
No início dos anos 2000, entrava no ar uma série que parecia fadada à indiferença. Afinal de contas, quem daria atenção para uma produção tão barata, com uma abertura tão tosca e que contava a história da relação entre mãe e filha? Quem perderia tempo com isso? Pois é… Quem tentou, não se arrependeu. E nem perdeu.
Amy Sherman-Palladino criou Gilmore Girls do nada, simplesmente porque ao comparecer à reunião com os executivos da Warner, teve seu projeto inicial rejeitado, e quando perguntada se tinha algum outro programa em mente, começou a inventar: “Sim, tenho uma série aí, sobre mãe e filha…”. O truque funcionou, e unindo isso às lembranças sobre uma pequena cidade americana que visitou certa vez, criou o universo de GG, que sempre foi reconhecido – embora não em forma de premiações – como uma das coisas mais inteligentes e coerentes da televisão.
Esse post tem a intenção de apontar alguns tópicos que fizeram dessa série um verdadeiro exemplo de respeito público e crítico.
As Protagonistas
Muitas coisas podem ser ditas pelos que desejam denegrir Gilmore Girls, mas uma coisa é unânime: a interação entre Lorelai e Rory está há anos luz no quesito funcionalidade. Enquanto a experiência de Lauren Grahan saltava aos olhos, a crueza de Alexis Bledel conferia credibilidade à personagem, uma garota de interior insegura e tímida. Lauren criou um ícone pop com sua Lorelai, mas apesar de ser apontada como a pilastra de sustentação da série, jamais funcionou sozinha. Por mais problemas que Rory tivesse, ela era parte imprescindível do universo de GG.
Alexis Bledel foi indicada e ganhou alguns prêmios Teen Choice Awards, enquanto Lauren também faturou alguns e foi indicada a um SAG. Mesmo assim, a ausência da série em prêmios mais populares como o Emmy e o Globo de Ouro, sempre irritou muito os fãs. A razão direta disso poderia ser a audiência modesta da série, que disputava, no seu início, com gigantes como Friends e Survivor, o que tornava sua popularidade um fenômeno que se expandia lentamente.
Lorelai, com seu vício por café e suas manias comportamentais individualistas, era um exemplo de força e alegria, no entanto, por ter vivido sozinha por muito tempo, tem dificuldades em partilhar e delegar. Foi sempre nesse ponto que a série tocou quando o drama ganhava mais espaço na vida da personagem.
Já Rory, que tinha pôsteres de várias cidades que gostaria de visitar um dia (o Brasil, inclusive), tinha a meta de chegar em Harvard como uma obsessão. A criadora Amy-Sherman sabia que isso seria impossível, visto que se a série pretendesse continuar quando Rory chegasse à faculdade, a distância de Harvard dificultaria um pouco as coisas. Sendo assim, a menina acabou optando por Yale, mesmo tendo passado em Harvard. E tudo muito bem arranjado pela trama. Rory teve vários namorados e quase sempre seus problemas esbarravam na dinâmica com eles.
O forte dessas duas protagonistas era sem dúvida, o humor. A inteligência berrante… As tiradas geniais, e é claro, a beleza.
A Trama
Mais simples impossível. E o primeiro e ÓTIMO episódio piloto dá conta direitinho de mostrar o que veríamos a seguir: Aos 16 anos, a rica Lorelai Gilmore engravidou e decidiu fugir e criar sua filha sozinha. Sem o apoio dos pais. Agora, quando a pequena Rory faz os seus 16 anos e conquista uma vaga na importante e cara escola Chilton, Lorelai precisa da ajuda dos pais para arcar financeiramente com essa oportunidade. Em troca do dinheiro, os patriarcas Gilmore fazem uma exigência: todas as sextas, jantares em família para tentar uma reaproximação. Essa simples ideia, nas mãos de um qualquer, viraria um novelão, mas nas mãos de Amy-Sherman Paladino, virou uma referência para coesão e sagacidade.
O Texto
Está aí a maior qualidade da série. Um episódio às vezes passava inteiro sem nenhuma reviravolta, mas a maneira como os personagens eram desenvolvidos e defendidos beirava a genialidade. Os diálogos eram afiadíssimos (a ponto de virarem piada em outras séries, como numa menção hilária em Family Guy) e cheios de sagacidades e referências pop. A trama evoluía aos poucos, mostrando gradativamente como a reaproximação das herdeiras com o lar pródigo, ia alterando a dinâmica das duas, até resultar em pontos de crise.
