Agents of S.H.I.E.L.D. entrega uma ótima conclusão para sua terceira temporada.

Atingir a marca de três anos de exibição e manter sua qualidade não é algo simples. É comum que produções percam a força no decorrer de suas temporadas, especialmente hoje em dia, com produções ousadas demonstrando que a menor quantidade de episódios é o essencial para permanecer interessante, como Game of Thrones, The Walking Dead e as próprias produções da Marvel para a Netflix. Também é muito fácil ver aquelas que entram em um ponto de estagnação, recusando qualquer tipo de avanço considerável para seus personagens. Afinal, com a marca do syndication tão perto, perder seus telespectadores por ousar demais não é um luxo que muitas se permitem. Agents of S.H.I.E.L.D., porém, nunca poderá ser classificada como uma série que não ousa, ou que tem medo de se arriscar. Com mais uma conclusão de temporada, a mesa criativa não poupou esforços para conduzir seu público através de uma tempestade de crescimento, mesmo que no final tudo tenha girado ao redor de uma fórmula batida e pouco atraente.

Criar antecipação em cima de uma morte futura é algo perigoso. A ferramenta é muito forte dentro do imaginário do telespectador, portanto o roteiro precisa ser muito bem estruturado e tentar, de qualquer maneira, não deixar com que o foco gire exclusivamente em cima da partida. Se o personagem é menor, você termina com a sensação de engano, se é alguém muito importante, o sentimento poderá ser o de revolta. Arrow cometeu o mesmo erro e pagou caro por sua atitude. Porém, onde a série do Arqueiro Verde pecou, a dos agentes da S.H.I.E.L.D. acertou. Todo o alarde em cima da fatídica cena vislumbrada durante a visão da Daisy Johnson ficou do lado de fora da série. Com a exceção dos dois últimos episódios, ninguém realmente teve tempo para trabalhar a questão. Logo, a trama não sofreu o impacto direto, apenas quando já não existiam mais alternativas para fugir do destino previsto.

E quando eu digo que a série aproveitou a deixa para criar algo incrível, mas sem tanto alarde internamente, me baseio unicamente na belíssima montagem de cenas que trabalharam exatamente para deixar qualquer fã de cabelo em pé. Como era esperado, o colar e a jaqueta viajaram por praticamente todos os personagens chave presentes. Mas nem mesmo a minha mente cética aceitou quando todos apareceram ao mesmo tempo utilizando a mesma roupa vista na visão do futuro. O próprio símbolo de fé esteve conectado pessoalmente para cada um daqueles personagens, incluindo os cientistas Fitz e Simmons. A noção de que existe algo maior e também a imagem da própria desolação de um inimigo “imortal” conferiu para cada personagem a bagagem necessária para colocar aquela joia.

Contudo a partida de um personagem menor não deve ter agradado completamente. E é novamente o grande problema com uma antecipação deste porte. Mas a verdade é que Lincoln sempre foi a escolha “perfeita” para morrer. Seu passado nebuloso, seu relacionamento com Daisy e a “conversão” da amada após o encontro com Hive garantiram a ele o pódio dentro das possibilidades apresentadas. E funcionou muito bem dentro do que foi proposto, além de ter garantido o excelente gancho final. Mas apesar de ter traçado um caminho de fácil previsão, o roteiro não deixou de lado a vontade de nos enganar. Cada personagem recebeu aquela dose certa de falas para possivelmente justificar um sacrifício. Simmons e o seu desejo de tirar umas férias, Coulson e sua culpa por ter trazido Hive para o mundo, todos possuíam algum fator trabalhando contra a sua permanência na série.

Dentro do que foi criado para o vilão, contudo, foi possível ver a amarração final de uma história que começou lá na primeira temporada. A própria trajetória do Hive se conectou perfeitamente com a de Ward. Utilizar a máquina da memória para confundir o inimigo também serviu para que o roteiro pudesse se despedir de Brett Dalton, um ator inicialmente insosso, mas que cresceu muito quando a oportunidade foi apresentada. Tanto o personagem quanto o vilão sempre tiveram uma única motivação. “Eu quero uma conexão” é essencialmente a marca de Grant Ward durante dois anos e meio de série. E encaixa na própria motivação do antagonista, que continua figurando entre os mais bem desenvolvidos pela série. Até agora. E o melhor foi poder perceber que tudo o que Ward quis foi se conectar a Skye, no passado. As similaridades entre ambos foi notável desde o começo e com mais força após a revelação do traidor. E tê-lo dividindo seus últimos minutos ao lado do Lincoln, o homem que verdadeiramente se conectou com Skye/Daisy, é a mais pura ironia do fato.

Todo o questionamento de Daisy também trabalhou para aprofundar mais uma vez a personagem que praticamente mantém todo o foco da produção para si mesma. Chloe Bennet não começou como uma favorita do público, mas rapidamente garantiu seu espaço. Durante a segunda temporada acompanhamos a história de origem de Daysi Johnson, mas como todo bom caminho do herói, só agora estamos assistindo o seu nascimento como heroína assumida. Sua constatação de que a droga mais potente e acalentadora não estava mais ao seu alcance foi o suficiente para que uma nova centelha se acendesse. E todo o desfecho seguinte foi incrível e muito bem conduzido. Sem sombra de dúvidas a criação da melhor cena de luta envolvendo superpoderes que uma série adaptada já entregou, e falo isso reconhecendo o trabalho competente de Supergirl. Foi simplesmente uma entrega muito interessante e que expandiu as possibilidades para a personagem.

