Da mesma forma com que O Garoto criou seu próprio universo, Max Landis se baseou na obra de Douglas Adams para fazer o mesmo e nós tivemos o privilégio de acompanhar sua evolução com Dirk Gently’s Holistic Detective Agency.

Mantendo a mesma fórmula estrutural da primeira temporada, acontecimentos muito estranhos e aparentemente aleatórios são unidos através das ações de Dirk e seus amigos. A construção desse quebra-cabeça instiga o público a prestar atenção em cada detalhe e criar teorias até o último episódio, mas é praticamente impossível adivinhar qualquer desfecho da série, tamanha a bizarrice de seus acontecimentos.

O público foi muito bem apresentado a esse universo e seus personagens na primeira temporada. Com isso, a segunda teve liberdade para explorar o inimaginável em uma escala ainda maior. O aumento de dois episódios em relação à temporada anterior ajudou a dar profundidade na trama, que ficou ainda mais complexa.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency
Dirk Gently’s Holistic Detective Agency

A série continua apresentando um sofisticado humor em camadas, muito bem executado através de personagens caricatos que satirizam questões cotidianas de nossa sociedade. Seu aparentemente nonsense superficial está carregado de crítica social.

Um dos segredos sobre o carinho que sentimos por essa série é a utilização de personagens extremamente cativantes. O ótimo elenco nos permite sentir o bom coração e a ingenuidade de seus personagens em meio a acontecimentos tão grandiosos. Bart é um ótimo exemplo desse sentimento. Mesmo com todos os assassinatos, nos solidarizamos com sua busca pela compreensão sobre o sentido da vida.

A sensação de deslocamento vivenciada pelos personagens é a mesma que sentimos em momentos delicados de nossas vidas, o que nos faz querer ser parte desse grupo e viajar pelo universo em busca de todos os seus segredos.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency
Dirk Gently’s Holistic Detective Agency

É inspirador ver o amadurecimento dos personagens e o seu desejo de abraçar a loucura. Saber que tudo está conectado pode ser confortante, mas a predestinação dos acontecimentos coloca em xeque o livre-arbítrio. Esse questionamento intriga Dirk Gently em um dos momentos mais obscuros da série, mas, através de um discurso de Todd, o roteiro nos indica que os personagens podem escolher seus próprios caminhos, o que recoloca o peso de cada decisão.

O formato de 10 episódios também favorece o aumento do número de personagens, abrindo um leque de possibilidades sobre a dinâmica de cada plot. Farah Black é uma das personagens beneficiadas. Além de mostrar novamente toda sua competência em campo, Farah tem o merecido reconhecimento e se transforma em uma figura inspiradora aos policiais amadores Hobbs e Tina, de onde nascem cenas divertidíssimas.

Asa Negra também recebe momentos memoráveis. A inacreditável ingenuidade do comandante Hugo Friedkin ao tentar controlar seus “projetos” ilustra a visão que temos de figuras de poder de nossa sociedade e abre espaço para o improvável desenvolvimento de Ken.

Outra representação do potencial destrutivo de nossa sociedade é Suzie Boreton, que utiliza todo o sofrimento de sua vida como justificativa para se entregar ao poder e à maldade. Do outro lado, Amanda Brotzman também se torna muito poderosa. A irmã de Todd possui a lealdade da Arruaça 3 e é a principal ponte entre os dois mundos apresentados.

Outro destaque da temporada é a criação de Wendimoor. O trabalho conjunto de direção de fotografia e arte possibilita a materialização desse mundo incrivelmente criativo. De espada-tesoura a pé de hambúrguer, foi delicioso explorar um pouquinho de seus segredos no decorrer dessa jornada.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency
Dirk Gently’s Holistic Detective Agency

Apesar de sua absurda existência, o mundo evoluiu de forma lógica ao longo de suas três gerações e a ligação de seus personagens com os personagens do nosso mundo gera uma troca interessante de cultura e aprendizado. Ao melhor estilo Shakespeariano, muitos acontecimentos decorrem do amor proibido entre Panto Trost e Silas Dengdamor.

Importante ressaltar que toda a complexidade de Wendimoor é reflexo das vivências de Francis, que retorna ao seu mundo exatamente como ainda se enxerga e começa a consertar todo o dano causado.

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O último episódio encerra bem o ciclo narrativo da temporada e se destaca por utilizar ótimos diálogos no aprofundamento de questões filosóficas referentes à realidade e ao nosso propósito dentro dela. Partindo desse ponto, a série se propõe a levar seus personagens para novas aventuras em busca da estabilidade dessa realidade, mas, infelizmente, eles não poderão desfrutá-las, pois a série foi cancelada. Nós sabemos, é difícil não entrar em pânico.

REVISÃO GERAL
Nota:
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