Lorelai, que abdicou de toda a riqueza da família, nunca ponderou o quanto disso poderia fazer falta à própria filha. E nem nós mesmos. Por isso, Amy-Sherman providenciou uma série de eventos que culminariam com o inevitável numa história como essa: a inversão de papéis. E foi aí que Gilmore Girls chegou ao topo pra mim.
A sexta e injustiçada temporada é um exemplo crônico disso. Tudo caminhava para convergir numa separação entre mãe e filha e é uma pena que muitos não tenham entendido isso. Essa sexta temporada representa a força de um planejamento e o respeito de uma trama com seu público. Pena que logo depois veio a sétima e última, e tudo degringolou totalmente.
O video acima é uma das provas da força de Gilmore Girls. Apesar da dublagem, a tirada incrível de Lorelai, permanece a mesma.
A Trilha
Quem não se lembra dos incríveis la-la-las que adornavam momentos importantes e transições de cena? A imagem acima é da trilha sonora original, lançada logo antes da terceira temporada e a lista de músicas (abaixo) tem nomes de peso como Joey Ramone, Elastica e Yoko Ono, que representam bem o refinado gosto musical das protagonitas.
1. Waltz #1 – Sam Phillips ~
2. What A Wonderful World – Joey Ramone ~
3. Child Psychology – Black Box Recorder ~
4. Know Your Onion – The Shins ~
5. I Found Love – The Free Design ~
6. Car Song – Elastica ~ Or
7. Oh My Love – John Lennon/The Plastic Ono Band ~
8. Getting Married – Sam Phillips ~
9. Where You Lead I Will Follow – Carole King/Louise Goffin ~
10. Clear Spot – Pernice Brothers ~
11. One Line – PJ Harvey ~
12. I’m The Man Who Murdered Love – XTC ~
13. Maybe Next Week – Sam Phillips ~
14. Thirteen – Big Star ~
15. Human Behaviour – Bjork ~
16. I Don’t Mind – Slumber Party ~
17. Tell Her What She Wants To Know – Sam Phillips (previously unreleased) ~
18. It’s Alright, Baby – Komeda ~
19. God Only Knows – Claudine Longet ~
20. Smile – Grant Lee Phillips (previously unreleased) ~
21. O’oh – Yoko Ono ~
22. Rory And Lane – Sam Phillips ~
23. Girl From Mars – Ash ~
24. My Little Corner Of The World – Yo La Tengo
Embora essa trilha seja pomposa, as canções raramente tocavam nos episódios, e os la-la-las eram sempre preferência na hora de enfeitar as ocasiões, o que ajudou bastante a compor uma identidade para o programa. No vídeo abaixo, um mix com alguns desses momentos.
Stars Hollow
Todas as grandes histórias que foram contadas, se pararmos bem pra pensar, tinham como apoio uma atmosfera a serviço da história. Aqui em GG tínhamos a cidadezinha de Stars Hollow, que parecia saída de um filme de Tim Burton, tamanho o nível de bizarrices. E cada uma delas, discreta e deliciosamente, envolvia com muita elegância a vida dos protagonistas. E que iam desde o Mundo das Panquecas do Al, que não vendia panquecas, até as festas temáticas insanas que apareciam em quase todos os episódios. Stars Hollow, que é uma cidade fictícia, se existisse, ficaria bem próxima de Providence, já que os pais de Lorelai moram em Hartford. No entanto essa cidade não seria nada sem seus habitantes. Poucas vezes vimos séries tão bem sintonizadas com seu elenco coadjuvante. O que nos leva ao próximo tópico.
Os Coadjuvantes
Pra entender a força desse time, só falando brevemente de cada um deles.
Luke
O ator Scott Patterson deu muita sorte. Ia entrar só pra fazer uma pontinha e acabou entrando no elenco fixo e ficando até o final. Luke tinha valores sólidos. Não tirava o boné, era totalmente anti-cafeína, abominava certos hábitos alimentares, raramente sorria, vivia brigando com os clientes e parecia ter o único restaurante de toda a cidade. Um irresistível caipira, que para deleite das nossas expectativas, só conquistou Lorelai na quarta temporada.
