Quero falar do quanto sentirei saudade de Lauren, uma das personagens mais originais que se poderia ter, um símbolo de #girlpower em meio a tantos sinais de machismos no mundo real, uma personagem que me ensinou o que é a intersexualidade e mostrou que dá pra ser feliz e ryca e phyna e poderosa e popular e melhor personagem e muito mais.

Quero e vou falar sobre o drama eteeeeeerno de Karma/Amy. Essas duas passaram por tanta coisa que, sinceramente, não preciso ver um episódio com final fechado para saber que a amizade e o amor incondicional entre elas se manterá. Nossas protagonistas brilharam, pena que seus melhores momentos foram separadas.

Meu momento nostalgia merece um momento exclusivo para falar sobre a melhor coisa de Faking It depois do Gregg: o ótimo debate sobre a sexualidade na adolescência. Faking It foi muito além dos debates atuais e explorou de forma ativa os diversos ângulos do mesmo assunto. Teve intersexual, transgênero, homossexual, bissexual, heterossexual, assexual e até quem preferiu não se rotular! Sair do “feijão com arroz” – drama envolvendo personagem homossexual – e explorar outras possibilidades é extraordinário e, só analisando esse viés, a série já merece um reconhecimento.

Não poderia deixar de falar dos tropeços e, infelizmente, foram muitos. Desde a primeira temporada, nunca se teve números confortáveis na audiência. A margem para deslizes, portanto, sempre foi pequena e, voltando ao tópico inicial, parte dos problemas podem ser explicados se analisarmos as decisões criativas. Vários personagens tinham histórias interessantes (relacionamento Karma/pais, plot de Liam à procura do pai) deixadas de lado ou conduzidas de forma bem precipitada. O desenvolvimento, e atitude, de vários personagens mudavam de uma hora para outra apenas para gerar conveniências em um único episódio, vários dramas desnecessários (Karma/Amy, ai ai…) poderiam ser encurtados OU NÃO TEREM EXISTIDO, NÉ? Todos esses pequenos erros provavelmente foram os principais causadores da perda de audiência.

Enfim, encontrar o balanço ideal para a condução de uma série nunca é fácil. Catar Feijão é essencial, mas nem sempre é garantia de sucesso. Poucas séries conseguem encontrar esse equilíbrio com eficácia e, após 38 episódios, somos obrigados a nos despedir de Karma, Amy & Cia.

Ao fim dessa pequena jornada, que iniciei ainda no ensino médio, percebo o quanto aprendi sobre questões sociais com essa peculiar série da MTV. Aprendi e me identifiquei diversas vezes com muitas situações e termino esse período com um sorriso triste no rosto. Foi bom enquanto durou, porém, essa possível durar mais. Esse é o sentimento que fica.

Fake comments

– Deixei esse espaço para soltar o verbo e chorar todas as pitangas por não poder mais ter essa visão semanal. CHOREM COMIGO.

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– Muitos fãs acreditam que parte da queda de audiência seja por conta da forte temática LGBT da série. Eu, sinceramente, espero que não tenha sido o caso. Prefiro acreditar que outros motivos levaram a esse ponto, prefiro acreditar que estamos no século XXI (é esse mesmo?).

– Quero agradecer a todos que leram e me acompanharam até esse momento. Comecei a resenhar com certo receio, mas fui bem recebida e acolhida. Agradeço especialmente ao Michel Arouca, que tem uma paciência de Jó e com certeza já tem um lugar guardadinho no meu coração.

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