Nunca vou ser super-herói. Nunca vou domar dragões. Nunca vou ser presidente dos Estados Unidos. Nunca vou ser agente da CIA. Nunca vou ser cantor de uma grande gravadora. No máximo de karaokê. 

Mas quando ligo a TV, posso ver todas essas histórias que estão muito, muito distantes da minha vida comum.

Só que ver nossa própria vida na tela é tão ou mais legal que ser transportado para esses lugares distantes. E foi isso que descobri com Looking.

Nenhuma outra série me representou tão bem quanto Looking. Mesmo que outras tenham chegado perto.

Glee foi um marco para as minorias. Especialmente para os gays. Porém, nunca senti o preconceito na pele como os personagens da série. Eu sabia que a bandeira que estava sendo levantada era minha. Eu quero viver num mundo onde as pessoas não são discriminadas pelo que elas são. E por isso eu sentia empatia, mas não necessariamente identificação.

Com Girls, Lena Dunham se autoproclamou a voz de uma geração. E pela primeira vez vi minha geração sendo retratada de forma tão real. Mas a série é contada sob pontos de vista femininos, então nunca poderia rolar uma identificação total.

Aí chega Looking, com personagens que são jovens adultos, de classe média, gays, vivendo numa grande cidade longe da família. Ou seja, eles são eu. Os problemas que eles vivem são os meus. Problemas normais: de relacionamento, de trabalho, etc. Problemas que todo mundo vive, só que pelo ponto de vista de homens gays. Pela primeira vez, pelo meu ponto de vista.

Looking me fez rever posições, conceitos e pré-conceitos que eu nem sabia que tinha. Looking me fez reviver discussões passadas e me deu a oportunidade de encará-las por um outro ponto de vista.

Às vezes, Looking retratava episódios da minha vida com tanta precisão que eu me perguntava se não tinham câmeras instaladas na minha casa ou roteiristas-espiões me perseguindo.

Por isso, vou sentir falta dessa meia horinha semanal da minha vida na tela. Por mais que existam outras produções com personagens gays, era Looking que trazia personagens que consigo me identificar 100%.

Duas temporadas não foram o bastante. Ainda havia muito para ser mostrado. Muitas situações para serem exploradas. E sei disso porque estou vivendo estas situações. Todos os dias. Só faltava continuarem transpondo para a tela.

Não é difícil se enxergar na TV. Basta ela estar desligada que nosso reflexo está lá, no preto da tela. Mas agora, acredito que a verdadeira mágica acontece quando ligamos a TV e continuamos nos vendo nela.

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