Toda polêmica será recompensada. Assim, acreditam os otimistas.

Ontem eu tinha fé de que havia um Escolhido. Hoje eu tenho a prova disso aqui na minha frente.”

– Claire Riesen.

Quando na semana passada, na minha primeira review da série (e também da minha vida, rs), eu disse que a série era “mais controversa que o sexo dos anjos”, eu não imaginava o alcance dessa comparação e, tampouco a repercussão tão dividida dos defeitos e qualidades de Dominion para os mais diversos tipos de fãs que acompanharam a estreia. O que pareceu defeito crasso para um – motivador até de largar a série no primeiro episódio – foi o ingrediente que fez brilhar os olhos do outro.

Uns acharam que o vilão não pareceu vilão o suficiente; outros não aceitaram o asco que Miguel provocou; ou ainda, estranharam o protagonista por ser “sem sal” demais – foram opiniões que dividiram o público com reações tão contrárias, ao ponto de existirem sobre as mesmas personagens elogios certeiros, tanto sobre a dubiedade bem empregada do vilão, sobre a genialidade do sarcasmo do anjo que apoia os homens e até mesmo sobre o semblante incompreendido do herói. E nem vou entrar no mérito de efeitos ou dos múltiplos plots apresentados no piloto que também dividiram a audiência. Entre tantas outras controvérsias, só me resta colocar todas as cartas na mesa, e dar o pontapé inicial na discussão, pois vereditos sobre certo e errado – ou aquilo que funciona ou não na trama – parecem estar muito longe de serem universais, e muito próximos de serem polêmicos.

Bom, ao episódio da semana: tudo se encaminhou – como já era de se esperar – pela aceitação (ou não) e seus principais reflexos na vida do protagonista após saber que ele é o Escolhido. Alex ainda não sabe como é lidar com essa responsabilidade, pudera, em pouco tempo, descobre que o pai que dantes prometera nunca abandoná-lo, o abandonou e estava vivo, mas já morreu, e morreu dizendo que ele é a esperança de todo um povo, e mais, sua amada está arranjada num casamento de veias politicamente pulsantes e sua primeira mensagem por meio de tatuagens é para não confiar em ninguém próximo. Acho que eu ficaria confuso também. A aproximação forçada de Miguel por toda a vida de seu pupilo foi muito fria e ele nunca o ensinou a lidar com esse fardo, assim era um pouco óbvio a negação do Escolhido. E ela se deu, e foi clássica: ele encheu a cara e foi falar “verdades” para Claire. Como não? O Escolhido é gente como a gente, rs. Por fim, eles também se reconciliaram de maneira clássica.

No piloto, fomos apresentados a milhares de possibilidades sobre os próximos plots e também uma gama de interesses que a série poderia prosseguir em sua narrativa. A mais interessante, a meu ver, foi a seguida: as intrigas políticas se mostraram poderosas em Godspeed. Tivemos a conversa entre o chefe militar e o chefe administrativo de Vega que decidiram não contar para a população a verdade sobre Alex, após uma clara troca de favores e defesas no julgamento sobre os acontecidos do último Jubileu. Agora resta saber o que está por trás dessa “amizade”. “A cidade está instável demais, ela não precisa de um fervor religioso para saber sobre o Escolhido.”, disse um deles na conversa franca. A cidade está em pânico e também não está tão confiante com o governo. Contudo, os dois chefes importantes guardam segredos mais obscuros que decisões políticas em salas fechadas. Interessante foi ver como está a relação de Arika – esposa da Rainha Evelyn, de Helena – com o Cônsul David Whele. A tensão sexual dos dois do episódio passado não deixou de existir, mas neste ganhou uma perspicácia estratégica da diplomata sobre o seu julgamento. Ela mata as companheiras convencendo-as de que elas serão instrumentos da morte do senador. Uma guerra contra a fortaleza Helena parece iminente, assim como Arika não parece estar satisfeita com as chantagens já feitas até agora. Vem mais coisa por aí. O General Edward Riesen, por sua vez, está doente, pensando no futuro e saindo toda semana da fortaleza para ver sua anja de olhos negros. Arriscado e não tão poético quanto parece.

Ponto alto do episódio foi a conversa entre Miguel e Gabriel. Os dois anjos discutiram sobre a forma que um vê a causa que faz valer a pena lutar do outro. Pautada por ameaças, Gabriel finaliza dizendo que sabe da existência do Escolhido, deixando o primeiro surpreso. E também numa das cenas de ação bem executadas tivemos a empregada de Claire – outra infiltrada do clã de Gabriel na cidade – atacando Alex após ver as tatuagens dele. O que pareceu corrido foi a inserção da personagem e faltou mostrar mais de suas motivações para o ataque. Ela voltou ao reduto do líder dos anjos, sinal de que poderemos ter essas respostas atendidas em breve.

Algumas relações parecem traduzir o máximo dos clichês na série. Que Claire não engravide – isso seria um clichê –, pois daí Alex aceitaria o seu “destino” pensando em defender sua família. (Até que… ok, parei, não sou roteirista). A aproximação entre William e Alex, sendo o primeiro um aliado de Gabriel, pode render, mas já era esperada para criar conflitos. A função de Becca – a senadora ombro-amiga de Riesen, rival de David e paixão de Miguel – pode ter vários desdobramentos, mas ainda não parece bem definida. E que Noma – a V-2 que tem uma queda por Alex, não se alie à Gabriel quando perceber que não tem chances com o herói, mas que bem trabalhado, também seria um bom e velho clichê.

A série consegue atrair com seu andamento natural e entregou um segundo episódio mais consistente que o piloto. Mas, ainda não traçamos um panorama de temporada. Estamos conhecendo melhor os conflitos, vendo a resolução de inúmeras pontas soltas ao pouco e a escolha daquilo que merece ser falado. Apesar de tudo, a história parece ser amarrada. Não falta ação, não faltam potenciais nas histórias, não falta interesse. Falta, talvez, ter mais clareza em que ponto ela que chegar. E também, certa complexidade e desenvolvimento nas personalidades da série, sobretudo a do protagonista. Sabemos que ele ainda está confuso, mas não conseguimos imaginar o que ele faria frente a determinadas situações. Isso não é bom, pois como não esperamos sua reação, não conseguimos nos chocar com algo inesperado, nem defender o seu caminho natural.  É claro que espero que venham atitudes cheias de surpresas e reviravoltas, mas que seja garantida, ao menos, uma segurança narrativa. Uma segurança que nos deixe a certeza que toda a defesa de suas controvérsias não terá sido em vão. E que elas já estavam programadas.

Considerações finais

– Achei interessante a citação sobre a cultura da cidade que revela que Edward Riesen criou temporariamente o “sistema de castas” de Vega. Onde dependendo da classe de quem nasce já está pré-determinado ao que vai ser durante toda a existência na cidade.

– Antes da carreira política, Whele era um evangelizador. “Eu vendia religião pela televisão!”

– Nada como receber um “aviso” do governo de Vega. Os técnicos que estavam presentes no abrigo que teve a revelação do Escolhido viraram alimento do amigo felino, opa, foram avisados para não vazar informação.

– Os “funerais” dos anjos são orgias?

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