Sookie
Melissa McCarthy, que hoje está sendo indicada ao Oscar, ganhou o papel de Sookie após a atriz escalada ter sido afastada das filmagens do piloto. A adorável gordinha era a melhor cozinheira do mundo, tratava comida com ares de analista, era terrivelmente desastrada e vivia em pé de guerra com o principal fornecedor de suprimentos da pousada. Acabou casando-se com ele.
Richard
O pai de Lorelai, vivido por um contido Edward Herrmann, parecia viver numa bolha, de onde se protegia de todas as mazelas sociais provocadas pela gravidez da filha adolescente. Manteve-se assim por muito tempo, até que a crescente ligação com a neta foi tirando-o dessa zona de conforto. Sua personalidade era tão bem delineada que quando ele se deixava emocionar por alguma coisa, o episódio crescia absurdamente.
Emily
Um dos maiores acertos do elenco, Kelly Bishop mandava em todas as cenas em que aparecia. Emily Gilmore era uma mulher treinada para ser elegante, prática, forte e fria. Por isso mesmo, perdeu o contato com a filha, que preferiu fugir a criar seu bebê perto dela. As empregadas da mansão dos Gilmore concordavam com Lorelai e nenhuma delas aparecia em cena por mais de um episódio. Emily, assim como Richard, fazia parte de uma linha de criação de personagem tão dominante, que qualquer deslize de sua natureza severa era um desbunde de emoção na tela.
Paris
A vilã mais adorada da série. Até conhecer Rory, Paris não tinha amigos e vivia numa guerra declarada a todos que ameaçassem seus planos de entrar em Harvard. A personagem era linda, de tão bem construída. O trabalho de Lisa Weil era irretocável. Paris agia com crueldade sempre partindo do princípio de que não havia ninguém a quem ela precisasse responder. Os diálogos entre ela e Rory eram um show de inteligência e rapidez. Infelizmente a sétima temporada veio borrar essa linda trajetória. Paris não representou nada no Series Finale.
Kirk
De pontinhas em pontinhas, o estranho Kirk foi se firmando na série como o Rei Maior das bizarrices. Em Stars Hollow, ele já tinha sido tudo! E a cada semana, tinha uma nova profissão ou mania estranha para apresentar. O destaque fica para o episódio em que ele vendia camisas com frases dos outros personagens. E para o dia em que correu pelado e nos presentou com a visão aterradora de seu peculiar físico.
Michel
Qualquer cena em que Michel aparecia era sinal de muita maldade. O recepcionista do hotel onde Lorelai trabalhava era irritante, irônico, mal educado e ranzinza. E tudo com um delicioso sotaque francês. Michel era fã de Celine Dion e vivia para atormentar Sookie e Lorelai, com comentários maldosos e observações negativas. Simplesmente IRRESISTÍVEL.
Taylor
O maior inimigo de Luke também era uma espécie de prefeito em Stars Hollow. O problema era que numa cidade em que não existiam muitas questões práticas a serem resolvidas, Taylor dedicava seu tempo a organizar festas esdrúxulas e impor normas quase colonialistas. As reuniões com a comunidade eram um show à parte e quase sempre, terminavam em briga. Em dado episódio Taylor resolveu colocar um semáforo na praça da cidade, tudo para controlar um quase inexistente trânsito. E em outra ocasião, quase matou congelados alguns moradores que eram obrigados a ficarem fantasiados durante toda a noite, ao ar livre, para representar um evento histórico da cidade.
Lane
A melhor amiga de Rory é outro show. A descendente coreana tinha uma mãe que, convertida ao protestantismo cristão, elevou ao cubo o seu conservadorismo. O resultado é que Lane, fã de rock e música alternativa, tinha que viver suas paixões totalmente em segredo. O piso de tábuas de seu quarto escondia todo o seu arsenal fonográfico, e para ir a shows precisava o tempo todo de cobertura. A sacação maior veio quando Lane fugiu de casa, formou uma banda (que tinha o Seth de The OC, como primeiro vocalista) e acabou casando e engravidando. Esse núcleo de Lane contava com a participação de Todd Lowe (que vivia o Zack e só teve seu personagem ganhando a frente depois que Adam Brody foi parar em The OC) e com a especialíssima aparição de Sebastian Bach, que veio do extinto Skid Row só para abrilhantar a banda da galera, vivendo o responsável e maduro, Gil.
