Uma temporada de encontros com o que as pessoas querem, e não com o que elas são.

Spoilers Abaixo:

Seguindo a ordem natural das coisas, se começa a se ter encontros desde cedo. Ainda na escola, quando um garoto se oferece para acompanhar uma menina até em casa, já está configurando um encontro indireto. Para os homens e as mulheres heterossexuais os encontros fazem parte do cotidiano estabelecido. Com os gays é mais complicado e por isso, só fui ter um encontro de verdade depois dos 20, bem tarde. Deu tudo errado nessa primeira vez, e em muitas outras, por isso me identificar com Dates não foi nada difícil.

Para todos nós, entretanto, existe uma regra básica dos encontros: nunca, sob nenhuma hipótese, você pode ser você mesmo. O processo de conquista é valioso e omitir certos aspectos perturbadores da própria personalidade pode ser uma estratégia competente. Na maioria das vezes, a gente faz isso sem perceber. Escolhemos certos ângulos, selecionamos as palavras mais inteligentes, as opiniões menos radicais… Exalamos sensualidade. Nada disso faz parte da nossa verdadeira rotina pessoal. Não somos nós, mas é uma parte de nós. O problema é que um relacionamento exige que estejamos inteiros.

Apesar de toda essa “pequena mentira” social, os encontros continuam acontecendo e funcionando, principalmente porque fechar os olhos para o que não agrada é mais fácil do que fazer exigências. Na série Dates, entretanto, as pessoas até se disfarçam, ainda que o maior problema delas é nunca estar disposto a aceitar. Com essa primeira e ótima temporada, pudemos assistir nove encontros serem arruinados pela completa incapacidade desses personagens de simplesmente ceder.

Na penúltima semana, por exemplo, Jenny foi para mais uma das investidas em busca de conforto para seu complexo de rejeição. Abandonada pelo noivo, nunca pensa no quanto pode haver motivos fortes para ele não considerá-la “a escolhida”. Ela nunca olha pra si mesma, para suas neuroses e distúrbios, e culpa a estranheza dos homens ou a falta da interferência de Deus. Os piores ateus são aqueles que o são por acharem que Deus tem a obrigação de resolver seus problemas. Cheia de esquisitices no seu primeiro encontro com Christian, esquece que ele já teria muitos motivos para não querer vê-la de novo. Como ele não foge, ela dá.

O sexo imediato até tem sua razão de ser, já que Christian parece ter sido encomendado pra ela. O moço tem uma certa sensibilidade, inteligência e faz parte de uma pseudo-religião que parece falar diretamente para as escuridões dela (o básico de todas as religiões, aliás). O texto de Dates só vinha demonstrando sua capacidade de ser profundo e direto ao mesmo tempo, e faz nesse momento, a síntese da personalidade de Jenny: roubar é mais do que tirar alguma coisa, é a sensação de nada nunca ser suficiente.

Por mais que a chegada da esposa de Christian seja como a confirmação para Jenny de que ela tem feito as escolhas erradas, o erro começa por ela mesma, que insiste em achar que ela foi abandonada por razões que não tem a ver com ela. Toda a sequência do flagra disse muito sobre Christian, e acho sinceramente que ele poderia acabar sendo o par perfeito para Jenny. Alguém que ia aceitar os defeitos dela como partes sagradas de si mesma. Curiosamente, os próprios roteiristas parecem entender a personagem assim: em seus dois episódios de roubo, ela os fez parecer atos de “justiça humana inevitável”. Eles pareceram vinganças permitidas, algo extremamente intrigante num contexto social como o nosso.

Pior do que Jenny, só Mia. David também tem problemas gravíssimos de autoconhecimento, mas sua mania de querer Mia em seus termos, não é pior do que a personalidade sorrateira, infeliz, que ela tem. Mia tem uma forma de se comportar no mundo com o mesmo senso de insuficiência que Jenny, mas seu imenso sex appeal permite que ela manipule os homens como forma de se reafirmar. É o pior tipo de mulher “segura”, que no fundo, precisa de súditos que lhe repitam sobre suas qualidades irresistíveis o tempo. É ela quem mais finge, mascara, omite. E não sabe o que quer.

A prova disso é que nesse último episódio, ela ficou cara a cara com David e Steve. Enquanto Steve é como ela, soturno e indecifrável, David é aquele que a quer apesar de todas essas trevas Brilhantemente, o roteiro a faz recusar ver as filhas de David, para dar de cara com a família de Steve. Porém, Steve não é bom com famílias, do mesmo jeito que ela não seria, e semelhanças demais não são boas para o mundo de Mia. Ela fica mais confortável sendo adorada, e esse papel David exerce melhor que nenhum outro.

Eu arrisco dizer que na ótima cena entre David e Steve, o médico percebeu todas essas nuances simplesmente porque ele jamais socaria espelhos ou esperaria na soleira da porta, por uma mulher com os problemas de Mia. Com seu jeito quadrado, quase ingênuo de ver o mundo, David é o típico homem que se apaixona por mulheres que ele possa “consertar”, por mulheres que o possibilitem o seu exercício de virilidade, de superação da racionalidade pela força. Mia é como uma deusa imperfeita, que o excita em proporções absurdas, e conquistá-la é como a afirmação de que ele é importante de alguma coisa. Mas não nos enganemos, essa é uma relação fadada ao fracasso. Mia é inquieta e entediada… O mundo pra ela só faz sentido quando ela está infeliz.

Mal posso dizer o quanto essa temporada me agradou. Cada um dos encontros tinha tantas camadas que 20 minutos pareciam impossíveis para todas elas. E com tantos desses encontros, nove episódios também pareceram pouco tempo para desenvolver tantas possibilidades. E aqueles atores… Um time de atores de fazer qualquer diretor pagar promessas. Da riqueza de detalhes proposta por Dona Chaplin, passando pelo charme relutante de Will Mellor (David é um dos melhores personagens da série), pela insanidade de Greg McHugh, pela beleza e delicadeza impressionantes de Gemma Chan, até o carisma delicioso de Montanna Thompson. Esses e todos os outros, totalmente seguros e entregues.

Dates reflete um beco sem saída para todos nós. Na maior parte do tempo achamos que somos bons demais pros outros, ou que os outros são bons demais pra nós. É um beco sem saída, estreito demais, que praticamente nos condena à solidão. Basta pensarmos que os personagens mais bem resolvidos dessa temporada não tiveram outra chance na tela. Dates privilegiou o tremor e o distúrbio, que são basicamente a base da pirâmide da nossa sociedade.

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