Considerado um fracasso de bilheteria quando lançado, Tron: Uma Odisseia Eletrônica (1982) logo se tornou um clássico cult da ficção científica pelo seu pioneirismo não só pelo uso da computação gráfica no cinema, mas por imaginar um universo virtual quando a tecnologia da computação ainda dava seus primeiros passos.
Ainda que nunca estabelecida como uma das joias do catálogo da Disney, a produção nunca foi negligenciada pelo estúdio, rendendo séries, jogos, parques temáticos e a continuação Tron: O Legado (2010), que como o nome já diz, se aproveita do legado da história para a produção cinematográfica recente, num longa vazio de significado, mas visualmente majestoso.
Eis que, 43 anos depois do original e 15 anos após a sua sequência, a empresa lança nos cinemas Tron: Ares (2025), filme que tem a missão de não só corresponder ao apuro visual e tecnológico de seus antecessores, como também dar uma nova vida para a franquia que sempre lutou pra gerar lucro nas telonas.

Ares (Jared Leto), um sofisticado programa de IA de segurança criado por Julian Dillinger (Evan Peters), é transportado para o mundo real e se encontra em meio a uma disputa entre duas empresas pelo Código da Permanência. Essa tecnologia, que pode dar vida a seres digitais, leva Ares a cruzar o caminho de Eve Kim (Greta Lee), CEO da ENCOM, que detém tal código e guarda um segredo capaz não só de alterar o seu destino, mas o de toda a humanidade como a conhecemos.
Comandada de forma eficiente por Joachim Rønning, a ação é o que dita o ritmo aqui. E ela é ótima. Desde a cena de abertura até o final apoteótico, o espectador é levado numa montanha-russa visual e sonora que em nada deve aos longas anteriores. A escolha de trazer desta vez os seres digitais pro mundo real também dá um senso de novidade, dando mais peso ao perigo e criando uma sensação de urgência.
A Grade da Dillinger parece saída de um sonho cyberpunk fetichista delirante, toda construída em tons de vermelho e preto que casam perfeitamente com essa proposta mais visceral que o longa carrega em sua proposta. As sequências de luta estão entre as melhores do ano e se aproveitam de forma magistral dos belíssimos efeitos especiais pra explorar não só as coreografias, mas também o espaço onde elas estão inseridas, algo que fica ainda mais evidente numa sala IMAX, que preza não só pela imagem, mas também pelo som.
Falando nele, o som cria uma experiência quase 4D. É tudo tão superlativo, tão imersivo, que você sente literalmente no corpo as ondas de choque da potência das pancadas e explosões. A trilha sonora do Nine Inch Nails, (que também são produtores) só coroa ainda mais essa sensação. O estilo eletrônico/rock industrial da dupla cai como uma luva nessa fantasia futurista com pitadas de rebelião.

No campo das atuações, o longa também surpreende. Leto, acostumado ao seu processo histriônico de criação de personagens, encarna um Ares simpático e carismático, que não parece exagerado como alguns de seus outros personagens. Lee parece um pouco deslocada em alguns momentos, mas também funciona como heroína da ação e entrega bons momentos dramáticos. Jodie Turner-Smith encarna uma Athena interessante, servindo como um contraponto típico ao papel dos programas como os conhecemos dentro da mitologia de Tron. Mas o destaque mesmo vai para a interação entre Peters e Gillian Anderson, que dá vida a Elisabeth, mãe de Julian. É uma relação cheia de camadas, não só de proteção, mas também de rancor, com um componente shakespeariano latente e que culmina de modo tétrico no final do filme.

O roteiro continua com a tradição de tocar em temas caros ao mundo da tecnologia, mas sem se dedicar a se aprofundar nas questões filosóficas despertadas por eles. Seja o conceito de vidas digitais, o uso da IA para a militarização ou o papel da mesma como motor para a evolução da humanidade, o roteiro passeia de modo protocolar por eles, se apoiando em convenções batidas, mas que não estragam o conjunto da obra. Até mesmo o subtexto religioso, com a figura messiânica de Kevin Flynn (Jeff Bridges), fica um tanto quanto superficial perante ao apuro visual da reconstrução de ambientes do filme original.

Tron: Ares é um filme que merece ser visto nos cinemas pelo seu espetáculo imersivo e sua capacidade de transportar o espectador para outro universo durante suas 2h de exibição, bebendo direto da fonte do longa de 1982, mas voltado pra ação e o entretenimento. Uma adição interessante para a franquia que resgata a história para uma nova geração ao mesmo tempo que abre possibilidades interessantes para o futuro.
PS: Há uma cena no meio dos créditos finais.
*O Série Maníacos assistiu o filme a convite da Walt Disney Studios Brasil