Sra. Kim
Não havia uma só pessoa em Stars Hollow que não se assustasse com o jeito zangado da Sra. Kim. A mãe de Lane tinha um antiquário e conseguia negociar produtos com a rapidez de um desenho animado. Apesar de severa com a filha, transgrediu os próprios valores ao abandonar as tradições religiosas do oriente, entregando-se ao cristianismo com todo fervor. Seu momento mais emblemático, além da venda de um móvel para Emily, ficou por conta da vinda da matriarca Kim para o casamento de Lane, quando os roteiristas aproveitaram para mostrar o quanto mãe e filha compartilhavam mais semelhanças do que previam.
Christopher
Além de disputar o cargo de “pai mais bonitão do mundo das séries”, Christopher era também, a kriptonita de Lorelai. Podia estar tudo bem, mas era só ele aparecer e ela se desestabilizava toda. David Sutcliffe não era parte do elenco regular, mas apareceu da primeira à última temporada e por isso, tem destaque nessa lista. Na triste e dispensável última temporada, inventaram um absurdo casamento entre ele e Lorelai, e toda magia do casal foi por água abaixo.
Patty
A foto já é autoexplicativa. Miss Patty já dançou com as brasileiras e fez comentários vorazes sobre o modo de vestir das nossas moças. O Brasil, que já tinha sido lembrado por Lorelai na histórica referência à Xuxa, não podia aparecer de outro jeito na boca da professora de dança da cidade, que já tinha sido uma estrela no passado. Patty também era uma espécie de secretária de Taylor e podia ser vista nas ótimas reuniões comunitárias preenchendo a ata dos trabalhos.
Babette
Sally Struthers já era uma atriz muito experiente quando entrou em Gilmore Girls, mas mesmo assim, topou incorporar o elenco coadjuvante com graça, apesar de sua voz rouca fantasmagórica. Babette era vizinha de Lorelai, tinha gatos com nomes estranhos e uma relação de amor perfeita com seu marido magricelo e sombrio. Tudo na casa dela era pequenino, por causa de seu tamanho, enquanto em contrapartida, seu marido Morey tinha que abaixar pra passar pela porta e sentar para lavar a louça. Era mais uma a compor o time de habitantes bizarros de Stars Hollow e junto com Patty, formava uma dupla de fofoqueiras pra ninguém botar defeito.
Jackson
Ele era só um verdureiro no início da série, mas as brigas com Sookie já anunciavam um enlace futuro para o casal. E não poderia ter sido melhor. Os dois tinham filhos como coelhos e sempre que os estranhos membros da família de Jackson apareciam, era garantia certa de riso. O personagem dele, ao contrário de Sookie, não existia sozinho, mas mesmo assim, conseguiu conquistar respeito e carinho da audiência.
Não podemos esquecer dos coadjuvantes que se acoplaram à série depois de algum tempo. A filha prodígio de Luke, April, que hoje em dia está dando o ar da graça em Switched at Birth, a irmã de Luke e seu marido TJ, que alegraram a série com seu nonsense elisabetano. Alguns dos importantes namorados de Lorelai, como Max… Os namorados icônicos de Rory: Dean, Jess e Logan. As amigas de Paris, Louise e Madeleine … além de outras participações que integraram esse elenco acertadíssimo.
Gilmore Girls é sem dúvida, um exemplo notório de domínio e equilíbrio pleno de criação e desenvolvimento… Isso até a sétima e última temporada, quando a criadora perdeu o posto e teve que entregar sua obra prima nas mãos da Warner, que implacavelmente destruiu qualquer chance de um final digno. Amy-Sherman disse em mais de uma ocasião, que sempre soube qual seria a última frase da série… Uma pena que nós nunca vamos saber.
O que vocês acham de um apanhado com os melhores episódios? Do jeitinho que estamos fazendo com Arquivo X?
Para encerrar, vamos rever a abertura quase tosca da série, para aqueles que querem matar as saudades do som de Carole King. Clique aqui.
Menção mais que honrosa: Paul Anka (Pizza !!! Pizza!!).




































