Demolidor continua sua difícil tarefa de conectar todas as suas tramas.
Enquanto avançava com seu roteiro durante o início de sua segunda temporada, Daredevil lançou mão de várias histórias entrelaçadas. Vários fios foram soltos e desde o episódio anterior a missão de juntá-los em um grande novelo começou. 38 é um capítulo que faz exatamente o que é esperado, ele começa a amarrar personagens e dar uma noção de que tudo faz parte do mesmo problema. Porém, tão próximos do final da temporada, a impressão que fica, mais uma vez, é que a série impõe um ritmo muito grande para o seu começo e depois termina perdendo força enquanto “se arrasta” até a conclusão final. Talvez seja o modelo da Netflix, que preza por segurar o telespectador no começo e toma vários momentos para recuperar o fôlego, mas a imagem que fica é de que talvez, o melhor seria não apresentar todas as suas armas tão cedo.
O foco permanece dentro de Frank Castle e Karen Page em um episódio que é praticamente o começo do spin-off do personagem. Continuo gostando muito da maneira que a série decidiu explorar o lado do seu anti-herói colocando-o para trabalhar ao lado de Karen. Está sendo uma experiência muito boa ter o aprofundamento de personagens tão importantes para a Marvel. Ambos possuem muitas histórias e relevância dentro da série e é um tipo de parceria que coopera bastante para criar tensão e mais personalidade para o roteiro. Entretanto mesmo dentro de uma história que está sendo muito bem conduzida já é possível encontrar uma grande quantidade de mais do mesmo. Karen e Frank ainda estão presos em uma bolha de repetições que permanece desde que a agora repórter investigativa decidiu colocar as mãos no caso Justiceiro. Karen quer muito acreditar na redenção de um pai de família e herói de guerra, mas a partir de seu primeiro contato com Castle já estava mais do que claro que o código, outro ponto que ela já havia ressaltado, é mais importante do que qualquer tipo de salvação.
De fato é importante para a série colocar seus personagens dentro de situações que fogem ao controle e é exatamente o que está sendo feito com a dupla Page Castle. Contudo ainda tenho algumas ressalvas quanto a maneira que a história está sendo apresentada. Já está começando a ficar um pouco cansativo e espero, sinceramente, que com a separação final entre os dois tudo mude um pouco. Não dá para ficar comprando que a ex assistente jurídica tenha uma fé tão inabalável assim, não quando o homem que ela está tentando salvar claramente não quer ser resgatado. Claro que dentro do espectro do “time” e da “equipe” de vigilantes foi ótimo ter a quase parceria entre Justiceiro e Demolidor, ocorrendo através do ainda nebuloso Blacksmith. Foi através do vilão, um ponto que estava meio falho dentro de uma temporada com tantos anti-heróis, que também conseguimos ter acesso ao retorno de mais um personagem marcante da primeira temporada da série, a Madame Gao.
É muito complicado ter material para sempre criar algo novo. Constantemente séries menores, mas com mais episódios, prezam por inserir uma quantidade massiva de personagens saídos dos quadrinhos para criar certo interesse. São os vilões da semana, personagens conhecidos dos fãs mais antigos e que pipocam semanalmente em nossas listas de seriados. Por isso eu não reclamo da presença de alguns rostos do ano de estreia de Demolidor. É uma maneira de deixar tudo mais contido e de passar também a imagem de que o que está acontecendo é parte de uma mesma história. Só que não devemos também deixar de comentar que isso já está sendo feito na TV aberta, com outras séries. Colocando personagens e mais personagens da primeira temporada o roteiro expõe uma espécie de ano 1B. É ruim? De maneira nenhuma, especialmente quando levamos em consideração que entre uma temporada e outra existem outros produtos Marvel Netflix para consumir. Mas também demonstra como é pensada a coesão dessas produções.

Infelizmente, no meio de tudo o que está acontecendo, já é possível encontrar um pouco de fatiga dentro do texto da série. Existiu muito tempo desprendido para a história de Claire Temple, de uma maneira que me fez questionar até mesmo a quantidade de episódios de Demolidor. Será que treze é o número de sorte? O que está acontecendo com a produção e menciono isso como um padrão também reproduzido em Jessica Jones, é que o fio da história queima muito rápido, de uma maneira que não deveria acontecer por estarmos lidando com uma temporada reduzida.
Parte do que aconteceu com a trama da enfermeira foi a tentativa de criar um caminho para sua participação em Luke Cage. É o holofote colocado em sua saída do hospital e a procura por um novo tipo de norte dentro da grande confusão que os vigilantes estão trazendo para Nova York. Até certo ponto concordo que é essencial dar um valor a mais para Claire e a belíssima Rosário Dawson, que realmente está excelente no papel da Night Nurse do MCU. Contudo não existiu dentro da construção central algo que justificasse tanto tempo ouvindo falar de assuntos que já sabíamos desde o retorno de Nobu. Sim, existe algum mistério correndo dentro do Tentáculo, algo que envolve pessoas mortas voltando a vida etc. O propósito de expandir a mitologia serviria melhor se alguma informação nova estivesse sendo apresentada. Do jeito que foi soou como um grande tapa buraco que evidenciou o cansaço prematuro de Demolidor.
Como décimo primeiro episódio e preparação de terreno para o final do seu segundo ano ainda é possível ver muita gordura sendo queimado, mas com velocidade aquém do ideal. Demolidor se beneficiaria e muito se utilizasse melhor o seu tempo. Ainda gosto bastante do ritmo da série, mas fica evidente que ela utiliza suas melhores cartas durante o começo, o que acaba prejudicando bastante o final. Talvez o problema seja com as minhas expectativas, já que estou muito acostumado com o padrão da TV linear, um padrão que faz sempre o oposto e prefere terminar com uma explosão. De qualquer forma não perderíamos nada se esse cuidado fosse aplicado aqui também. Entendo que a Netflix não precisa fidelizar o cliente após o final da série, mas sim no começo. Então quem sabe não termino me acostumando a ter o inverso do que já consumia por anos e mais anos? É a proposta do serviço de streaming, after all.
Easter eggs e outras informações
– A montagem da cena do restaurante com os dois capangas me fez lembrar outra atual propriedade da Disney, Star Wars. E todo mundo sabe, ganha quem atira primeiro.
– Através da cena de resgate da Claire foi possível ter uma impressão de como o Demolidor poderá utilizar sua arma retrátil com cabos de aço. É uma boa maneira de conectar o personagem a sua contraparte nos quadrinhos.
– Um episódio menos carregado nas referências aos quadrinhos, mas com várias informações já explanadas nas reviews anteriores.
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