Claro que eu não poderia terminar a review sem antes mencionar a respeito da cena final. Daisy esteve muito perto de voltar para os braços de Hive, mas terminou rejeitada por ele, graças a imunidade causada por Lash. Em termos de evolução de personagem, sempre tivemos Skye/Daisy no centro das atenções, essa é, no final, uma série do Coulson e de sua filha adotiva.

Eu realmente acredito que você está destinada para mais do que isso

Consequentemente sua separação guiada por uma expiação de pecados apresenta um novo caminho a ser desenvolvido. Cumprindo a missão de reparar o dano causado por Hive e também por ela a todas as pessoas diretamente afetadas pelas maquinações de Gideon Malick, Quake receberá todo o combustível para alçar novos voos. E que ótima maneira para a personagem terminar, como uma fora da lei. A conclusão de Daisy também me faz compreender que Agents of S.H.I.E.L.D. não precisa dos filmes para continuar sobrevivendo. Em qualquer adaptação da Guerra Civil este seria o final adequado, separando amigos e criando este tipo de desfecho. E notar que escolheram este fim para o arco, após o crossover, é compreender que a série está criando o seu próprio mundo e fazendo aquilo que acha certo no momento em que eles querem fazer, e não simplesmente porque o mundo dos filmes oferece a oportunidade de fazê-lo, um respaldo.

No fim, a terceira temporada da série foi um grande emaranhado de pequenas histórias convergindo para um panorama principal. Existiram falhas, a produção perdeu um pouco do fôlego apresentado no seu segundo ano, mas é compreensível, especialmente pela inclusão de inumanos. Quando começou a trabalhar o conceito na segunda temporada os roteiristas abriram as portas para algo muito grande. Novamente reitero que o trabalho da série manteve sua competência e permaneceu fiel a proposta desenvolvida. Colocar o coelho dentro da cartola seria um erro colossal, mas trabalhar um tema tão pesado destacou algumas fraquezas na estrutura de Agents of S.H.I.E.L.D. Imagino que o próximo ano deverá ser mais bem trabalhado, agora que o fantasma dos poderosos foi deixado de lado, assim como a obrigatoriedade dos Guerreiros Secretos, que só chegaram a se unir uma única vez. De toda forma, apesar de ter sim cometido erros, a série soube recuperar o fôlego na sua reta final. E eu mal posso esperar para ter mais deste mundo complicado, mas extremamente viciante. No bom sentido, claro.

Easter eggs e outras informações

– L.M.D. é a sigla para Life Model Decoy. No começo da série existia a teoria de que o Coulson fosse um robô construído para substituir o verdadeiro, que segundo alguns fãs teria realmente perecido na batalha contra Loki. Para quem quiser uma história recente e muito interessante a respeito dessas criaturas robóticas, sugiro Original Sin. LMD sempre foram utilizados por Nick Fury, torando-se uma assinatura do diretor da S.H.I.E.L.D. Maria Hill, diretora da agência no momento, já andou utilizando alguns LMDs.

– Além de ter o codinome Quake mencionado, o mesmo que Daisy Johnson possui nas histórias em quadrinhos, um dos jornais que noticiou sua presença como “heroína” foi o New York Bulletin. NWB é o nome do jornal de Demolidor, o mesmo que a Karen Page trabalha.

– Um dos nomes utilizados para assinar uma das notícias a respeito da Quake foi: Frank Cope, um jogador de futebol americano do New York Giants. Golias Negro já foi escolhido por um designer para representar o time.

– Gostei como a série deu a oportunidade para que cada personagem brilhasse dentro do seu escopo de atividades. Mas a dupla que com certeza roubou a cena foi Fitz-Simmons.

– Por falar em Fitz o personagem permanece como a melhor participação da série. Sempre muito bem balanceado e garantia certa de ótimas interações com qualquer outro personagem.

– Shotgun-axe! Eu vivi para ver.

– “Help me, Obi-Wan Kenobi. You’re my only hope.” Coulson. Melhor pessoa.

– No bolão das mortes, eu chutei em Lincoln, e ganhei.

– Radcliffe como membro fixo da próxima temporada? Por favor.

– Elena e Mack. Mais. Mais. Mais.

– Já falei sobre o Radcliffe antes e também a respeito de sua participação na criação de uma inteligência artificial chamada A.D.A.M. Parece que a série decidiu mudar o gênero e optou por A.I.D.A.

– Quem é o novo diretor/diretora da S.H.I.E.L.D.? Alguém conhecido? Novo?

– Por um momento eu pensei que a Daisy fosse voar. A segunda vez que a série me engana dessa forma nesse mesmo ano.

– Nos vemos na quarta temporada da série. Obrigado pela presença.

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