Se, por algum motivo, você pegar um dicionário e procurar pela palavra comédia, verá que significa um gênero narrativo cujo principal foco é gerar divertimento e graça a partir de situações adversas. No mundo das séries, uma das principais formas de comédia tem conquistado diversos tipos de públicos desde a década de 40, sempre se renovando a fim de trazer divertimento para seus espectadores: as sitcoms. Abreviação do termo “situation comedy”, são séries que abordam assuntos do cotidiano de forma cômica, com personagens protagonizando situações jocosas em ambientes comuns, como suas casas ou ambientes de trabalho, por exemplo.
A primeira série neste formato a estrear na televisão foi Pinwright’s Progress, tendo dez episódios transmitidos pela BBC no Reino Unido entre 1946 e 1947, e desde então as sitcoms – mesmo demorando um pouco pra ganhar esse nome – continuaram conquistando espaço na televisão com as mais diversas histórias, desde grupos de amigos até famílias das mais problemáticas. “I Love Lucy”, “Seinfield”, “Friends” são exemplos de sitcoms que marcaram época nos Estados Unidos, enquanto “Os Normais”, “Sai de Baixo” e “A Grande Família” conquistaram o mercado audiovisual brasileiro.
Muitas pessoas acabam se confundindo sobre o que se enquadra na categoria de uma Situation Comedy, acreditando ter apenas um formato possível, mas tendo-se em vista uma abordagem mais técnica, pode-se dividir as sitcoms entre multi-camera e single-camera. No primeiro modelo, temos uma abordagem mais padrão de sitcoms, com um cenário em formato semelhante a um palco de teatro, possibilitando a presença de plateia ao vivo e com três ou mais câmeras gravando a mesma cena, todas localizadas onde deveria estar a quarta parede, sendo o caso de “Friends”, “The Big Bang Theory” e “How I Met Your Mother” – nota-se que nunca vemos a quarta parede do cenário. Já a sitcom de single-camera apresenta uma abordagem mais parecida com um filme, como “The Office”, “Brooklyn 99”, ou “Modern Family”, onde uma ou mais câmeras são utilizadas de forma independente, podendo mostrar 360º do cenário, quebrando a possibilidade de plateia ao vivo.

Visto isso, podemos notar que tanto séries single-cameras quanto multi-cameras passaram por diversas mudanças desde os anos 50, mas ainda assim a primeira imagem que vem na cabeça de muitos ao pensar no formato sitcom é em uma série bobinha, que se restringe à risos e nada mais, o que já não é mais o caso. Muitas delas começaram a trazer assuntos extremamente relevantes para os dias atuais ao misturar o já esperado tom cômico com assuntos mais sérios, dando a voz necessária para temas que devem ser discutidos sem perder a graça. “Brooklyn 99”, por exemplo, apresenta ao espectador uma sitcom sempre bem humorada sobre um departamento de polícia de Nova York, onde temas como racismo e homofobia, entre outros, são constantemente abordados ao longo da série sem perder o humor – como o personagem Terry, que sofre um ataque racista de outro policial ao ser confundido, erroneamente, com um criminoso, e é pressionado por seus superiores a fingir que nada aconteceu para não prejudicar a imagem da instituição.

Mas, mesmo que Brooklyn 99 ainda seja muito relevante, algumas sitcoms se propõem a ir além disso e manter os assuntos importantes como raiz de suas tramas, ou seja, têm como plot principal uma proposta de debater um tema relevante para a sociedade. Quer um exemplo? Imagine uma pessoa sendo surpreendida com a história de uma família latina vivendo nos Estados Unidos, cuja filha é homossexual, a mãe é uma veterana do exército com ansiedade e depressão, e a avó é uma imigrante que muitos anos antes fugiu de uma ditadura; é natural que, caso não conheça a obra, pense que tal descrição é de uma série de drama, mas é, na verdade, de uma sitcom bem famosa nos dias de hoje: “One Day At a Time”.

Desde seu plot, a série se propõe a contar sua história de forma bem humorada, iluminando não só o debate sobre imigração, mas debatendo também sobre sexismo, homofobia, racismo, alcoolismo, porte de armas, ansiedade, depressão, políticas públicas, cidadania, identidade de gênero, uso de drogas ilícitas, e ao mesmo tempo, trabalham de forma bem humorada, assim como diversas outras sitcoms, o conceito de família. É comum que muitas pessoas se perguntem qual o sentido de escolher o gênero comédia para contar uma história séria e gerar debates, mas é exatamente este ponto que torna a ideia tão diferente, e tal questionamento será respondido ao longo do texto, pois One Day At a Time não é a única sitcom que se propôs a contar uma história séria sobre a perspectiva da comédia.
Recentemente lançada na Netflix – e com a segunda parte estreando ainda em agosto –, No Good Nick surpreendeu muitas pessoas com uma trama excepcionalmente forte e perspicaz. A série apresenta Nick, uma garota que foi jogada no sistema de adoção após seu pai ser preso, indo parar na custódia de dois vigaristas que a obrigam a dar os mais diversos tipos de golpes, até que surge o plano de fazerem a garota ser adotada por uma família classe média-alta para que ela roube sua fortuna. A família, sem sequer imaginar o que lhes aguarda, aceitam a ideia de adoção e se apegando bastante a garota.

