Nelson e Murdock, apenas dois estudantes de humanas querendo salvar o mundo.

Quase às portas do season finale, a série decidiu dar uma pausa na cruzada de Matt e nos apresentou um episódio mais centrado, em que os personagens principais nem sequer deixam o conforto do apartamento do vigilante mascarado. Nelson v. Murdock vem carregado de simbolismos e além de nos explicar a natureza de uma amizade, também nos ilumina quanto a primeira aparição do lado sombrio do advogado cego da Cozinha do Inferno. Recheado de socos no estômago, Nelson v. Murdock é mais uma história de origem, a da amizade de Matt e Foggy.

Foggy estava merecendo um pouco de aprofundamento, suas sacadas mais cômicas e seu comportamento menos heroico sempre foram bons para segurar as pontas, quando a série passava o mundo fora do ponto de vista do Demolidor. Porém, não tem como negar, foi o melhor momento para o ator Elden Henson, que estava carente de um pouco de atenção por parte do roteiro, que até então insistia em enfiá-lo na missão “vamos derrubar o Fisk, mesmo sem saber como”. O grande trunfo de Nelson v. Murdock é mostrar que Foggy não nasceu para ser apenas o alívio cômico, função que ele já não vinha desempenhando há algum tempo.

E eu adorei todas as interações entre os amigos, além da forma traída que Foggy se comportou, mais uma vez, mérito do excelente Henson. Olhando tudo através do ponto de vista dele, fica evidente que Matt realmente mentiu, desde o começo da amizade. Matt é “cego”, mas não totalmente. Na verdade, tirando sua falta de habilidade em enxergar como os outros, Matt acaba vendo e sentindo muito mais do que qualquer outro humano comum. Logo, os anos agindo como protetor, confidente e amigo, recebem uma senhora facada nas costas. Justificando exatamente toda a mágoa que Foggy sente e permanecerá por algum tempo.

Lentamente o roteiro foi sendo construído, não para demonstrar o quão importante era a amizade entre os dois, mas como ela não sobreviveria após a traição. Tudo o que Foggy é hoje, foi graças ao Matt, ou seja, “pobre”, sem namorada e com todas as ambições possíveis sufocadas pela consciência de que eles devem fazer o que é certo. Matt por outro lado, só pode se desculpar e tentar explicar para o amigo o seu ponto de vista, que convenhamos, não é muito convincente quando você leva em questão uma amizade de anos. Nossos personagens são humanos, e como todo bípede evoluído com polegares opostos, nos ressentimos com muita facilidade.

Do outro lado da cidade vemos Fisk pagando caro por ter se tornado uma versão mais branda de si mesmo. O pior de tudo é que todos sabem de sua instabilidade, após o momento em que ele fez o possível para desmantelar a ação dos russos e jogar Nobu contra o vigilante, esperando que ambos se matassem no processo. E é aí que entra Ownsley, que anda me divertindo bastante com seu jeito debochado. Ele fala exatamente aquilo que qualquer um pensaria, todos os medos e receios de se aliar a um homem que em minutos, pode se voltar contra os próprios aliados.

E palmas lentas para madame Gao. Eu sou um amante de personagens crípticos e cheios de frases misteriosas, além de adendos de sabedoria. Gao é a personificação de todos esses elementos. Ela demonstra para Fisk exatamente tudo o que eu já vinha batendo nas reviews anteriores, a grande diferença entre Wilson e o Matt. Fisk mora em cima do muro, ele tenta salvar a cidade sendo um ditador, oprimindo as pessoas e os próprios aliados. Um choque de realidade que o cara precisava, com urgência.

Ben Urich estava também carente de um pouco mais de aprofundamento. Nós sabíamos sobre seu passado de glórias, sua queda e eventual busca por algo que o movimentasse, que o inspirasse. Karen apareceu com a faca e o queijo, mas Ben ainda não sabe se gostará do sabor do prato oferecido. Sua mulher, debilitada, seus sentimentos e lado humano, menos robótico, me fez entender um lado do personagem que até então era apenas mencionado. Sendo esse um dos pontos que mais gostei em Nelson v. Murdock, a fluidez do roteiro que deixou o mocinho deitado e nos agraciou com várias nuances para os coadjuvantes.

E se Karen esteve um pouco apagadinha, eu finalmente encontrei vários motivos para elogiar a moça. Posso ter sido um pouco injusto com a personagem, mas ficar seguindo a equipe de investigação amadora por toda Cozinha do Inferno, sem nenhuma informação realmente válida, foi bem frustrante. Agora, com a descoberta da mãe do Fisk, tudo recebeu uma nova importância. Karen cruzou um limite, ela não pode esperar que a suas ações passarão desapercebidas, e foi exatamente com sua ousadia, que eu vi um panorama de chances novas para a série utilizar a personagem, sem focar no lado coadjuvante que existe, mas não coexiste com o roteiro.

O próprio episódio abusa do ritmo mais lento e só nos entrega uma cena de luta, no flashback que nos mostrou o que dirigiu Matt a inconformidade com a lenta e às vezes ineficaz justiça dos homens. Nelson v. Mursock trabalhou com calma, nos dando uma chance para respirar antes das coisas começarem a ficar realmente conturbadas. Acabamos de entrar no ritmo do season finale e eu imagino que agora só nos resta a ladeira abaixo.

Easter eggs e outras informações

– Depois de muito tempo, finalmente uma referência verdadeira a presença de Elektra Natchios na vida do Demolidor. A estudante grega e super hot que o Foggy se refere é a assassina, que futuramente deverá trazer mais do que beleza e charme para a vida de Matt Murdock.

– Elektra também é uma pupila do Stick, mas diferente do ex-namorado, ela trabalha como caçadora de recompensas. Ela também já auxiliou os ninjas do Tentáculo várias vezes.

– No escritório do Ben Urich é possível ver o recorte de duas manchetes do Boletim: “Batalha de Nova York” e “Terror no Harlem”. Bom, a primeira se refere a invasão alienígena do filme Vingadores e a segunda ao Incrível Hulk. Vocês devem se lembrar que Bruce Banner diz não ir para Nova York, já que da última vez ele quebrou o Harlem.

– Roxxon é uma corporação com poucos escrúpulos e que já apareceu nos filmes do Homem de Ferro e na série Agents of S.H.I.E.L.D.

– O senador Randolph Cherryh é um político corrupto que foi introduzido no número #177 (1981), escrito por Frank Miller e Klaus Janson.

– Owsley menciona um certo Van Lunt, que tem uma fixação com astrologia. Nos quadrinhos ele é o vilão Tauros.

– Em certo momento Owsley diz: “Não se esqueça de confirmar que o Richmond está na lista de convidados. Ele não virá, mas ficará bem estressadinho se não for convidado”. Richmond é o Nighthawk, um dos integrantes dos Defensores clássicos.

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