Adaptar Douglas Adams nunca é tarefa fácil e o corajoso da vez é Max Landis. Depois de alguns trabalhos de menor expressão, Max recebeu visibilidade ao escrever Poder Sem Limites ao lado do diretor Josh Trank. Mais maduro, Max assumiu a nova adaptação de Dirk Gently’s Holistic Detective Agency da série literária homônima para a BBC America, assinando o roteiro dos 8 episódios da primeira temporada.

Essa não é a primeira adaptação dos livros para a TV, a qual se tratou de uma minissérie da BBC Four (2012), que buscava mais fidelidade ao material original. Entretanto, a adaptação literal nem sempre é o melhor caminho, pois as particularidades de cada meio exigem linguagens específicas.

Como se fazer comédia/sci-fi já não fosse complicado o bastante, as obras de Adams possuem narrativas extremamente complexas, carregadas de sátira, crítica social e humor em camadas, o que permite a diferentes públicos ter diferentes interpretações. Além disso, o escritor brinca muito com a semântica no decorrer de seus livros, o que torna o material muitas vezes intransponível visualmente.

O roteirista optou por inserir os elementos sobrenaturais da forma mais mundana possível, tornando o orçamento enxuto e a série mais acessível àqueles que não conhecem a obra do escritor. A presença de Elijah Wood também ajuda muito na audiência e foi fundamental para a viabilização de uma produção de alto padrão. Além dos livros de Dirk Gently e do Guia do Mochileiro das Galáxias, a série bebe de fontes como Doctor Who e Sherlock Holmes, sendo um prato cheio para os amantes do humor britânico.

The Rowdy 3 - Dirk Gently (Douglas Adams)
The Rowdy 3 – Dirk Gently (Douglas Adams)

O primeiro episódio da série tinha a importante tarefa de definir o tom e as regras do universo a ser apresentado. Horizons é dirigido pelo experiente Dean Parisot, que logo de cara joga o telespectador para dentro de uma cena de crime bizarra. Diferente das séries convencionais, que iniciariam o processo de resolução do crime, o episódio parece não se importar com seu pleno entendimento e começa a despachar uma enxurrada de mistérios e acontecimentos sobrenaturais. Aqueles que nunca tiveram contato com a obra de Douglas Adams certamente estranharão bastante esse início, pois a série não se compara com nada que temos na TV atualmente.

Todd Brotzman (Elijah Wood) é um jovem que trabalha como carregador em um hotel e busca superar seus entediantes problemas cotidianos, sendo a falta de dinheiro um dos mais importantes. A atuação de Elijah é muito semelhante à feita por ele para o personagem Ryan Newman, na ótima série Wilfred. Essa similaridade não aponta para uma má atuação, mas para uma escolha confortável de personagem, ao qual o ator já está preparado para desenvolver o mesmo estilo de humor, e o faz muito bem.

Logo Todd conhece Dirk Gently (Samuel Barnett) e sua vida começa a virar de cabeça para baixo. Dirk se diz um detetive holístico, que se deixa levar pelo fluxo natural e busca respostas na interligação fundamental de tudo, o que vemos como coincidências. De início, a atuação de Samuel pode parecer demasiadamente forçada e caricata, mas logo entendemos que ele é realmente um personagem muito diferenciado.

Involuntariamente, Todd se torna o assistente de Dirk e ambos passam a investigar o desaparecimento de Lydia Spring e o assassinato de seu pai, o bilionário Patrick Spring, que ocorreu no hotel e causou a demissão de Todd.

No decorrer dos episódios, pequenos conflitos tornam o relacionamento entre os dois protagonistas conturbado e seus ótimos diálogos nos fazem refletir sobre valores como amizade, lealdade e coragem. A fotografia e arte também receberam ótimas direções, consolidando o visual característico que deu vida e tornou crível esse universo.

Ken e Bart - Dirk Gently (Douglas Adams)
Ken e Bart – Dirk Gently (Douglas Adams)

Além do núcleo principal, a série apresenta outros plots vividos por personagens fantásticos, que se encontram em situações inimaginavelmente absurdas. Cabe aqui uma observação sobre o maravilhoso trabalho de casting, que permitiu à trama contar com membros de uma seita que troca almas de corpos, uma gangue de punks sugadores de sentimentos,  detetives e investigadores dos mais variados tipos e até dois pets de suma importância na trama: um gatinho e uma cachorra Corgi. Todos muito bem dirigidos e alinhados com o universo da série.

Dentre tantos personagens, três mulheres se destacam por sua força e independência: Amanda Brotzman (Hannah Marks), Bart Curlish (Fiona Dourif) e Farah Black (Jade Eshete). Todas possuem características bem marcantes, que são desenvolvidas em ótimos arcos no decorrer da trama. Sua evolução foi fundamental na dramatização e na representatividade da temporada.

A enorme quantidade de perguntas sem respostas pode causar certa frustração no início, mas os episódios são muito bem amarrados e convergem em um único ponto ao final da temporada, solucionando um complexo quebra-cabeça. As respostas só chegam no sétimo episódio (Weaponized Soul), que é bem didático e esclarece todas as principais questões.

> Desventuras em Série: Crítica!

Já a season finale é quase toda dedicada a desfechos, mas seus últimos minutos trazem ação e suspense, deixando um ótimo cliffhanger para a próxima temporada, que está encomendada para outubro de 2017 com 10 episódios. Agora que universo e base de fãs já estão consolidados, fica a expectativa para as investigações ainda mais bizarras que estão por vir.

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