O que sai errado no plano, entretanto, é que Nick também acaba se apegando bastante a família, principalmente por terem sido as primeiras pessoas – pelo menos dos adultos – que não usavam ela apenas para seus benefícios. A garota viveu, portanto, a vida inteira à mercê de adultos que só a exploravam – tanto do pai quanto do casal de vigaristas que a adotou –, e a primeira vez que tem a chance de ter uma infância de verdade, cercada de pessoas que a amam, é obrigada a roubar destas e trair suas confianças.
A série, com Sean Astin e Melissa Joan Hart no elenco, pode não ser tão boa quanto poderia – vale ressaltar que a proposta deste texto não é fazer uma crítica – mas consegue apresentar, de forma bastante divertida, essa história que teria tudo para ser do gênero dramático. Além disso, se propõe a discutir diversas questões éticas, abordando o abuso psicológico infantil, abrindo um debate sobre bondade e maldade nas pessoas e até onde uma pessoa “boa” pode chegar em situação de desespero e necessidade. Outra demonstração de uma sitcom que cuja principal proposta é abordar algo sério por meio do humor.
Uma outra série que pode ser abordada nesse texto conta a história dos DiMeo, uma família um tanto peculiar. Speechless foca no filho mais velho, JJ DiMeo, um adolescente de 16 anos que possui paralisia cerebral, mas engana-se quem pensa que a obra audiovisual o coloca como o mais frágil da família: entre uma mãe sem limites, um pai incrivelmente atrapalhado, uma irmã estritamente violenta e um irmão frágil e controlador, JJ acaba sendo o mais centrado membro da família.

Uma trama cujo foco principal é discutir a importância da acessibilidade e da representatividade certamente não é a primeira coisa que vem a mente quando pensamos em uma sitcom, mas JJ DiMeo consegue conquistar os espectadores da série com seu tremendo carisma ao longo das três temporadas da série, fazendo com que torçamos pelo personagem tanto com relação à sua vida profissional quanto na amorosa. Speechless, sempre com dignidade, se esforça, com situações absurdamente cômicas, para fazer com que o público tenha uma maior consciência acerca das dificuldades pelas quais passam pessoas com paralisia cerebral e, além disso, repense as noções de acessibilidade e representatividade nos dias de hoje – valendo ressaltar que o próprio personagem é interpretado por um ator com paralisia, o que ressalta a relevância da representatividade na série.
Speechless, No Good Nick e One Day At a Time, portanto, são sitcoms que têm em seu próprio plot principal uma ideia de responsabilidade social, e por mais que sejam séries para adolescentes e adultos, tal proposta de narrativa não é restrita a esse público alvo, estando presente também em algumas sitcoms predominantemente infantis. Alexa & Katie e Andi Mack são dois exemplos muito bons de sitcoms infantis – ou, pelo menos, com o público alvo predominantemente infantil.

Alexa & Katie é uma sitcom original Netflix que conta a história de duas amigas que dão nome ao seriado. A maior preocupação da vida das duas é que estão prestes a começar o Ensino Médio, mas tudo muda quando Alexa descobre que está com câncer. Sim, é uma sitcom para crianças em que mostra a protagonista, ao lado da melhor amiga, na luta contra o câncer.
Já Andi Mack, série do Disney Channel que chegou ao fim no último mês de julho, conta a história de Andi, uma menina que descobre ser filha de sua irmã mais velha que, por ter engravidado ainda adolescente, deixou as crianças sob cuidado dos pais. A própria premissa já parece arriscada demais para uma série do Disney Channel, mas acaba ficando ainda mais profunda quando outros assuntos são abordados ao longo da sitcom, como problemas psicológicos, racismo, machismo, dislexia e, não parando por aí, também introduzindo o primeiro personagem adolescente gay da história da Disney.
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Uma Situation Comedy, portanto, consegue muito bem abordar assuntos de extrema relevância em suas premissas principais e ainda manter os aspectos cômicos em sua narrativa. Talvez essa não seja uma fórmula que agrade um número tão grande de espectadores como sitcoms mais tradicionais, mas ainda consegue desenvolver uma significativa leva de fãs, satisfazer as críticas e chamar bastante atenção, como foi o caso de One Day At a Time, que após ser cancelada por falta de audiência pela Netflix, foi resgatada pela Pop Tv após diversos abaixo-assinados.
Novamente, uma sitcom não parece, à primeira vista, o melhor formato para se contar uma história séria e gerar debates socialmente relevantes, mas talvez o humor seja o fator principal que leva à essa ideia. Séries de comédia normalmente são assistidas pelas pessoas quando estas querem descansar, descontrair e dar algumas risadas, mas porque isso deveria impedir as pessoas de refletirem enquanto se divertem? Além disso, Situation Comedies tem a proposta de apresentar situações do dia a dia e, querendo ou não, as situações que marcam a premissa das séries a cima são uma realidade no dia a dia de muitas pessoas ao redor do mundo. Tanto problemas físicos ou psicológicos, doenças, maus-tratos, gravidez na adolescência ou qualquer tipo de preconceito são assuntos extremamente importantes nos dias de hoje não só por serem pontos de importante reflexão, mas por que vários destes são comuns na vida de diversas pessoas ao nosso redor.
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É inegável, por fim, que o audiovisual é – e quase sempre foi – muito utilizado para gerar aprendizado aos mais diversos públicos, e as sitcoms estão se mostrando cada vez mais como uma forma eficiente de conscientizar os espectadores, contribuindo não só uma grande carga cômica, mas também com lições de responsabilidade social e representatividade aos mais diversos assuntos. É imprescindível, entretanto, que tais obras necessitam, para darem certo, de um desenvolvimento cuidadoso e bem pensado, para assim conseguir abordar tais assuntos de uma forma criativa, responsável e, obrigatoriamente, bem humorada.












