O grito mais alto do amor mais maldito.

Eu não vim de um lugar onde o mundo acontece… Hoje eu faço parte da correnteza da vida, mas antes, antes de ser uma célula ativa no organismo da existência, eu apenas via os dias passarem. No interior de onde vim, na minha pre-adolescência de final dos anos 80, não havia espaço pra entender diferenças, e não ser igual era ser infeliz.

Eu não era um igual… Eu sentia desejo por outros meninos. E não havia uma só pessoa capaz de poder me dizer por que aquilo acontecia comigo. No nosso desespero pela agregação social, qualquer vestígio de qualquer coisa que possa representar a margem, vira um pânico internalizado constante. Mas, ainda bem, existia um vislumbre do mundo funcional que podia ser ligado todo dia na minha sala: a TV. E quem sabe dela eu poderia tirar algum conforto?

Não seria fácil também… Naquele pedaço esquecido de planeta, não havia muitas opções. Nos filmes, o corte. Nas novelas, o medo. Os gays até apareciam ali, mas apenas para continuar a serem ridicularizados. Mas eu, sempre faminto de mundo, queria enfrentar a inércia e desvendar as séries de TV. “Dawson’s Creek” me deu algumas seguranças tão sonhadas e tão longínquas. Jack foi a resposta para a existência do amor, a despeito de todo o sexo vivido nos guetos. Era o que a televisão poderia me oferecer, até aquele momento: o amor maldito pelo mundo, bendito pela voz dos que entendiam o que era senti-lo.

Ali, escondido na sala, depois que todos iam dormir, eu chorava quando uma pequena cena, em qualquer dramaturgia, me oferecia aquele pedacinho tão importante de similaridade. Eu me arrepiava quando em qualquer série, alguém falava pra mim. No meio de uma maioria brutal de representações da união heterossexual, eu só tinha alguns pingos de atenção do mundo de fantasia que eu acompanhava com tanto ardor. E naquelas cenas em “Dawson’s Creek” eu encontrava a força para viver meus anseios sem precisar escondê-los de mim. Nas produções brasileiras, entretanto, só havia uma imensidão de propostas vagas.

Ontem pareceu, mesmo que por um pequeno momento, que talvez estejamos a caminho de uma mudança de recepção. Não digo “mudança de tratamento” porque essa já é muito difundida. Mais do precisar de um melhor tratamento, precisamos, os gays, de compreensão. É ela, a compreensão, o item que mais falta na receita que faz com que a homossexualidade seja só um traço e não apenas um ato.

Acho que “Amor à Vida” nos ofereceu isso: compreensão. Como nunca aconteceu, a trajetória de Félix e Niko se construiu nas fundações do entendimento. Um sentimento de amor que deslizou da provação para os dois lados. Felix descobrindo a gratidão e a solidariedade e Niko descobrindo as dores da paternidade. Os dois então, se descobriram. E de mansinho, discretamente, começaram a se tornar essenciais porque se tornaram identificáveis. Quem nunca precisou de perdão? Quem nunca sofreu por um filho? De repente, esses personagens não eram o estereótipo do humor escrachado ou da sexualidade ambígua (aquela que sempre faz os personagens gays se envolverem com uma mulher). Vejam bem, eles ainda eram estereótipos, mas daqueles próximos de você e de mim, nesse mundo de tipologias que nos cerca, mas que nem por isso é menos realista.

“Amor à Vida” nunca foi uma novela boa. A prova disso é que esse casal é um acidente, esse fim é fruto da correnteza. Os protagonistas eleitos ficaram pra trás, porque o amor “verdadeiro” aconteceu sem querer, como nas boas viradas da vida, e não como nas “armações” da ficção. Essa novela nunca foi boa, mas marcou sua passagem fazendo o que nenhuma outra nunca fez: celebrar o amor, independente de quem emana esse sentimento. Não é só o beijo, não é só a militância gay, esse último capítulo falou de amores que tem a ver com muito mais do que o “casal romântico”. Amor entre homens… Amor entre pai e filho, lutando pra existir a despeito de toda a dor que o tornou latente. Assim como em “Avenida Brasil”, o amor protagonista não foi o carnal, mas o metafórico. O último take privilegiou um olhar e uma lágrima entre dois personagens que atravessaram tempestades, mas que a despeito de toda a tradição do casal principal, eram pai e filho, preconceito e diferença, discriminação e compaixão. “Amor à Vida” conseguiu ser terrível e ao mesmo tempo, se marcar na história. Ainda bem, que pelos motivos certos.

Minha amiga Letícia Fonseca disse que não assistiu o capítulo, mas ouviu aplausos em seu condomínio. Sendo um dos rapazes gays que passou os anos 90 como um adolescente cheio de ânsias, o beijo entre Felix e Niko é como chorar no final de um lindo filme: dói, mas é bom. Dói porque quando você tem  15 anos e sente atração por outros rapazes, tudo que você quer é saber que seus sentimentos são a mesma forma de amor que afeta a vida de qualquer pessoa. Quando alguém sai do armário, quando o amor entre dois homens é mostrado na TV, ele não oferece “um modelo a ser seguido”, ele oferece um bálsamo, uma identificação, um conforto. Você, um homossexual com 15 anos, pode relaxar… Você pode amar, e podem amar você. Foi isso que a Globo fez naquele dia… Ofereceu um conforto e uma esperança… E sempre serei grato por isso.

Amor é amor em qualquer instância. Na imagem abaixo está o grito mais alto do desejo mais profundo: um beijo é confirmação, é demonstração, é coerência.

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