Se você acompanhou todas as notícias sobre Doctor Who ao longo do último ano, então você provavelmente sabe que havia muita especulação, expectativa e muita desconfiança sobre as coisas que Chris Chibnall, o novo showrunner da série, traria para essa nova temporada. Havia um mix de sentimentos envolvendo a comunidade Whovian e essas sensações chegavam a ser tão antagônicas que acabaram por criar um debate imenso sobre a nossa querida série. A renovação do show acabou por gerar um sentimento de excitação que atingiu inúmeras pessoas que estavam ansiosas e ávidas por novidades, mas essa mesma renovação também foi responsável por criar, quase que na mesma proporção, um nicho que se sentiu rodeado por incertezas e se mostrou muito relutante com aquilo que estava por vir.
Doctor Who sempre tratou de mudanças e quem acompanha a série sabe disso. De tempos em tempos nós precisamos encarar essas novidades e entender que tudo isso vem para tornar a nossa experiência cada vez melhor. E nesse primeiro episódio é nítido o esforço que Chibnall e sua equipe tiveram para nos entregar algo de qualidade. Doctor Who ganhou uma nova roupagem e é quase impossível ficar indiferente diante da qualidade cinematográfica (e eu não estou apenas me referindo à fotografia do episódio) que a série recebeu. É grandioso, mas também de um cuidado enorme para que isso não acabe parecendo deslocado e prejudique o conteúdo da série em si.
Mas de nada adianta uma técnica impecável se não houver algo que crie uma aproximação com o público. É preciso que exista algo que nos dê a sensação de empatia, para que nos importemos e alimentemos o desejo de ver mais e mais daquilo que nos foi oferecido. E é aqui que temos mais um ponto positivo dessa premiere: os personagens. Existe uma preocupação em criar camadas para essas pessoas, torná-las críveis e assim facilitar a nossa identificação para com elas. O que vemos não são seres humanos brilhantes, donos de uma inteligência avassaladora, mas sim pessoas comuns, cheias de defeitos, imperfeições, presas em seus medos e inseguranças.

Ryan, Yasmin e Graham estão descobrindo um novo mundo e é muito interessante ver como a forma com que cada um encara esse novo horizonte acaba contrastando com os demais. Ryan é aquele que acredita e se entrega para a experiência, Yasmin é a que vê em tudo isso um meio de escapar da rotina ordinária a qual ela está presa e Graham… Bem, Graham é o que podemos chamar de “companion por acidente”, pois claramente esse é o tipo de situação com a qual ele não está confortável e ele jamais passaria por tudo isso se lhe fosse dado o poder de escolha, mais ainda assim é muito válido mostrar que existem pessoas que nunca aceitariam viver esse tipo de aventura, porque embora possa parecer maravilhoso e irresistível, ainda é extremamente perigoso e, possivelmente, fatal.
E do outro lado temos a entusiasta Grace, que mesmo sendo uma personagem extremamente carismática e de fácil identificação com o típico perfil de companion, estava claramente destinada a ter um (previsível) fim trágico. O fato de a divulgação ter deixado claro que ela não faria parte do time de companions, pode ter amenizado (ou até mesmo anulado) a comoção que a sua morte causaria, mas mesmo que o efeito não seja tão forte para quem assiste, possivelmente será essencial no desenvolvimento da relação entre Ryan e Graham.
“I’M THE DOCTOR!”
E é claro que não podemos deixar de falar daquele que provavelmente foi o maior alvo de discussões nessa nova empreitada: a escolha de Jodie Whittaker para ser a nova Doctor. Eu, particularmente, conhecia muito pouco (na verdade, quase nada) do trabalho da Jodie, então não poderia formar uma opinião apenas pela escalação da atriz. Só me lembro de ficar muito entusiasmado com o pouco que eu havia visto dela no especial de Natal e parece que a minha primeira impressão estava certa: a Doctor de Jodie é incrível e encantadora. Essa versão alegre, expansiva, atenta, generosa, meio atrapalhada e que já considera as pessoas como suas amigas (um traço de personalidade que demorava a aparecer em encarnações anteriores) é incrivelmente sensacional e isso se deve ao talento da atriz que possui uma presença de cena cativante. Essa encarnação feminina é um marco para a série e já ficou claro que Jodie irá defendê-la com todas as forças e ela já provou isso de uma forma maravilhosa nesse primeiro episódio.

No episódio existem pequenas conveniências de roteiro e isso é perceptível, mas esses pequenos “deslizes” são perdoados, pois é necessário que eles existam para que haja agilidade e para que possamos nos acostumar com aqueles personagens que iremos acompanhar pelas próximas semanas. “The Woman Who Fell to Earth” é um bom episódio, que nos dá uma ideia do que será a temporada. Se ela será bem sucedida ou não, só o tempo dirá, mas se você ainda não se convenceu e continua cheio de arramas e receios, eu deixo aqui um recado da Doctor para você: “Não tenha medo. Tudo isso é novo para você e o novo pode dar medo. Todos queremos respostas. Fique comigo e você poderá conseguir algumas.”
> Bom gosto pra SÉRIES é relativo? feat Alice Aquino!
Em tempo:
– Adorei a cena em que a Doctor constrói a nova Sonic Screwdriver. Até perdoei o estilo “derretido”, que havia me deixado muito incomodado quando foi revelada.
– Cadê a TARDIS??
– Cadê a abertura???
– Nova Doctor, um rapaz negro, uma moça indiana e um senhor mais velho. Representatividade importa, não morde, não mata e não deveria ser alvo de polêmicas. Deve ser tratada de forma natural e Chibnall soube muito bem como trabalhar com ela.















